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Não passa pela cabeça de ninguém que, mais cedo ou mais tarde, não se chame à equação da candidatura a Capital Europeia da Cultura as associações culturais de Leiria e arredores, que tanto têm contribuído para a contemporaneidade e vitalidade da cidade e do distrito. Nesta primeira fase, não foram. Começou tímida a festa, pá!

E os anos vão passando, os suficientes para ainda escrever “pá” e não “pah”, como escrevem agora. Credo, o que é isso? Adiante. Ando nisto do associativismo há 20 anos. Tem sido giro (o termo é esse), embora por vezes diga a mim próprio, por brincadeira, que deve haver crimes mais graves com penas mais leves. Assisti por dentro ao subir a pulso e ao triunfo do associativismo em Leiria. A brincar a brincar, estive ligado ao Nariz, à Fade In, à fundação da Ec0, a esta aventura insana que é a Preguiça Associação Criativa (responsável pela Preguiça Magazine, entre outras coisas), colaborei pontualmente com mil e um projectos, escrevi em jornais, fiz rádio, editei um livro, falei em debates, apresentei livros, toquei ao vivo, produzi concertos, entrevistei pessoas, tudo isto sem ver um tostão, sem dar por ela e a rir.

Tendo estado sempre rodeado de uma massa crítica assinalável – são muitos ligados à música e poucos vão em cantigas – fruto deste percurso ligado às indústrias criativas, tanto nesta vertente comunitária como profissional. Sou do tempo da Expo 98, do Euro 2004, vi ao vivo e a cores o arruinar da cidade e o que aconteceu quando Leiria chamou arquitectos com fama a intervir: o crime e o provincianismo que é estádio do Taveira, que continua por acabar e é aquilo que se vê; o centro cívico do Gonçalo Byrne é um projecto amputado, entregue a associações de valor, porém amigas do executivo camarário e completamente divorciado dos leirienses, que pouco sabem o que lá se passa.

Foi já na vida adulta, com alguma bagagem de vida, e a precisar de uma boa desculpa, que decidi voltar a estudar. O mestrado em Comunicação e Media, na ESECS do nosso IP Leiria, permitiu-me pegar precisamente nestas dinâmicas culturais, porque sempre achei que a movida leiriense e o estatuto que hoje Leiria tem também se deve muito ao movimento fora do circuito dos canapés.

Isto nos anos 90 era diferente. É certo que os tempos também eram outros, mas apesar de alguns esforços por parte de algumas pessoas, na altura, dentro da autarquia, pois há sempre gente boa em todo o lado, o centro urbano parecia que estava só destinado às visitas e a momentos de gala, com senhores de blazer, daqueles que tossem para disfarçar o peido, e senhoras com um cheiro a perfume que não se podia.

Quem queria ouvir certo tipo de música tinha de sair da cidade. Os territórios à volta desempenharam um papel importantíssimo como veículos de legitimação de uma identidade, não só leiriense como de todo o distrito, numa disciplina historicamente vocacionada para os centros urbanos, mas que aqui fazia o circuito inverso, fruto de políticas pouco ágeis e de entrave ao desenvolvimento.

Sim, algumas coisas podem evoluir com o tempo, mas em comparação com aqui à atrasado, veja-se o quão vibrante (em comparação, repito) Leiria se tornou, graças à proliferação de actividades mais contemporâneas dentro do seu tecido mais urbano, embora continue a haver, fora do limite citadino, sinais fortes – e que bom que assim é – de manifestações culturais de índoles diversas, que só dignificam o concelho.

Mas nem só de punk rock ou house music se fazia a movida leiriense. Com dedicação, as pessoas foram reclamando espaço à cidade, o inevitável aconteceu, surgiram outras expressões artísticas, bares alternativos e posturas diversas. A auto-estrada Lisboa/Porto encurtou distâncias e o choque inicial, de quem deveria saber que ser alternativo não significava ser delinquente, ou que nem toda a música era “berreiro”, foi mudando aos poucos, isto numa cidade onde até há pouco tempo os Mercedes tinham prioridade nos cruzamentos.

Algumas conclusões da tese de mestrado foram interessantes: a criação de dinâmicas regionais, o compromisso com o território e o reforço da identidade cultural que hoje vivemos, muito se devem à validação ocorrida neste circuito que hoje conhece a forma de associativismo. Por sua vez, este tem origens nas mais diversas plataformas artísticas, que sempre se fizeram valer de forma independente, desde os anos 90.

Quer isto dizer que, fazendo um diagnóstico a quem hoje em dia está activamente a trabalhar nas diversas associações que colocam constantemente Leiria no mapa da modernidade, constatamos que são pessoas que vêm deste background atrás descrito. Esta autêntica dream team tem currículo, experiência, uma rede de contactos de sonho e são todos bastante qualificados.

É este novo paradigma cultural – arrojado para a dimensão da cidade e atrevido num meio ainda conservador – fruto de uma geração empenhada e informada que, desgraçadamente, este arranque rumo a uma candidatura ignorou. Só nas sociedades analfabetas, já dizia Lévi-Strauss, é que não há erros de gramática. Há aqui gente de valor, e alguma dela, pode dar um contributo válido.

O nosso património é bom, é de excelência e recomenda-se, mas ao ler no site da RTP as ideias de Raúl Castro, a capital da cultura não está a ser construída no vazio e era interessante acordar para esta ideia rapidamente: museu de Leiria, museu de arte sacra, moinho do papel, ascensores para o castelo e uma nova cafetaria, museu mimo, torre sineira, Sé, centro de diálogo interculturas na igreja da misericórdia, museu escolar, agromuseu dona Julinha, é disto que estamos a falar, segundo o presidente da autarquia.

A pergunta é: Leiria ainda vive no crime do Padre Amaro? E o resto? Está um pouco manco, não? Guimarães, berço de Portugal, teve uma vertente muito mais contemporânea, e claro que ainda falta tempo, e a bem da ordem no cosmos, será um pouco prematuro antever o que será contemporâneo daqui a 11 anos, mas já pode haver um pilar nas traves mestras. Só a ESAD, ao ritmo actual, vai formar 2000 novos diplomados na área das indústrias criativas até 2027. Aquele lugar-comum de que só temos uma hipótese para causar uma primeira impressão, é bem verdade, e convém que corra bem e seja agora. Acho eu.

Como em todas as sociedades diversificadas, nem todos querem contribuir: uns por feitio, outros por falta de vocação, ainda mais outros por convicção, também aquelas criaturas mais preocupadas em si mesmas e a dizer “já vos topei, mas a mim ninguém me passa a perna”, o que é um bom argumento para nunca fazer nenhum ou até aquela malta adepta do “façam, ainda não sei se vou, mas gosto de pensar que se me apetecer, já tenho o que fazer”.

Nós por cá, a Preguiça Magazine tem ouvido nos últimos dias vários agentes culturais, que, de formas distintas, quase todos aceitam o projecto com agrado e estão disponíveis para dar o seu contributo. E no meio de todos estes elogios ao associativismo, o grande elefante na sala, é o facto das associações nem sempre estarem de acordo umas com as outras (nem têm de estar) ou não colaborarem frequentemente umas com as outras (será que têm?). Porém, aqui, outros valores se levantam, e habemus uma linha de pensamento comum.

Apenas com o grupo de trabalho que foi agora inicialmente formado, a expressão “mais do mesmo” borbulha como guronsan em dia de ressaca e parece que voltámos aos anos 90. Nada mudou? Nada disto contou? A cidade transformou-se, tem mais massa crítica do que nunca, e era… vá… “simpático, agradável e cultural” que isso fosse tomado em linha de conta. Não, não é a Preguiça a fazer-se ao piso, pois ninguém sabe onde estará daqui a 11 anos, mas façam-me o favor de olhar para esta geração de agentes culturais da cidade. Têm trabalhado com eles e tudo, mais uma razão para não perceber porque é que não contam com eles logo de início.

Curioso que, em 2009, no extinto bar Alinhavar, em plena campanha para as autárquicas, convocaram várias associações culturais, pelo que presumo que, na altura, lhes tenham reconhecido valor, e quiseram ouvir as suas ideias. E dali até surgiram coisas boas. E agora não? Para as de 2017 será tarde, e não passa pela cabeça de ninguém que, mais cedo ou mais tarde, o diálogo não surja, mas urge clarificar essa situação.

Isto de individualizar é uma chatice, mas para além dos apelativos vídeos de “Visite Leiria”, que estão nos trinques, veja-se, a título de exemplo, este teaser, lançado pelo festival A Porta, e que já roda insistentemente no Canal 180. É esta dose de loucura, descomplexidade, descontração – e porque não alguma transgressão? – que também falta a esta candidatura. Não vale a pena entrar numa de “nós e eles”, pois a diversidade e transversalidade é mais do que desejada, mas isto não vai lá só com o Eça, que o tipo nem gostava disto, e veio para cá contrariado. Essa é que é essa.

Guimarães 2012 foi uma linda festa, (pá!) mas teve problemas como em todo o lado, desde os casos mais mediáticos, como os salários dos administradores, até à substituição da presidência da Fundação Cidade de Guimarães, que se fez precisamente com a entrada do caldense João Bonifácio Serra, que já integrava o Conselho de Administração da Fundação, desde 2009. Trata-se, portanto, para Leiria, de uma escolha com currículo, de uma pessoa que ainda por cima é aqui da região, assim como não há nada a apontar aos outros elementos que integram o grupo de trabalho inicial (ok, há PS a mais). Por si só garantem qualidade, mas não chega.

Por motivos profissionais, conheço bem os cantos ao Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Lembro-me perfeitamente da indignação de alguns dos técnicos daquela casa, quando uma determinada personagem da autarquia, bloqueava – para ir ao cabeleireiro que ficava mesmo ali – o acesso à entrada que dá para o palco, na parte de trás do edifício. Isto pode parecer um pormenor, mas alguém com o mínimo de visão, e já agora de respeito para com quem trabalha, mas sobretudo, com a percepção de como se posiciona no terreno fora dos gabinetes, nunca faria uma coisa destas. É isto que também falta. Mas não no sentido que está em falta, porque, repito, o grupo de trabalho é de valor. Mas porque acrescenta.

Como isto anda tudo ligado, foi durante um seminário no âmbito do mestrado que tive a oportunidade de ouvir precisamente João Bonifácio Serra, e a sua experiência em Guimarães, e de como foi importante integrar as pessoas e fazê-las sentir que também pertenciam à festa. Foi já numa fase muito mais avançada, não foi certamente 11 anos antes, mas é bom lembrar os resultados positivos que daí saíram, quando liderou o processo de organização e programação cultural, pelo menos, naquele imediato. À la longue, é outra conversa.

Visitei Lille em Novembro do ano passado, e na altura escrevi aqui na Preguiça Magazine, depois de falar com agentes culturais da cidade, ligados precisamente a um legado (um óptimo case study de uma pós-capital da cultura) que já vem da Lille Capital Europeia da Cultura 2004: “O discurso de que a festa é de todos foi usado com pragmatismo, ou seja: numa festa que se quer para o mundo, a comunidade local que se quis envolver assim o fez com muito orgulho, e fez muito bem. Mas não houve lugar ao já estafado tom paternalista do facto de a festa ser para todos, com o intuito de com isso tentar sacar a habitual mão-de-obra de borla. A este nível de exigência seria estranho, e respeitou-se isso. Organizou-se, honrou-se a cultura como ela merece”.

Essa coisa tão século passado – “ai vocês são todos muito giros, têm todos imensa piada, mas agora deixem aqui a malta tratar disto, que quando nós precisarmos, chamamos-vos” – cheira a mofo. A sério que cheira. E a naftalina, já agora. Por um lado, creio que se está um pouco tudo a borrifar se convidam, ou não, para inaugurações à base de canapés, rissóis e pastelinhos de bacalhau com brisas a acompanhar. Mas não deixa de ser sintomática a ausência de alguns agentes culturais da cidade em ocasiões decisivas para as quais não são convidados. Entre outras, como esta agora.

Outro cliché é o facto das cidades terem, vejam lá, gente dentro. E quando elas desistem do seu território é que começa a ser trágico. Como cidadão, exijo respeito. Acho que a cidade também. Leiria ainda teima olhar para um status quo que já não existe. Esse conceito de que qualquer coisa tem de mudar para que tudo fique na mesma é perigosa e tem de ser combatida. Portugal tem um sem-número de sucessos, mas também tem outro tanto de oportunidades falhadas. Seria uma pena que esta fosse mais uma.

Em 2027 serei um senhor, espero que ainda mais respeitável do que hoje sou, barrigudo, de 51 anos, e provavelmente já não andarei a brincar às associações culturais, mas, assim a saúde o permita, gostava de ser um fiel espectador das actividades de que todos esperamos vir a usufruir. No entanto, se precisarem de alguma coisa, como se costuma dizer, comprem. Até lá, a Preguiça tem um Covil que não morde e vos recebe quando quiserem.

Texto de Pedro Miguel (dirigente da Preguiça Associação Criativa)

Em 2016, a Preguiça Magazine volta a colaborar na organização do Festival A Porta com os Meia Dúzia e Meia de Gatos Pingados

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