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Entrevista
Catarina Pedro

Fotografia
Ricardo Graça (excepto cena de palco)

26 Fevereiro 2016

Na rubrica Fora de Cena, com um formato quinzenal, pretendemos conhecer o percurso de alguns actores que fazem do palco a sua vida, olhando-os para além das personagens que vestem. É sobre teatro que aqui falamos, mas o que queremos mesmo é ouvir as histórias reais, onde cada um se apresenta ao vivo e a (muitas) cores.

Sofia Neves é uma presença assídua nos palcos de Leirena Teatro – Companhia de Teatro de Leiria, desde 2011. Actriz e professora, fala-nos de como tem sido o seu percurso e da sua ligação ao teatro.

O que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso?
Inicialmente fazia teatro para me divertir, mas o entusiasmo cresceu, o interesse de saber mais desta arte também e a decisão de ir estudar teatro aconteceu. Licenciei-me em Teatro e Educação na Escola Superior de Educação de Coimbra e trabalhei com encenadores como António Mercado, Júlio Castro Nuevo, Marco António e Nuno Pino Custódio. Além do trabalho de actriz, tenho desenvolvido paralelamente projectos que aliam a arte do teatro e a educação, pelos quais também tenho um particular interesse, na medida em que trabalho directamente com pessoas, especialmente crianças e adolescentes. Actualmente trabalho na companhia Leirena Teatro, que fundei, na qual exerço a função de actriz e pedagoga e oriento projectos artísticos e pedagógicos.

Na tua opinião, o que distingue o teatro de outras artes (como o cinema, por exemplo)?
A partir do momento em que o teatro é uma arte, isso já o aproxima em muito de todas as outras formas artísticas, nomeadamente o cinema, a dança, a música etc, no entanto, diferencia-se pela forma como se expressa. Coloca ao seu serviço o corpo do actor em união com a palavra, podendo usar também, outras formas na sua arte (dança, música, imagem), em que tudo acontece numa lógica e numa harmonia, na qual o público presencia a cena em simultâneo ao momento que ela acontece, sendo testemunho de todo o espectáculo e de todos os segundos que dele fazem parte. Há, assim, uma troca de sinergias entre o público e o actor.

Para ti o que caracteriza uma boa personagem?
Existem vários factores que caracterizam uma personagem, nomeadamente o figurino que é normalmente o mais óbvio, no entanto considero ser mais importante a credibilidade que se consegue oferecer a uma personagem, que é dada pelo acreditar de determinadas circunstâncias em cena, assim como pelo seu jogo em acção.

Alguma das personagens que já interpretaste te marcou especialmente?
Todas as personagens que interpretei me marcaram, pois em cada uma delas existe sempre uma particularidade que exigiu destaque no meu trabalho, quer fosse por algum momento que me dava particular gozo a interpretar, ou por se tratar de uma experiência nova ou mais exigente de cena e logo um novo desafio. Mas todos estes momentos são especiais, o que tornam as personagens especiais.

Como costumas lidar com as críticas?
De forma construtiva. Desde que sejam honestas e lógicas, aceito-as. No meu trabalho estou sujeita diariamente a críticas, as quais são essenciais para a evolução do mesmo. Assim, só lhes tenho a dizer: “sejam bem vindas”.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
São vários, mas destaco um caricato: durante a apresentação do espectáculo A Rota de um Crime, adaptação da obra O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, que acontecia na rua, eu representava o papel de Amélia e tinha uma cena com o meu colega Hugo Inácio (representava o Padre Amaro) e tudo acontecia comigo numa varanda (2º andar) e ele em baixo pedia-me que voltasse a namorar com ele. Mas num dos espectáculos, uma carrinha (de caixa aberta) estava no local onde o meu colega Hugo deveria estar para falar comigo à varanda. Ele saltou para a carrinha e o espectáculo continuava. A dado momento a carrinha começa a andar, por sorte em marcha lenta, e nós continuámos a cena com o “senhor padre” em andamento. Toda a cena decorreu praticamente com ele em cima da carrinha, em marcha, mas lá a conseguimos realizar. Ambos estávamos com uma vontade enorme de rir, pelo imprevisto, mas o espectáculo tinha de continuar e digamos que naquele dia até foi um pedido de reconciliação mais original que o costume. Na verdade este episódio transposto para a realidade seria deveras original para quem gosta de aventura (fica a ideia).

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
O desafio é a criação constante em cena e o jogo com os colegas (personagens). Estes são também o maior prazer, e quando a cena é jogada com cumplicidade é maravilhoso. Quando isso não acontece gera-se o entrave, mas o trabalho continua e com persistência os problemas resolvem-se. Outro desafio fantástico no teatro é a sua capacidade de comunicação, em que podemos falar e discutir assuntos pertinentes e actuais e apresentá-los por meio da cena, e isso dá-me gozo fazê-lo, apesar de nem sempre ser fácil.

Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
Segundo Federico Garcia Lorca, “o teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…)”. Eu gostaria que em Portugal o teatro fosse de facto um instrumento para a construção do nosso país mas, para isso, é preciso que o nossos ministérios da Cultura, da Educação e outros agentes culturais e educativos tenham essa consciência.

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
É difícil selecionar apenas um porque cada actor tem a sua especificidade e particularidade e gosto deles por isso. Mas admiro o trabalho de Maria do Céu Guerra e António Fonseca.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Não. Apenas gosto de me preparar e concentrar com tempo e calma antes de iniciar o espectáculo.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver? 
Para além do Tejo, da Companhia Teatro Meridional e Todos os que caem, encenação de João Mota.