[mpc_vc_share_list title=”” facebook=”1″ twitter=”1″ google_plus=”1″]

Texto e fotografias
Eunice Neves

8 Março 2016

A Robyn Francis é uma das mais conceituadas professoras de permacultura da actualidade e uma designer de armas que enfrenta tudo e todos para normalizar a adopção de estratégias sustentáveis pela sociedade.

A Robyn cresceu em Sydney e logo em jovem juntou-se aos movimentos alternativos e “contracultura” da época. Durante os anos 70 viajou muito pela Ásia e Europa e foi na Alemanha rural, junto dos agricultores, que ganhou a inspiração e muito do conhecimento que mais tarde reencontrou na permacultura, quando regressou à Austrália. “A magia da permacultura é que a nossa cabeça começa a pensar mais lateralmente, começamos a ver ligações, relações e inter-relações, causas e efeitos que antes nos passavam despercebidos”.

O projecto da Robyn chama-se Djanbung Gardens e é um excelente exemplo de um design de permacultura maduro num clima subtropical. Em 20 anos, ela transformou um terreno superdegradado (devido ao sobrepastoreio da indústria de carne e lacticínios) num oásis de abundância e biodiversidade. Uma paisagem experimental e sala de aula “viva”, onde a teoria encontra a prática e o design e princípios da permacultura são uma realidade diária.

Djanbung Grandens foi, desde o início, idealizado para ser um espaço multifuncional: a casa da Robyn e da família e o Permaculture College of Australia, a primeira instituição a oferecer cursos residenciais de permacultura acreditados pelo sistema educacional australiano.

os_meus_herois_março_9

20 anos de regeneração da paisagem (num clima subtropical tudo cresce num instante, mas não deixa de ser impressionante.)

Djanbung passo a passo
Procurar terreno: Depois de alguns anos a procurar um terreno que fosse ao encontro de vários critérios (na região de Northen Rivers, boa exposição solar, bom clima e precipitação, bom solo, proximidade a uma vila a pé ou de bicicleta, etc.,) a Robyn encontrou o espaço ideal em Nimbin, uma região com um movimento fortemente alternativo e virado para a sustentabilidade.

Observar:  Na verdade, quando comprou o terreno já o conhecia muito bem porque estava mesmo ao lado de Jarlanbah, uma Eco-aldeia de permacultura que ela desenhou e isso possibilitou-lhe observar a terra durante as quatro estações do ano.

Idealizar: Em qualquer projecto é uma mais-valia definirmos uma visão, o nosso Norte, aquilo que queremos alcançar a longo prazo e que nos realinha, caso haja mudanças de direcção pelo caminho. A Robyn sabia bem o queria criar e definiu a visão do projecto num parágrafo.“Djanbung Gardens é um santuário de sustentabilidade, um espaço para viver e trabalhar em cooperação e harmonia com a Natureza. Um ambiente que fomenta e nutre o crescimento pessoal e a criatividade de cada um e que funciona num espírito de respeito e custódia (da Terra).”

Definir objectivos: “Walk the talk so I can talk the walk”, ou seja, viver e pôr em prática aquilo que se ensina. Demonstrar como é possível integrar num espaço diversos usos (social, profissional, pessoal, comunitário) e partilhar a experiência de uma vida holística. Demonstrar diversas formas de aplicar estratégias e técnicas de permacultura (consoante o clima, topografia, dimensão do terreno, orçamento, etc.). Criar um espaço que sobreviva ao colapso juntamente com a comunidade que o rodeia.

Avaliar o terreno: Uma observação prolongada do terreno possibilitou à Robyn conhecer e avaliar com precisão as suas características: como se movimentava a água no espaço (tem a ver com a topografia), como se movimentava o sol (a exposição solar – onde é que há sol ou sombra), como se comportam os ventos, como era o solo, etc.

Planear o espaço: Desenhar o espaço de modo a casar as características do terreno com o que idealizámos (visão e objectivos) é o maior desafio, mas o mais criativo.

Em permacultura, a ideia é criar “sistemas humanos” que imitam os sistemas naturais, porque não há melhor exemplo de eficiência energética e resiliência do que a Natureza. E um dos conceitos mais valorizados é o zonamento, isto é, projectar para a conveniência. Diz a Robyn: “organizar os elementos no espaço de acordo com a atenção que elas vão precisar, quantas vezes visitamos, utilizamos, colhemos ou mantemos esse elemento, planta ou sistema em particular”.

Isto para dizer que nada é disposto à toa. Na verdade, um bom projecto é um todo. É um sistema em que todos os elementos estão integrados harmoniosamente na paisagem e interligados, de modo a potenciar trocas (grátis) de recursos e energia entre eles.

Design primeiro, estratégias e técnicas depois
No mundo da permacultura é fácil entusiasmarmo-nos com uma data de estratégias e técnicas interessantes (construção com materiais naturais; movimentos de terra para hidratar a paisagem, os famosos “swales”; florestas comestíveis; etc.) e lançarmo-nos à implementação sem termos observado e planeado bem primeiro. O risco disto é criarmos um conjunto de peças soltas. Como diz a Robyn: “sem um plano conceptual teria sido um pesadelo, é fácil implementar elementos soltos aqui e ali e criar um caos total”.

Um dos meus objectivos, quando me lancei neste estudo de permacultura, era perceber isto mesmo junto de designers experientes com a Robyn. Perceber se os projectos de permacultura bem-sucedidos eram o resultado, ou não, de um bom planeamento antes da implementação. E, sim, hoje posso confirmar que são.

O Plano Conceptual

os_meus_herois_março_6

Desenho do plano conceptual de Djanbung Gardens

Alguns dos elementos:
1 – Centro de aprendizagem e investigação
2 – Sistema de tratamento de águas cinzentas
3 – Carruagens de comboio (alojamento de estudantes)
Entre 1 e 3 – Casa de banho seca (é um elemento novo que ainda não está no mapa)
7 – Hortas e jardins dos estudantes
8 – Hortas tropicais
9 – Animais (galinhas e porcos)
16 – Lago principal “As águas de Djanbung”
17 – Produção de madeira & corredor de biodiversidade
19 – Represa no alto (para utilizar gravidade)
20 – Floresta Comestível Subtropical

Pomar Temperado e Floresta Comestível Subtropical
Nos 2 hectares de terreno de Djanbung (equivalente a 2 campos de futebol) existem vários microclimas que a Robyn criou/potenciou para fins diferentes. Por exemplo, ao fundo da propriedade existe uma zona mais baixa no terreno onde se acumula o frio e geada no Inverno e onde é possível produzir citrinos e outras frutas de clima temperado (como em Leiria).

No topo da propriedade, a Robyn criou um clima à prova de geada (devido à localização mais alta e aos dois lagos) onde consegue ter uma floresta comestível subtropical com várias camadas de plantas comestíveis e medicinais: jacas, bananeiras, café, açafrão-da-índia, etc.

os_meus_herois_março_1

Os gansos e patos fazem a manutenção do pomar, fertilizando e controlando as ervas e pestes


os_meus_herois_março_5

Floresta Comestível, um supermercado e farmácia ao ar livre

os_meus_herois_março_3

Jardins comestíveis
Existem vários jardins comestíveis em Djanbung, que “integram plantas anuais e perenes, ervas aromáticas, especiarias, frutas, plantas companheiras e plantas para fibra (artesanato). A escolha das espécies é feita tendo em conta as estações do ano para assegurar uma boa produção o ano inteiro. Flores e pequenos lagos ajudam a atrair insectos benéficos e predadores de “pestes” para os jardins (sapos, lagartixas, joaninhas…).

A compostagem é um dos métodos utilizados para fechar o ciclo de nutrientes e transformar “restos” de materiais em fertilizante da melhor qualidade. É uma tarefa levada a sério pelos estudantes que utilizam o método de 18 dias de Berkeley.

os_meus_herois_março_2

compostagem

Água
Lago principal (as águas de Djanbung)
Este lago foi criado para assegurar que a propriedade nunca ficaria sem água. É o “seguro contra a seca” de Djanbung, como diz a Robyn. Num clima subtropical, as chuvas vêm de enxurrada no Verão e há que estar preparado para captar o máximo de água possível, porque depois são muitos meses sem chuva. Este lago tem a capacidade de armazenar 1,8 megalitros de água e encher as represas no cimo do terreno sempre que é preciso, para que se possa regar por gravidade todo o jardim.

O lago é também um sistema de aquacultura natural que atrai aves, animais aquáticos e também banhistas no Verão.

os_meus_herois_março_8

Casa de banho seca
Existem vários tipos de casas de banho secas em Djanbung, para demonstrar diferentes opções para diferentes orçamentos. A última casa de banho a ser construída (a tal que ainda não aparece no mapa) mostra como é possível ter uma casa de banho convencional e mesmo assim poupar mais de 100 mil litros de água por ano.

os_meus_herois_março_7

Casas de banho secas no primeiro andar com depósitos por baixo

Sistema de depuração de águas cinzentas
O sistema de depuração das águas cinzentas de Djanbung foi idealizado pela Robyn e o primeiro do género a ser implementado com aprovação do Departamento de Planeamento de New South Wales. A lei não o permitia na altura, mas a Robyn conseguiu uma aprovação excepcional que mais tarde se generalizou ao público, porque estudos universitários comprovaram o bom funcionamento do sistema. Um sistema, especial de corrida, que além de mudar a lei ainda ganhou o prémio Rivercare 2000.

os_meus_herois_março_4

Este sistema utiliza apenas plantas aquáticas e limpa todas as águas cinzentas (banhos, loiça, roupa) da propriedade

Cuidar das pessoas e partilhar os recursos
Cuidar das pessoas e partilhar os recursos de forma justa também faz parte do bom design de permacultura e a Robyn tem bastante a partilhar sobre isto. Eu é que já escrevi muito hoje e este artigo não vai dar para muito mais, por isso fica aqui só um cheirinho sobre o que a Robyn tem a dizer em relação à criação de sistemas económicos justos, “zero growth economies”:

“O maior problema é a ganância, o factor ganância é a desgraça do Homo sapiens. Quando começamos a falar de sustentabilidade temos de começar por falar de economias com crescimento nulo, onde ganhamos apenas o suficiente. O suficiente para cobrir os nossos custos e para sobreviver. Temos de começar a pagar o preço justo pela nossa comida e voltar a um estilo de vida bem mais simples e menos consumista. E isto implica uma grande mudança de pensamento.”

No estudo que eu estou a desenvolver vão poder ler mais sobre esta grande mulher da permacultura, que tem divulgado esta ferramenta de design pelo mundo inteiro, através de milhares de alunos e curiosos, como eu, que ela inspira.