[mpc_vc_share_list title=”” facebook=”1″ twitter=”1″ google_plus=”1″]

Texto
Cláudio Garcia

Fotografia
Ricardo Graça

4 Março 2016

Quem nunca jogou aquele jogo de criar histórias a olhar para estranhos, não sai de casa há demasiado tempo. Dar profissão e destino ao pensionista sentado na esplanada, imaginar as férias em Cancún da rapariga gira na paragem de autocarros. Ui. Há muito famoso que ganha prémios literários à conta deste exercício inofensivo. A novidade aqui é que podem ser vocês na mesa do café, debaixo da lupa.

O observador chama-se Diogo Monteiro, mas assina Tenório. Uma espécie de cientista social caçador de borboletas que utiliza o desenho como rede para registar as novas personagens com quem se cruza na rua. A dona Sandra Gordalhufa antes de se meter nas dietas milagrosas, a Laurinda, o Júlio, o gato do avô Agostinho entusiasmado a ler um livro, o Arnaldo com bigode, cartola e pele de crocodilo. Entre outros. Bonecos que agarram a realidade e a viram do avesso, a pintam de cores garridas, só para abrir a janela de um mundo imaginário e disforme, onde tudo parece mais interessante. E as férias da rapariga gira na paragem de autocarros, se calhar, são apenas o sonho nunca concretizado da Sandra Gordalhufa.

Diogo Monteiro, 27 anos, rapaz dos Pisões, aldeia vizinha de A-do-Barbas, onde existe o Bar Alfa e uns concertos catitas (o próximo é a 11 de Março), irmão do baterista dos Stone Dead (que no último sábado tocaram – e bem – no Covil da Preguiça), pessoa em modo estágio para se tornar senhor arquitecto, que provavelmente vai expor em Leiria nos próximos meses, se não lhe faltar orçamento para lápis e afias.

Diogo, que estudou em Évora, mas foi acabar a licenciatura a Lisboa, criou o Tenório na capital portuguesa dos tuk-tuk, em 2012, “como se fosse uma segunda personalidade”, com vida própria e ambições: emigrar para o Planeta Tangerina (a editora que representa a maior influência do criador e da criatura) ou, em alternativa, descobrir um novo Planeta Tangerina, através da observação cuidadosa de todos os seres incríveis que habitam os bancos de espera nas urgências, as mesas no fundo do bar ou mesmo os gabinetes de um certo ateliê de arquitectura com sede em Almansil e clientes no Kuwait.

Decifrar o Tenório é quase tão difícil como ouvir o Diogo a falar de si próprio. O Tenório, diz, “tem a ver com uma parte de mim”. Uma espécie de pele, que só os mais chegados conhecem. Andava à procura de um nome para o alter-ego e este encaixou à primeira, como luva. Sim, sempre teve gosto pelo desenho e algures na adolescência aceitou que ia ser arquitecto, mas, como tantos outros ilustradores com talento, despreza traços perfeitinhos.

Entretanto, nos Pisões, começa a elaborar cartazes para anunciar concertos das bandas dos amigos, e dos amigos dos amigos, palavra passa palavra, participa no Museum Festum e no ano passado o Tenório faz as primeiras exposições, em Leiria e na Marinha Grande.

E agora, Diogo? Continuar a inventar estranhos a partir de estranhos, explorar a pintura de murais, pensar em editar o primeiro livro. Ele anda a ouvir Tom Zé e diz que a música lhe influencia o traço, portanto, se calhar vem aí algum Tangolomango com Defeito de Fabricação. Que são sempre os melhores, esta toda a gente sabe.

Mais trabalhos do Tenório:
facebook.com/olatenorio