Umberto_Eco_in_his_house home
[mpc_vc_share_list title=”” facebook=”1″ twitter=”1″ google_plus=”1″]

Texto
Sara Peres

28 Fevereiro 2016

Na semana passada, bebendo uns copos no Académico, abordando questões fundamentais para a contemporaneidade, como o Twitter do Kanye West, soube, subitamente, que Umberto Eco falecera na sua casa em Milão. De forma completamente inesperada, o meu herói morrera. Depois dessa tertúlia – que muito teria agradado ao próprio Eco –, ao chegar a casa, a primeira coisa que fiz foi dirigir-me à estante e pegar num dos seus livros, prestando-lhe a minha pequena homenagem, recordando-o.

Não o lia há anos, mas isso nunca impediu que o evocasse com alguma frequência. Umberto Eco deve ter sido, na verdade, um dos autores que mais li, ao longo da vida. Entre romances e não ficção, devo ter lido dez livros seus, o que constitui um recorde pessoal, pois tento variar os escritores e as leituras.

Foi alguém que deixou em mim uma marca indelével. E, a 21 de Maio de 2015, a propósito dos meus 30 anos, escrevendo um post evocava-o, através de um dos seus últimos romances, A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Lido há cerca de 10 anos, ainda assim o tempo não me impediu de recordar o fundamental da obra.

Uma semana depois do seu desaparecimento, para mim Eco não morreu, não na minha memória. Pelo menos até que a Alzheimer ou a demência me atinjam. Pode parecer presunçoso, mas era como ele que ambicionava ser. Eco era o meu herói. Foi com ele que compreendi a importância da história e das narrativas. Queria conseguir interpretar a realidade como ele a escrevia nas suas crónicas. Queria ser capaz de explicar o funcionamento do signo, ou a influência de diferentes peças de roupa na produção de conhecimento como Eco fazia.

Para sempre ficará comigo o início de um livro de crónicas que li durante a licenciatura. Juntamente com um colega, fomos desafiados a ler Viagem na Irrealidade Quotidiana, uma colectânea de ensaios e crónicas de Eco publicados em jornais e revistas algures entre os anos 70 e 80, creio. Ainda não iniciara a leitura quando o meu colega afirmou que, pelo menos o início era interessante: “As duas raparigas, muito belas, estão nuas, agachadas, uma em frente da outra. Tocam-se com sensualidade, beijam-se, lambem a ponta dos seios uma da outra.”

Incrédula, ao pegar no livro constatei que, de facto era verdade, eram aquelas as primeiras linhas do livro. Mas que diabo, pornografia? O Umberto d’O Nome da Rosa escrevia pornografia? Felizmente – ou infelizmente – o final do parágrafo esclarecia que se tratava de um holograma e a partir daí, o texto continuava, falando da personagem do Super-Homem e, mais adiante, as igrejas e a televisão, as calças de ganga, a Coca-Cola, o filme Casablanca e tantas outras questões que nunca imaginara ver tratadas por um académico.

E subitamente o mundo académico parecia muito mais interessante do que simples manuscritos encerrados em armários fechados a sete chaves. Tudo era passível de análise. O mundo podia ser interpretado de diferentes pontos de vista que eram igualmente válidos. Podíamos questionar a realidade como quiséssemos e encontrar as respostas em lugares inesperados. Era isso que o Eco me dizia e perante as possibilidades senti-me liberta e senti que podia ser o que quisesse.

Infelizmente, os anos passam e perdi essa ideia de liberdade. Mas comigo ficou esse desassossego, esse olhar interrogador da realidade e os escritos. Felizmente, Umberto Eco foi um autor prolífico e há ainda várias obras por ler. E, recordando-o, não consigo evitar pensar no primeiro canto d’Os Lusíadas: “E aqueles que por obras valerosas/ Se vão da lei da Morte libertando”. É que, pelo menos para mim, Eco viverá para sempre.