Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Nesta rubrica a Preguiça recorda o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Texto: Paula Lagoa
Fotografia: Ricardo Graça

Há uma rotunda em Leiria que te leva para outra dimensão, talvez numa viagem à era da industrialização, com pit stop em Marte para um chiripiti de kryptonite. Ok, talvez não tanto, vai depender muito da droga que estiverem a usar. Mas lá que tem qualquer coisa de intergaláctico tem, essa até o gajo mais careta consegue tirar de letra.

Já chegaram lá? Vai uma pista: é a rotunda da Av. Adelino Amaro da Costa. Também não vão lá assim, não é? Ok, vamos usar a ajuda de casa? Então cá vai. “A rotunda das máquinas… dos robôs… rotunda dos Beastie Boys”. Agora já sabem, não é?

Rotunda das máquinas e dos robôs, vá, chega-se lá de forma relativamente intuitiva, mas rotunda dos Beastie Boys já requer um bocadinho mais de ginástica mental. Mesmo assim, nada que não se consiga desvendar, especialmente se conhecerem bem a banda de hip-hop norte-americana e a sua onda another dimension. Se não conhecerem, fica o convite para irem ver o videoclip da música “Intergalactic” que rapidamente chegam lá. Já agora, as nossas felicitações a quem se lembrou da analogia. Um bocadinho rebuscada, mas não totalmente esgrouviada. Ah! E votos de que continues a dar nessa droga inspiradora.

Bom, já brincámos um pouco, se calhar é melhor mudar para um tom mais sério (avisamos que já tentámos várias vezes e normalmente não conseguimos).

A verdade é que é impossível ficar indiferente à imponente obra que habita aquela rotunda desde 2001, mas o que sabemos sobre aquele conjunto escultórico? Crentes que muitos de vós saberão pouco ou até mesmo nada, fomos escavar e descobrimos meia dúzia de coisas.

A obra é da autoria de Abílio Febra — que teve a amabilidade de nos fazer uma visita guiada ao local –, a quem a Câmara Municipal de Leiria lançou, no ano 2000, o desafio de criar uma escultura que homenageasse a indústria dos plásticos para vir a ocupar o centro da dita rotunda.

“Na altura, Leiria acabava de crescer para além do rio e havia uma larga rotunda, vazia e descuidada, no entender da vereação, mesmo a pedir uma escultura”, explicou-nos Abílio Febra.

No entender da vereação, salvaguarde-se; porque no entender do escultor nem por isso. “Na época, as esculturas em rotundas estavam ainda muito na moda e eu ainda tentei uma localização alternativa fora da dita zona de trânsito, mas não houve consenso.”

“Nunca entendi as rotundas como palco ideal para esculturas mas era a primeira oportunidade que tinha de fazer uma intervenção na minha cidade e acabei por aceder ao pedido”, lembra. Na encomenda estava implícito que o projecto incluísse duas máquinas ligadas à indústria dos plásticos: uma extrusora e outra injectora. Após tomar conhecimento da dimensão das máquinas, que acabou por verificar serem maiores do que imaginava, a preocupação do escultor foi enquadrá-las no espaço envolvente. Havia, portanto, um problema de escala que era preciso resolver, por forma a enquadrar a obra com os edifícios bastante altos que circundam a rotunda.

O resultado final acabou por ser uma homenagem aos trabalhadores do sector dos plásticos que personificam as duas grandes peças que compõem o conjunto.

“Qualquer obra que não seja visualmente evidente arrisca-se a que lhe ponham rótulos. Estes Guerreiros não são os da destruição, da guerra propriamente dita. São sim, os que lutam no dia-a-dia, os que trabalham. O resultado desta luta não é a destruição, mas sim a produção”, desmonta Abílio Febra. “Esta escultura conta-nos um milagre. Na ponta da lança sai a vida”.

Nunca tinha feito uma escultura desta dimensão. Como é que superou o desafio?
Em termos técnicos a obra iniciou-se a partir de um simples desenho ou esboço. Em seguida construí uma maqueta em cartão, já com as formas definidas e à escala. Uma obra desta dimensão não podia ser construída no meu ateliê; era necessário uma grande ponte rolante. Decidi então contratar uma metalomecânica com dimensão para o efeito. As figuras foram construídas em chapa de aço, estruturada e com cálculos de engenharia, que permitissem suportar a carga das máquinas ou eventuais tempestades. O conjunto escultórico pesa 25 toneladas, com 10 metros de altura e 8 de diâmetro. As figuras construídas levaram um tratamento antiferrugem com decapagem e metalização a quente. Posteriormente foram policromadas.

E a montagem? Foi uma operação arriscada?
Construir peças com 10 metros de altura torna-se uma tarefa algo imprevista, pois só após a sua finalização é que foram colocadas de pé. Só nesse momento é que pude vê-las na sua verdadeira amplitude, e seria tarde demais para alterá-las. A sensação que tive foi exactamente a de uns robots gigantes e algo ameaçadores, no entanto, tal como eu previa, a escala esbate-se dada a dimensão dos edifícios à sua volta e a distância de observação. A montagem foi qualquer coisa de espectacular, pois foi necessário cortar o trânsito e após a chegada das peças num transporte especial foi usada uma grua de grande dimensão que as colocou no sítio sobre uns chassis previamente chumbados à plataforma de betão.

Popularizou-se chamar-lhe a rotunda dos robôs. Há até quem lhe chame a rotunda dos Beastie Boys. O que acha destas analogias?
Acho que qualquer obra, independentemente do tipo que seja, literária, musical ou outra, a partir do momento em que é pública, deixa de ser do autor e passa a ser de quem a frui. Mas a analogia agrada-me bastante e os Beastie Boys encaixam na perfeição, dada a sua irreverência e o modo metafórico como se revelam em relação à sociedade. De repente, deu-me até vontade de os convidar para um espectáculo ao vivo naquele palco único. Quem sabe se eles não aceitavam.

Acredita em extraterrestres? Poderá aquela rotunda ser um portal de comunicação intergaláctica?
Claro que acredito, e também acredito que se a nossa cidade um dia for visitada por um qualquer disco voador extraterrestre, a tripulação depois de um reconfortante banho no rio Lis, irá escolher a rotunda dos robôs para fazer umas boas selfies como recordação do planeta Terra.

E enquanto a invasão extraterrestre não se dá, podem continuar a dar nomes à rotunda porque está visto que vocês são bons nisso. Máquinas, robôs e cena intergaláctica têm o aval do artista.