[mpc_vc_share_list title=”” facebook=”1″ twitter=”1″ google_plus=”1″]

Texto
Paulo Sellmayer
designificados.wordpress.com

1 Março 2016

Para poder escrever sobre um assunto que não lembra ao menino Jesus, decidi debruçar-me sobre água. Mais propriamente água de Fátima, esse vulcão de milagres, segredos e sandes de leitão.

Sagrado é o coração de Maria. Já todo ouvimos esta expressão. Ora, e a água de Fátima? É sagrada?

No outro dia, lendo uma notícia partilhada no FB por amigos reaccionários, vi que a Nestlé se prepara para dominar o mercado mundial da água. Querem que seja privatizada. Toda. Fazendo com que seja possível dizer esta alarvidade: “aquele meu banho de iogurte grego soube-me a maracujá”. Porque no fundo são os melhores e isto tinha de ser dito.

Fora de delírios oníricos, eu acho que a água de Fátima deve estar para ser privatizada e percebo bem porquê. Existe um produto, com muita aceitação em Fátima, que são umas garrafinhas, com formas várias, para transportar “Água de Fátima”. Pode até nem ser própria para consumo, signifique isso o que significar, mas transporta o bem essencial de forma desprestigiante para algo que até vem de terra milagrosa.

Existem contentores em forma de peixe, porque sim, em forma de garrafão de 5 litros, já que água não te leva ao céu, e um sem-número de tamanhos para diferentes carteiras, credos e acreditações.

Aqui aceito a privatização da água. Então, como é que podemos garantir que uma coisa se pode vender como sagrada se é produzida/processada pelo Estado? E a laicização do Estado onde fica? Há que separar as águas.

Assim, deve garantir-se que há padres, competentes, para abençoar a dita. Podemos também falar, apostando somente num mercado alvo alto, da sua bentificação, canelonização ou santinificação. Muita marca já se criou com menos. Benta deve valer mais do que sagrada, canelonizada é um piscar de olho ao charme italiano e santinificada porque no fundo todos sabemos que a base de um bom gelado está na água.

Estratégias de valor acrescentado é o que precisamos neste burgo. Vender água como se valesse mesmo mais do que custa ao sair da torneira, em garrafinhas que nem por solidariedade industrial vamos comprar à Marinha Grande com a lata de as salvaguardar como impróprias para consumo. De facto, é difícil engolir isto de um trago só.