Delicatus.

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Finalmente, e mesmo que não concordem comigo, projecto neste texto uma das atitudes que sempre me guiou e que complementa todas as outras – a delicadeza. Como assim? Vejamos com atenção este quadro da Escola de Fontainebleau, conhecido como o quadro de Gabrielle D’Estrées e uma das suas irmãs e perceberão o que vos conto. Este é um quadro representativo do ambiente do Maneirismo Francês, pintado por um anónimo, e se não fosse a delicadeza desconcertante dos dedos de ambas, estaríamos na presença de um quadro sem grande interesse, representando duas senhoras, no banho. Tanto mais que é uma obra com pouca qualidade técnica. O que nos prende de imediato é a mão da irmã de Gabrielle apertando delicadamente o seu mamilo, o que poderá querer dizer que Gabrielle se encontra de esperanças, e seguidamente o nosso olhar repara na mão esquerda de Gabrielle segurando um anel que, se bem me recordo, foi oferta do Rei Henrique IV, com o qual esteve para se casar. Acontece que Gabrielle morreu subitamente e provavelmente envenenada para que este casamento não se consumasse. A senhora ao fundo deverá estar a fazer as roupas do nascituro e um quadro sobre a lareira mostra uma figura de pernas abertas, contribuindo para uma exibição de nu sem, contudo, chocar o pudor.

Embora possamos tecer muitas outras explicações descodificantes, finalmente não podemos deixar de inferir que o ser humano, com os seus defeitos e virtudes, pode ter uma existência dignificante e usar da delicadeza em qualquer circunstância, porque é isso que, de facto, o distingue das outras espécies. Mas a delicadeza de que falo deverá ser vista também como sinónimo de atitude artística. Existem, de facto, pessoas que nos prendem a atenção de imediato, como se estivessem a segurar levemente num mamilo de outrem, mesmo que, paralelamente, nos mostrem outras coisas que são apenas terrenas, como um simples anel. Foram sempre essas que modificaram o meu mundo e que me inspiraram. Raras, bem sei, mas essas bastaram para eu perceber que a nossa essência está aí, na delicadeza que imprimimos naquilo que nos rodeia, como se estivéssemos a segurar com carícia num delicado e sensual mamilo. Explore-se a imagem que aqui deixo e muitas outras que nesta tiveram origem.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
26 Julho 2016

Desconstruções.

Não gosto de deixar pontas soltas, e convém esclarecer a apreciação que fiz outrora sobre a importância que se dá à música, ou melhor, como ela é ouvida e vivida. Fui claro quando afirmei, por outras palavras, que a música assume hoje um valor de prestígio social. Não existe grande entendimento acerca da qualidade estética daquilo que a maior parte das pessoas ouve, e raros são aqueles que percebem se existe qualidade estética na música que ouvem. Há, antes sim, a necessidade de se pertencer a um grupo social, e é este grupo que se instala ao redor de determinados estilos de música. Diz-me o que ouves e dir-te-ei quem és. Quando falo com as pessoas sobre a qualidade da música que ouvem e adoram, há subitamente um grande vazio que se instala. Sei que falar de música, para quem não conhece os seus verdadeiros códigos, não é fácil. Mas depressa entendo que, mais do que tudo, precisam daquela música porque querem pertencer a um certo grupo social que a emana como música de culto. E assim como precisam dessa música específica, também existem, paralelamente, outras coisas que adoptam como suas: a maneira de se vestirem, os filmes que vêem, os autores que lêem, as marcas que usam, etc.

Se custa ver assim a música maltratada, como se de um mero consumo de moda se tratasse, mais me aborrece não conseguirem passar nunca para além do seu mesquinho grupo e alcançarem um pouco mais do que aquilo que a hábil indústria lhes impõe. Sei que os conceitos que rodeiam e afirmam a música de qualidade não são dissociáveis de apreciações morais, sociais e de aspectos técnicos. Mas é incompreensível a recusa deliberada de ouvir e entender tudo o que está fora dessa redoma de grupo, que constitui uma vastidão musical imensurável e repleta de enormes surpresas. É por isso mesmo que todas as desconstruções são bem-vindas, porque abalam esses grupos e os fazem pensar de outra forma. Na sede da Preguiça Magazine, assisti neste último fim-de-semana a uma memorável actuação do almejado Tönie Metadonna. À parte os elogios que fiz pessoalmente, abala estruturas e conceitos produzindo a tal desconstrução, que é salutar e necessária por tudo o que já disse. Um assunto que se devia encarar com seriedade, para além do humor e diversão que nos dá. Excelente, audacioso e surpreendente.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
19 Julho 2016

Dürer.

É muito vergonhoso e embaraçoso para mim, como português, sentir a indiferença, ou talvez desprezo, que o povo português mostra pela visita que decorre do Sr. Albrecht Dürer. Ele deveria ter sido recebido com pompa e circunstância e com emoção muito superior àquela com que se recebeu a Selecção Portuguesa após a sua recente vitória, mas sem o mau gosto de levarem cachecóis, porque não servem para nada no verão. Deveria também falar-se dele como se ouve falar do Ronaldinho do Funchal e ainda ser adorado com o todo fervor que se dá em Fátima a Nossa Senhora. Aí está o seu famoso Auto-Retrato com Luvas, no Museu Nacional de Arte Antiga (tão perto de todos nós), há pouco mais de um mês. Nenhum outro acontecimento cultural previsto para este ano chega aos pés deste. Desde que me conheço que tenho uma paixão enorme por este quadro. É de tal forma inquietante e perturbador que por vezes sinto que tenho aquelas roupas vestidas, que assumo aquela aparência como minha e que já estive ali, naquele lugar.

Dürer tinha regressado de Itália, onde sentiu a sua verdadeira importância como pintor que era. Com extrema obsessão, de tal forma que nenhum pormenor lhe escapa, retrata-se com uma elegância e beleza como nenhum outro pintor tinha feito até então. A categoria elevada de pintor nasce com este seu auto-retrato de 1498. A técnica do uso do peitoril para colocar o seu braço produz uma ilusão de proximidade com o espectador que era já conhecida, e os artistas nórdicos também, algumas vezes, tinham usado a janela aberta com paisagem. No entanto ele transmite uma arrogância imprudente e uma força de personalidade admirável. As roupas de luxo de gentil-homem, o toucado e as suas luvas, que fogem a qualquer futilidade, dão-lhe a nobreza e o relevo social que reclama obrigatoriamente para um artista do seu gabarito. A delicadeza, a expressão e o fascínio que sentimos reflectem o melhor do ser humano, e perante aquele auto-retrato fazemos a nossa auto-análise. Para ficar relaxadamente uma boa hora a olhá-lo. Poderia ficar horas a falar deste maravilhoso óleo. Depois de 18 de Setembro, só no Prado.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
12 Julho 2016

ENTREMURALHAS.

A doce Shophie, de 20 anos apenas, foi brutalmente atacada por um grupo de adolescentes em Stubbylee Park, Rossendale, quando passeava com o seu namorado, Robert. Ferida gravemente, acabou por morrer duas semanas depois. A razão deste estúpido ataque deveu-se somente, segundo a polícia, às roupas de estilo gótico que ambos usavam. Tinha eu observado, pouco tempo antes deste acontecimento, como as subculturas alternativas davam lufadas de ar fresco àquele local e a outros de proximidade que conheci também, como Manchester, e por isso mesmo fiquei atento e chocado com esta notícia. As acções da fundação criada em memória de Sophie, Sophie Lancaster Foundation, deram origem posteriormente a uma forte posição de protecção pela polícia de Manchester às subculturas que provêm de gostos musicais. Também assim ficou mais forte e feroz a minha campanha contra a estupidez colectiva.

Então, o ENTREMURALHAS não é apenas um excelente acontecimento musical alternativo, mesmo que todos assim pensem. É muito mais do que isso. E é muito bom que Leiria tenha essa bandeira hipster de acolhimento de subculturas, e que serve muito bem de combate à discriminação e ódios. Aliás, não entendo como é difícil para alguns não conseguirem relacionar as nostálgicas tonalidades menores da música gótica com a sua natural e inocente pacificidade e beleza. Mas este é outro assunto bem diferente, de análise um dia destes obrigatória.

O que parece estar realmente a falhar, digam-me entretanto se estiver enganado, é a incompreensão do valor deste evento por parte dos autarcas e de outros políticos que nos servem. Primeiro, porque acho que omitem a importantíssima bandeira que atrás mencionei e que para todos é preciosa. Segundo, não se trata aqui de destronar Santarém de capital, porque esse gótico é da arte edificada e este da arte efémera, nem tão-pouco de transformar Leiria em Treffen, contudo, Leiria podia dar muito mais atenção ao ENTREMURALHAS (e aos seus mentores), alargando-o com grandiosidade, no tempo e com outras actividades paralelas, em vez de salpicar o calendário anual com pequenos eventos por vezes disparatados, dispendiosos e sem nexo. É assim que uma cidade ganha identidade, investindo dedicadamente naquilo que tem de melhor.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
5 Julho 2016

Referendando

Desculpem, mas nem tudo é referendável. Há matérias que têm de ser obrigatoriamente entregues a especialistas. E lamento dizer-vos, mas o povo a que pertencemos é, maioritariamente, estúpido e ignorante, ao contrário daquilo que dizem os políticos quando têm intenção de captar votos. Dizem eles que o povo sabe o que quer, enquanto apontam para eles próprios. Mas o povo muito pouco sabe. A elite pensante sempre disse, subtilmente, que o povo era bronco, mas nunca teve coragem de o dizer com todas as letras.

Todos sabemos, por exemplo, que as minorias seriam dizimadas se a constituição não as defendesse deste povo que se diz cheio de cultura. Qualquer referendo daria cabo delas. As leis, que são para o povo, não são feitas pelo povo, pois se assim fosse tínhamos ainda o linchamento na praça pública e todos aqueles que saíssem das normas do senso comum eram perseguidos. Referendável pode ser o galo de Barcelos ou os bordados de Viana, mas aquilo que nos move, a justiça, educação, saúde e outros assuntos como os socioeconómicos, nunca.

Um dos exemplos flagrantes a que assistimos recentemente ocorreu no Brasil. A pergunta a referendo (referendo este obrigatório para pessoas de 18 a 60 anos, e facultativa para outros níveis etários, note-se) era a seguinte: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?” Já estão a ver qual foi a resposta. Claro que o povo respondeu da pior maneira. Votou pela comercialização das armas, pois então, com um resultado final de 64%, aproximadamente. Mas o que é que se podia esperar do povo brasileiro?

O governo viu-se a braços com uma matéria perigosa e a restrição continuou como estava desde 2003, não tendo sido dada importância significativa para efeitos legislativos, face ao resultado obtido. De acordo com a lei, naquele país, o porte de armas continua ilegal salvo raras excepções, e se assim não fosse era uma festa, estaria em constante guerra civil. Então vamos perguntar ao povo se ele quer proibições? Mas, na hora, todos se acham idóneos, claro está, em tudo e mais alguma coisa. Depois deste referendo, muitos se encontram aborrecidos por não poderem ir livremente às compras ao armeiro. Que maçada.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
29 Junho 2016

Do desejo

Culpabilizava-se um amigo, já em iminente autoflagelação, por desejar obsessivamente o namorado de uma amiga sua. Pedindo-me conselho, logo lhe respondi sorridente que, primeiro, nos dez mandamentos, apenas se proibia desejar a mulher do próximo, nada proibia desejar o homem da próxima; segundo, deixando-o mais tranquilo, transmiti-lhe a minha perspectiva de desejo, que é muito ampla, já que penso que podemos desejar tudo aquilo que entendermos, sem limites.

O senão está apenas na concretização do desejo, isto é, existem coisas que podemos desejar e concretizar e outras que ficarão obrigatoriamente pelo desejo, e daí não passarão, sem qualquer problema. Não obstante ter Freud dito que o homem só é enérgico e bem-sucedido se conseguir transmutar as fantasias do desejo em realidades, para mim, o insucesso não é coisa que me preocupe minimamente no campo do desejo, pelo facto de os nossos desejos não serem passíveis de domínio por se revelarem espontâneos. Se o sonho é incontrolável, porque é que o desejo não há-de ser?

Em debate e com alguma leitura, percebi que ainda existe preconceito na elite intelectual em relação à homossexualidade, e isto acontece sobretudo porque aquele que a estuda tem receio de ser confundido com a própria questão, ou seja, por olhar para ela e estudá-la, é-se facilmente acusado de a ela pertencer. E isto leva a que os estudos existentes se limitem, quase na sua totalidade, a serem produzidos por homossexuais que vivem o problema e têm necessidade de o esclarecer. Ora, sem receio de ser acusado por abordar este tema, creio que a existência de mais estudos de heterossexuais em relação a este tipo de desejo poderia contribuir sobremaneira para a sua compreensão. Este é um assunto de que poucos tomam consciência.

Por fim, é interessante olhar para as comunidades como controladoras dos desejos. Nalgumas é permitido concretizar alguns desejos, e noutras não. O que é, assim, bizarro e por vezes estúpido ver os países como locais de permissão de certos desejos. Mas mais estúpido do que tudo, dizia eu àquele amigo, é desejar não ter desejo, que era o que ele, chorando, pretendia.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
22 Junho 2016

Não matarás

O Alcorão diz claramente que os “homens são responsáveis pelos assuntos das mulheres”, e adianta, “porque Deus favoreceu uns em relação aos outros, e porque eles gastam parte das riquezas em favor das mulheres”. Ora, sendo isto tão claro, mas agradando a uns e não a outros, logo surgem uns intérpretes para que todos fiquem agradados. Uns “estudiosos” que levam também a água ao seu moinho. E interpretou, um importante estudioso do Alcorão, que o que o texto quer realmente dizer é que a mulher traz um dote consigo e simplesmente deverá este ser gerido pelo homem. Que este favorecimento que Deus dá diz apenas respeito à administração de bens. E com o tempo surgirão outras interpretações para que o texto original vá permanecendo um pouco mais actual e em consenso para todas as partes.

Ora, com a bíblia passa-se precisamente a mesma coisa. Lá arranjam uns “estudos bíblicos” que tiram a crueza original aos textos, resultando em interpretações adaptadas ao mundo de hoje e até mais poéticas e bucólicas. E todas estas interpretações, desde que venham de alguma autoridade eclesiástica, são logo dadas como verdadeiras. Já ouvi padres em plena missa extraírem de textos da bíblia o modo como devemos usar as novas tecnologias e como algumas podem ser perniciosas. Descaradamente, fazem as interpretações que mais lhes convêm. Douta gente. Ok. Umas frases de alguma complexidade poderão dar azo a outras perspectivas. Tudo bem. Mas nunca entendi como coisas tão simples, objectivas e claras, como, por exemplo, o mandamento que diz “Não matarás!” poderá ser interpretado de outra maneira para além daquela que imediatamente entendemos. Então por que raio não se cumpre? Porque é que meio mundo se apetrecha com armas para matar humanos? Vamos mais além, aliás, um bispo, com leveza, põe água santa num canhão de guerra que só servirá para matar. O capelão encoraja na capela do quartel o soldado que, de cruz ao peito, matará o homem seu irmão em combate. O Marechal partirá em peregrinação a Nossa Senhora agradecendo a vitória que teve em campo de guerra, depois de ter mandado matar um batalhão de gente. Não matarás mas, contudo, vendo bem a coisa, poderás matar de vez em quando. É assim que devemos interpretar?

Chamado para a inspecção militar obrigatória, colocaram-me em exposição num palanque de boa altura à frente dum milhar de futuros soldados, certamente todos católicos. E apontaram-me por me recusar a pegar em armas, dizendo por outras palavras que eu era traidor, um mau exemplo a seguir. Não tenho fé, e por isso é curioso que quem lutava para cumprir um mandamento de Deus, do Deus deles, era eu só. Orgulhosamente só, entenda-se.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
14 Junho 2016

Do pénis pendurado ao pescoço

Discutiam, as senhoras, para debate no parlamento inglês, a supremacia masculina e, por consequência, a necessidade de abolição de aspectos relevantes que dão origem a problemas de género. Entre eles, a proibição do uso de gravata no parlamento por esta se assumir como um símbolo fálico, reforçando o domínio do homem sobre a mulher. É, de facto, o símbolo fálico mais multicultural existente.

O problema é um pouco mais complexo, mas, resumindo, quando o homem põe uma gravata, coloca o seu próprio pénis pendurado ao pescoço, mostrando poder, para além do simples conformismo social que lhe está associado. Poderia a mulher usar gravata e assim competir com o homem de igual para igual? Não, porque o nosso subconsciente não aceita facilmente que a mulher use um pénis, tal como faz um homem, dando-nos uma sensação de ridículo quando vemos uma mulher de gravata.

Ora, esta questão tem origem, de forma explícita, desde Freud. Ele diz assim, in Introductory Lectures on Psychoanalysis (1933): “In the dreams of men, one often finds the necktie as a symbol for the penis; this is not only because neckties hang down in front of the body, and are characteristic of men, but also because one can select them at pleasure, a freedom which nature prohibits as regards the original of the symbol.” Um ror de questões surge depois de se ler este primeiro parágrafo, e que são interessantes de analisar. Não só leva à discussão aqueles que a usam, mormente as suas profissões, mas também a própria gravata como elemento do vestuário masculino, que as há de diferentes formas e feitios.

Desde cedo tive aversão ao uso de óculos, apesar da minha miopia quase galopante. E para poder distinguir os meus amigos e conhecidos à distância, o exercício era decorar os guarda-roupas de todos, inclusivamente a forma como andavam e se moviam, os gestos, os tiques, as cores, etc. Tornei-me um fisionomista razoável, ao fim de alguns anos e, em poucos segundos de observação, espantava alguns amigos com apreciações de carácter, que fazia sobre outros, que se viriam a comprovar.

No que diz respeito à gravata, poucos são aqueles que tenho encontrado que se sentem confortáveis com ela. Os únicos são os que a põem diariamente ou que, por forte personalidade, são dominadores em qualquer ambiente. Todos os outros assumem gestos de desconforto, não pela gravata em si, mas, principalmente, pelo papel de poder que ela lhes confere sem que este lhes pertença. Assim, sempre que a puserem, lembrem-se de que ela está longe de servir a qualquer um.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
7 Junho 2016

Vinha tudo à gargalhada

Não gosto muito de centralizar o meu discurso em mim ou na minha família, mas é aqui que bem conhecemos os problemas comuns e que encontramos os melhores exemplos para dar a entender aquilo que queremos transmitir quando os abordamos. Ora, tive eu um avô exemplar no trato, de tal forma que, ainda hoje, na cidade que o viu nascer, é lembrado e homenageado largos anos passados do seu falecimento. Contei há pouco tempo, entre amigos, numa cerimónia a ele dedicada, como o recebia na estação de comboios. Ele fazia visitas regulares a familiares que se prolongavam durante alguns dias. À hora certa, lá estava eu na estação esperando-o quando regressava. Logo que ele descia do comboio, tendo sempre alguém para o ajudar, era frequente a carruagem inteira, sorrindo, vir à janela despedir-se dele, algumas vezes efusivamente. Numa curta viagem, ele conseguia atrair um grupo grande de pessoas que não conhecia de lado nenhum, e pôr todos em salutar convivência, quebrando o normal silêncio e reserva entre os utilizadores dos transportes públicos.

Este assunto vem a propósito de uma actual discussão acerca da dependência do Facebook e como por isso mesmo algumas pessoas têm vindo a desligar de vez as suas contas pessoais, sentindo, dizem elas, um enorme alívio. Tão grande como deixar de fumar, ou deixar um outro vício qualquer. Acho isto uma grande treta. Existem sempre pessoas que sentem grandes dependências, sofrendo com isso, simplesmente por não conseguirem estabelecer limites. O problema está nelas próprias, como acontece com todas as dependências. Mas se existem problemas relacionais, então teremos de analisar o caso que expus do meu avô, que teve uma feliz vida de 98 anos sem Facebook, imagine-se, mas provavelmente com mais conhecidos e amigos do que aqueles que qualquer um de nós lá tem, provando que é bem possível passar sem ele.

Mas onde quero mesmo chegar é à sensação de vazio. Nunca tive ninguém que me tivesse expulsado da sua conta de Facebook, ou que a tivesse desligado. Infelizmente alguns amigos e familiares morreram e naturalmente deixaram a sua conta morrer também, ou mesmo, nalguns casos que tenho, entregues a novo gestor, por herança. Mas deixarem propositadamente morrer a sua conta deixa alguma estranheza. Ou não? Logo depois de o meu avô sair da carruagem, após aquele alvoroço de despedida, sentia-me sempre curioso em relação ao ambiente que lá teria ficado. Terão continuado a falar umas com as outras naquela imprópria e momentânea alegria ou o silêncio incómodo teria de novo voltado?

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
31 Maio 2016

Provavelmente um macho pouco assumido

É o que sou, provavelmente. E já vos explico porquê.
Enquanto decorria um jogo de futebol (não vos sei dizer qual porque nunca sei quem joga ou deixa de jogar), decidi ir a um Centro Comercial. Dou por mim quase só, no meio de alguns estrangeiros (principalmente do Leste) e de algumas senhoras. Tudo o resto devia estar em casa de olhos postos no televisor. Ora, pensei eu, para estar no meio desta gente, sou talvez um pouco estrangeiro e, quem sabe, alguma coisa tenho de senhora também. É certo que vejo melhor o meu conterrâneo quando me distancio dele, porque só assim o percebo bem, e também não me coíbo de fazer qualquer tarefa em que a mulher é exímia. Mas analisemos.

Nunca vi um jogo de futebol. Confesso que já tentei ver na televisão, mas nunca consegui. Em cinco minutos entro em verde saturação e combustão, desvio o olhar, e encontro sempre qualquer outra coisa para poder fazer, mais interessante ou necessária. Entre outras razões pouco abonatórias para o exercício do futebol profissional, uma das mais interessantes ideias que encontrei em leitura sobre o assunto, não me lembrando por ora a sua proveniência, tem a ver com a questão bélica em que o homem esteve sempre mergulhado durante toda a sua existência, não conseguindo ainda emergir dela. E o campo de batalha foi substituído pelo campo de futebol por se ter vindo a registar uma consciência colectiva do malefício da guerra. As equipas, nação contra nação, representam guerreiros machos bem treinados que os povos detinham, que os existiam famosos também como são hoje os jogadores. E os urros de vitória eram em tudo semelhantes aos de hoje, dados nos lares, nas ruas e em praças. Mas se na génese da guerra encontramos a estupidez, então, por analogia, esta não deixa de existir no futebol.

Se no espaço acima descrito não me incluo no grupo de estrangeiros, nem tão-pouco me sinto senhora para ao grupo das senhoras pertencer, resta considerar-me desertor da minha própria nação que, no preciso momento em que se encontrava em plena guerra, me refugiei no Centro Comercial. Embora a deserção nem sempre tenha origem na cobardia, porque a há ideológica: para os adeptos do futebol, que na sua maioria nada percebem de ideologia, serei sempre visto como um macho pouco assumido, como recentemente ouvi dizer. Pois seja. Aliás, o verbo assumir conjuga-se bem com os termos de género. Recordo um taxista que, pelo simples facto de lhe dizerem, elogiando-o pelo seu zelo na profissão, que ele era um “taxista assumido”, logo ripostou bem alto que era muito homem. Assumido é que não! Este e outros casos fazem-me rir, de facto, não pela ignorância em si, esclareça-se, mas sim pela sua intrínseca estupidez.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
24 Maio 2016

Das susceptibilidades

Acabei de fazer delete nos escritos que tinha para o lugar destes. Eram de tal forma cuidadosos para não ferir susceptibilidades que, depois de os ler, não pareciam escritos por mim. Roçavam, portanto, o cinismo. Seria fácil escrever umas piadas sobre o assunto e pronto, tínhamos um belo texto. Acontece que isso seria nada dizer. Mesmo as piadas deverão ter substância de análise, caso contrário, cairão no ridículo. Mas então como deveremos escrever para, sem ter de elevar a ideia à receita para tese de Umberto Eco, não magoarmos o ego do outro?

Recordo um episódio com nostalgia, que aconteceu há cerca de dois anos, de uma rapariga desesperada pela doença que, ao ler umas notas que escrevi em defesa da “espiritualidade” pela natureza, em detrimento de qualquer outra, mostrou revolta amargurada porque lhe abalava eu a sua fé, que era a única coisa a que ela se podia agarrar naquele momento de terrível angústia. Esta situação colide, ou não, com a liberdade de expressão? Claro está que sempre escrevi respeitando credos alheios. Mas acaso terei eu de ser tão subtil nos meus escritos, de maneira a que tenha sempre de agradar a gregos e a troianos? Teremos também de esconder aquilo que realmente pensamos?

Move-me a razão. Mas poderão vir dizer-me que por vezes há várias razões, que se podem ver as coisas por várias perspectivas, etc. e tal. Blá, blá, blá. A razão de que falamos não tem possibilidade de ser desviada da sua própria natureza de razão. Tal como se costuma dizer, brincando, ninguém se encontra relativamente grávido – ou está ou não está. A razão não aceita ambiguidades. Se uma obra de arte importantíssima para a compreensão da Humanidade se encontra em iminente risco de ruir, e ao seu lado morre faminto um pobre diabo, é a este que, em primeiro lugar, deveremos dar atenção. A razão é única quando temos pleno conhecimento dos verdadeiros factos.

Encontramos, infelizmente, pessoas que se recusam a pensar, que se movem na irracionalidade e ainda que se deixam levar pela suposta razão de outrem sem a questionar. E para as quais o exercício de pensar constitui até um verdadeiro perigo, porque deixarão de ser aquilo que são. E, provavelmente, terão também receio de se afastarem dos grupos a que pertencem. Escuso-me então de adjectivar estas pessoas para não ferir susceptibilidades.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
17 Maio 2016

Da Kookaburra

Se quiséssemos representar o salto sonoro de 15 mil milhões de anos, desde o estrondoso Big Bang primordial até aos dias de hoje, teríamos de escolher uma sinfonia de Beethoven ou uma obra de Bach. Algo de grandioso para lhe imprimir substância, sentido poético e, sobretudo, mostrar que valeu a pena a existência humana e o seu grandioso esforço. Do estrepitoso Big Bang à mais bela fuga de Bach! Seria estúpido escolher uma obra menor que não espelhasse a inteligência humana e o seu bom gosto. Aliás, Sagan fê-lo para os Discos de Ouro das naves Voyager, nos quais, para além de Bach e Beethoven, fez incluir Mozart e Stravinski. Dado que Stravinski, o mais próximo, morreu nos anos 70, não haverá ninguém que nos represente hoje na música erudita? E porque será que esta pergunta tem tão pouca importância para a maior parte das pessoas? Não são esses nossos contemporâneos e compositores o expoente máximo da música actual? Será que eles existem?

Tal como, para muitos, pegar num livro de um autor clássico é um acto árduo e de enorme coragem, também, para outros, analisar uma obra musical erudita constitui uma tarefa, à primeira vista, impossível. Assim como muitos ficam pela leitura de bestsellers, outros rastejam apenas pela música editada para o mercado de consumo. Dizem, dando por desculpa, que não têm ouvido, como se tivessem nascido desprovidos de capacidade auditiva. Que não gostam de certos instrumentos (quando com eles se deleitam em imensas bandas sonoras para filmes, por exemplo). Que são desafinados por natureza e que nem uma canção sabem trautear, querendo dizer com isto que estão limitados aos meros grunhidos de dor e de prazer, como se tivessem simplesmente ao nível de uma kookaburra. O que, de facto, existe é uma grande preguiça para dar esse passo. Uma grande preguiça para ouvir com atenção e tentar perceber aquele discurso. E quanto mais tarde for dado esse passo, maior é também a dificuldade para sair dessa espécie de analfabetismo musical.

Quem com isto lucra são aqueles que produzem música (que, na verdade, não são músicos) para estes analfabetos musicais manipulados pelos media, e que obedecem apenas a regras comerciais. Quem com isto perde são aqueles que sempre fizeram algum esforço para sair desse analfabetismo musical e que se vêem constantemente mergulhados na imundice sonora da música de laboratório e da música produzida, por exemplo, por muitas bandas portuguesas (algumas consagradas), que são abjectas, de audição de criar vómitos, pela sua linguagem musical paupérrima, com ausência total de criatividade.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
10 Maio 2016

Do Escuteiro Menino

A mudança de mentalidades torna-se impossível quando se deixa de questionar aquilo que está instituído. Se sempre foi assim, assim há-de ser também – eis como o povo pensa. Até sou homem para tolerar algumas tradições, mas se estas vêm recheadas de estupidez ou não apresentam nenhuma razão para existirem, luto contra elas e contra quem as defende, porque a reflexão antropológica não me basta. Niilista, sim, claro, porque não tenho qualquer outra opção.

Agrada-nos sempre a ideia de que o escutismo faculta aos meninos o contacto com a natureza, o companheirismo e a entreajuda, a aventura, etc. São todas palavras muito saudáveis, cada vez mais procuradas por aqueles que vivem num mundo cada vez mais urbano e egoísta. Mas apesar destas belas palavras que derretem corações citadinos, não podemos deixar de reflectir um pouco sobre o assunto, principalmente porque nos seus intervenientes encontramos crianças.

Baden–Powell, ao serviço do Império Britânico do século XIX, fez parte de um regimento de cavalaria de longa tradição, os Hussardos. Os valores de então são bem diferentes dos de hoje. E o escutismo foi por ele criado para preparar os meninos para a guerra. Crescendo de farda no terreno de guerra, era uma forma eficaz de conseguir bons soldados no futuro. A disciplina militarista e a adaptação à natureza preparava-os para o combate.

Como se não bastasse este mau princípio, que é militarizar as criancinhas, vem a Igreja logo dar uma ajudinha e, prepara-os também para serem bons religiosos. Tudo à sombra daquelas belas e saudáveis palavras que acima lembrei e que tantos anseiam. Com papas e bolos…. Já não serão apenas futuros bons soldados, mas também futuros bons tementes a Deus. Mas temos ou não aqui uma nova “Mocidade Portuguesa”, encapuzada, cantando e rindo de nós? Sem tirar nem pôr. Apenas não gritam a palavra Salazar, mas o mau princípio continua lá. Para soldado e para cristão, já chegam os que cá estão.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
3 Maio 2016

Post Mortem

Já dei bem a entender que é preferível o Homem assumir a sua ignorância do que recorrer às religiões para que estas lhe dêem respostas às perguntas que o atormentam. Quando me rodeiam de mezinhas, espíritos, deuses e diabos, e questões para além da morte, só comento com as respostas provisórias da ciência. E é da morte que vos quero falar. Essa que é oferecida aos filhos em pacote com a vida. É curioso que muitos são os pais que sobranceiramente, em posição de autoridade magoada em situações de conflito, sugerem aos seus filhos que agradeçam a vida que lhes deram. Mas omitem a morte que lhes ofereceram também. São os pais os verdadeiros deuses, que distribuem vidas e mortes pelos seus filhos. Ainda hoje questiono se será legítimo fazer de deus e usar este poder, assim, com a maior facilidade.

O ministro Costa Cabral, no ano de 1844, proibiu o mau costume de se fazerem enterramentos dentro das igrejas e nos seus adros. Prática corrente durante séculos. Estabeleceram-se então os cemitérios municipais. Mas continuaram, até hoje, a amontoar as sepulturas e jazigos de tal forma que nelas se tropeça, como se o mundo fosse minúsculo. Pouco mais de um palmo separa os talhões uns dos outros. A designação “cemitério”, dada pelos cristãos de Antioquia, significa dormitório. Testemunha a crença na ressurreição. Mas este é um significado finado porque os vivos dedicam-se de corpo e alma à limpeza e decoração floral das campas, passando ali muito tempo das suas vidas, com longos períodos de reflexão e rezas, habitando um espaço que não lhes oferece nenhum conforto. Nos funerais, as famílias não se podem reunir em volta das sepulturas. Combalidas, vi derrubar jarras e lamparinas, saltando de sepultura em sepultura. A falta de árvores também torna estes locais inóspitos no Verão.

A ideia do cemitério-jardim deveria impor-se por muitas razões. Um espaço amplo para mortos e vivos não se acotovelarem. Um pretexto para se criarem espaços verdes e conviver com a Natureza, da qual a morte também faz parte. Não vos agrada mais a ideia de serem plantados num jardim?

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
26 Abril 2016

Do carácter

Ainda hoje não entendo bem como é que aquilo aconteceu. Sem querer, apaguei um cigarro no prato de onde a famosa cantora Cesária Évora sorvia a sua refeição. Ela estava numa mesa comigo, à minha frente, com amigos comuns, e creio que o prato dela me parecia um cinzeiro cheio de cigarros apagados. Claro que havia pouca luz na sala e como sofro de alguma miopia desde cedo, com um enorme sorriso, pedindo licença, esmaguei lentamente o meu cigarro para que ninguém sofresse de algum pestanejar lacrimejante com o respectivo fumo. Credo! Num instante estava tudo de pé, escandalizado. Cesária tomando o acto como uma afronta e todos os outros, de boca aberta, balbuciavam palavras estranhas em voz muito alta. E eu sem perceber nada do que se passava. Mas eis que surge um berro maior do que todos os outros que de mim tomava partido. E com todos berrava e gesticulava, defendendo-me, em várias línguas simultaneamente, com as veias rebentando pelo esforço. Que só podia ser um mal-entendido, que nunca poderia ter feito o que fiz propositadamente, etc. No fundo, expondo publicamente o meu carácter. Os amigos são assim. Esclarecidos e com desculpas dadas de ambas as partes, logo estava de novo sentado em salutar convivência.

Mas o que há de importante a relevar sobre isto? Carácter! Falamos de carácter, palavra em grande desuso. Vamos vendo que civismo, afecto e preocupação pelos outros, honestidade, responsabilidade, lealdade e respeito deveriam ser preocupações constantes de todos, principalmente daqueles que nós elegemos. A corrupção, que tem tomado proporções nunca antes vistas, é um indicador já corriqueiro do mau carácter dos eleitos. No entanto, em vez de falarmos de carácter, logo que surgem os primeiros indícios, deixamos que estes ocorram com naturalidade.

Poderia dar-vos muitos exemplos, mas um dos mais recentes ocorreu com o beija-mão ao Papa, realizado pelo nosso Presidente da República, logo após a sua eleição. Este acto de vassalagem, de submissão, desrespeitando a laicidade do Estado e mormente a Constituição que jurou cumprir poucos dias antes, é um indício de duvidoso carácter. Deveria ele, isso sim, beijar a mão do povo que o elegeu, agradecendo, e a quem somente deverá prestar contas. São estes pequenos passos que me amedrontam e que deviam ser logo censurados por todos, pois os próximos poderão ser piores.

De um autor francês recordo aquele carrasco arrepiante, brutamontes, que depois de ter passado boa parte do dia a torturar inocentes e a cortar alguns pescoços humanos (recebendo de alguns infelizes, sorrateiramente, jóias e moedas de ouro para que fosse certeiro e não os fizesse sofrer muito), logo chega a casa, cansado de um dia cumprido de trabalho, e enche de beijos e carinhosos abraços a sua extremosa mulher e filhos, que tanto o adoram, o idolatram, e que acham ser este o melhor marido e pai do mundo. Que carácter.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
19 Abril 2016

Da solidariedade

Já pedi algumas vezes para que não me leiam, sob pena de entrarem em possível depressão, embora dela nunca eu tenha sofrido. Apesar de os meus textos irem sem estilo, porque não sou escritor mas sim escriba, a eles me refiro como textos “góticos”, pela salutar melancolia que imprime nalguns. A arte gótica deixa-me nesse estado. E o tema de hoje não é do agrado de muitos, porque a solidariedade do Homem, para com o seu semelhante, sempre foi artificial e podre. Disse-o, por outras palavras, José Saramago no seu discurso de banquete do Prémio Nobel da Literatura. Dele cito uma parte:

“Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.”

O Estado é incompetente e grande parte da riqueza mundial, cada vez mais, se concentra numa pequeníssima percentagem da população. É preciso dizer a estes que podem ser muito, mas muito ricos, mas não podem ser TÃO ricos assim. E o Estado deveria ter este papel regulador. Mas sendo ainda mais directo do que Saramago, pergunto-vos, se um governante, de qualquer país, tem ao seu dispor um milhão de euros que canaliza para um estádio de futebol, por exemplo, e simultaneamente, deixa morrer de fome um cidadão, esse governante tem culpa ou não na sua morte?

O assunto é sério. Claro está que eu estava atento à existência de Saramago, e ouvi com interesse este discurso, não só por ter feito leitura das suas obras. Ele também dizia coisas novas. É evidente que deveríamos privilegiar o bem-estar de todos e, se isso fosse feito, mais depressa se resolveriam todos os outros problemas. Infelizmente tal não acontece e, pior ainda, temos instalado um sistema perverso. Como o Estado não cumpre esse papel protector plenamente, por incompetência, surgem instituições que formam redes de esmola. Toda a gente as conhece e sabe que recebem subsídios dos Estados e que nos pedem constantemente contribuições por onde andamos. Mas os nossos impostos bastariam, se fossem bem geridos, para assegurar essa protecção, garanto-vos. Há países que aplicam modelos que funcionam perfeitamente bem. Abolíamos esta corja de pseudo-heróis, que acenam, em simultâneo, bandeiras ideológicas, exigindo aos pedintes que se ajoelhem e os venerem, e cujas máquinas ficam bem caras ao Estado. Se querem realmente ajudar o próximo, exijam ao Estado que cumpra o seu papel. Abomino esmolas por tudo o que lhes é intrínseco e mais ainda abomino quem gosta de as dar. Dar um tostão é atrasar a revolução.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
12 Abril 2016

Da solidão

Por vezes, entre amigos, falamos de literatura infantil. Entre os Irmãos Grimm, as “funções” de Propp e a contestatária Mafalda de Quino (rapariga com a minha idade), nunca deixo de falar sobre as intrigantes personagens de quadradinhos de Walt Disney. Para além da suposta manipulação pelo autor no sentido de relevar o sistema capitalista, interessa-me muito mais a possível influência que Disney deixou nestas últimas gerações, nas quais me incluo, num novo conceito de família.

Se bem repararmos, as personagens que rodeiam o Mickey, ou o riquíssimo e avarento Tio Patinhas, são todas solteiras e não têm qualquer progenitor. Pateta, Peninha, Gastão, Horácio, Margarida, e muitos outros, são personagens sem pais nem filhos e solteiras. Existe um desprezo evidente pelo matrimónio e pela família tradicional, e a relação mais próxima é a de sobrinho para tio. A vovó Donalda, provavelmente viúva, é avó de todos, não se percebendo bem como. Claro que Disney resolvia assim o problema da sexualidade que convinha esconder aos pequenos leitores. Existem namoradas como, por exemplo, a Minnie e a Margarida, mas não passam de frias, distantes e idílicas personagens, contudo, românticas. É certo que todos parecem cuidar dos pequenos sobrinhos como filhos – é o caso de Huguinho, Zezinho e Luisinho (sobrinhos do Donald) ou o Biquinho (sobrinho do Peninha). Mas não o são. A maioria vive só, independente, sem pais nem filhos. Não sei até que ponto interiorizámos, ou quanto transportámos deste conceito de família para as nossas vidas, pelos milhares de histórias que lemos em toda a infância e adolescência. Já não falando da moral explícita no final de cada aventura em happy ending. Mais interessante é que quando falo desta espécie de anacronismo aos meus amigos, parece que ninguém tinha percebido isto mesmo, até então (apesar de terem devorado imensos livros), e como é de facto estranha, mas também simpática, esta estrutura social. Curioso, não é?

O Portugal que conheci de há décadas, em comparação com o de hoje, mostra grandes mudanças na estrutura familiar. As famílias tinham aparentemente relações sólidas e com várias gerações coabitando no mesmo fogo. Na minha, houve quatro gerações vivendo na mesma casa até ser adulto, e conheço nomes de antepassados meus até ao séc. XV, anteriores à descoberta do Brasil. Hoje encontro pessoas que, estupidamente, nem o nome dos avós conhecem. As famílias monoparentais são agora muito comuns, muitos velhos vivem em solidão compulsiva, e existem muitas crianças que esperam ser adoptadas, esperando um “tio” que delas cuide. Tinha Disney noção da mudança comportamental da sociedade ocidental? Ou este prenúncio foi espontâneo e irreflectido? No entanto, no mundo do Tio Patinhas todos se divertem, e convivem novos e velhos, o que parece acontecer cada vez menos. Assim como nos mostra ainda que a vida precisa de muita aventura e de uma grande dose de humor.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
5 Abril 2016

Da normalidade

Mas o que é que é normal? Existirem planetas habitados ou desabitados? Desabitados, claro. Até agora, que eu saiba, só temos verdadeira certeza de este, em que vivemos, ter gerado vida. Assim sendo, este é um planeta anormal, perante todos os outros de que temos conhecimento. E o Homem é, na sequência deste pensamento, uma anormalidade.

A confortável proximidade que este planeta tem do Sol, de certa forma, apodreceu-o, criando imensos bichos, a que chamamos pomposamente, seres vivos. E de tal quantidade o infestámos que, qual cabeça piolhosa, já saltamos bem alto para outros planetas, na tentativa de os infestarmos também. Li algures que esta expansão é similar à da proliferação das células de um cancro, cujo malefício é bem visível. Se acham isto esquisito, peço-vos, antes de mais, que não me continuem a ler. Por menos que isto queimavam pessoas e livros, não há muito tempo. Alguns antepassados meus, em linha recta, FSO (Familiares do Santo Ofício – portanto, ao serviço da Santa Inquisição, um deles juiz aqui em Leiria) ter-se-iam lançado para as fogueiras para evitar que eu nascesse, se soubessem da minha futura existência. Um intimíssimo amigo dizia que eu tinha “ideias quase pornográficas” e que, por isso, não podiam ser divulgadas normalmente. Provavelmente cheio de razão.

Retomando o assunto e sem fazer citações de cientistas e filósofos, o que seria moroso, nesta anormalidade o Homem tenta enquadrar-se numa normalidade que vai reinventando. Quer que o outro seja como ele para se sentir normal. Se muitos outros forem como ele, melhor ainda. Apesar de hoje ele aceitar ainda com dificuldade a existência de génios e artistas, pessoas “diferentes”, não deixa de os classificar como isso mesmo. Nessa busca incessante, não só procura juntar-se a outros que sejam do mesmo clube de futebol, do mesmo partido, do mesmo bairro, da mesma religião, etc., criando grupos fechados, afirmando-se e dominando mais ou menos em função do seu número de elementos, mas também replicando-se na sua prole, e tentando obrigar o outro a ser como ele próprio é. É um erro crasso que sempre cometeu, e continua a cometer, provocando intolerância, ódio e guerra.

Quando encontro alguém que diz ser de um determinado partido, de uma determinada religião, de um determinado clube de futebol, tal e qual como o seu papá, gritando apesar de tudo que assim é por vontade própria, perdoem-me, mas das duas, uma: ou é um normal ser acéfalo, limitado ao pensamento e desejo do seu clã, ou foi apenas uma pequena e normal coincidência.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
29 Março 2016

Almerinda e Almaasa

Almerinda, doce criatura, cresceu numa família portuguesa tradicional. Desde cedo, a par das primeiras letras que aprendeu, iniciava-se na arte das frioleiras, amassava broinhas doces com a avó, ia à catequese ao sábado e à missa ao domingo com os pais. Já adulta, muito devota de Nossa Senhora do Amparo, tornou-se uma excelente cozinheira e não dispensava um bom vinho nas suas refeições. Não havia, nas redondezas, melhor arroz de cabidela do que o dela.

Não sabia ela que tinha tido uma irmã gémea que, apenas com alguns dias de vida, foi para a Arábia Saudita, onde cedo, a par da escrita que ia aprendendo, Almaasa, assim lhe chamaram, se iniciava na arte do tabel e já punha as mãos também no fatir como gente grande, limpando-as depois no jilbab da sua suposta mãe. E com esta jejuava e clamava, bem alto, por Maomé. Vinho, nem vê-lo.

Se perguntarmos a Almerinda e a Almaasa se assim rezam por opção própria, ambas dirão que sim, convictamente. Mas o que já vemos é que tudo lhes foi imposto e que foram simplesmente formatadas. Não há opção coisa nenhuma. Levassem-nas, meninas ainda, para um país mais distante, com um outro deus ainda mais estranho, porque todos me parecem estranhos, e este beneficiaria de mais duas devotas, e responderiam, em princípio, da mesma forma.

Concluímos que as religiões são geográficas e que, se incutirmos nas crianças qualquer religião, dificilmente sairão delas. Ora, isto não faz muito sentido. Mais ainda nos custa saber que quase todas as religiões maltratam ou discriminam as mulheres. A segregação de género existente no islamismo sunita não fica assim tão longe daquela que existe no catolicismo, cuja hierarquia é dominada só por homens, excluindo as mulheres completamente. Mas estando elas em maior número, porque será que tanto se subjugam? Porque não se inquietam?

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
22 Março 2016

Dos símbolos

Uma senhora que conheço, já com provecta idade, veio ter comigo numa cerimónia pública, e disse-me sorrindo: “Sabe, Frederico, deixei de usar o meu crucifixo desde que li a sua crónica.” Fiquei, por duas boas razões, satisfeito. A primeira, porque alguém tinha lido com atenção um escrito meu, porque sempre duvido de que o façam. A segunda, por ter tido impacto nalguma alma.

A crónica, que assinava num periódico da região, contava uma ida minha a uma exposição de instrumentos de tortura num país do norte da Europa, num belo castelo na margem de um rio. Nela vi fazer referência à cruz onde era costume martirizar pessoas. Nisto, vi imediatamente a cruz de Cristo como um cruel símbolo, e pensei que, se na época de Cristo existisse electricidade, ele poderia ter sido morto numa cadeira eléctrica e hoje poderíamos ter cadeiras eléctricas nos altares e pináculos das igrejas, ver cadeirinhas eléctricas nas lapelas, em decotes e noutros milhentos sítios. Pessoas de outras religiões podem achar bem estranho a cruz como símbolo. E lamentava, então, que uma religião que apregoa o bem tivesse como símbolo um instrumento de tortura.

Sempre achei piada às religiões pelos seus rituais. Podia bem praticar alguns, embora como se de um jogo se tratasse. Se estivesse numa tribo rodeado de gente boa, facilmente punha uma tanga e dançava a um deus qualquer, colaborando num ritual desse povo. Comportava-me de maneira semelhante com todas as religiões. Como um convidado. Mas nunca escondi que estava ao lado de Bertrand Russel, em relação a este assunto. Para mim, um dia, restarão apenas os rituais. As crenças vão desaparecendo, embora muito lentamente. Longe de mim estar a tentar “converter” quem quer que seja ao ateísmo. Mas os números provam que, nos países mais educados da Europa, as crianças vão acreditando apenas na Mãe Natureza.

No entanto, como as coisas vão mudando, a minha atitude é agora outra. Tal como fomos sentindo a globalização progredir, aproximando culturas, fomos sentindo também um maior número de choques ideológicos, mormente os que dizem respeito às religiões. E hoje sentimos uma maior tensão, para não dizer perigo.

Contudo, não há conformismo com o cinismo e a estupidez. Se exijo um Estado laico, é porque ele se comprometeu a sê-lo. E cinicamente não o é. O Estado e a Igreja andam de mãos dadas, descaradamente. Como se esse compromisso não existisse. Aquela história recente, por exemplo, de o Município de Leiria e a Santa Casa da Misericórdia pretenderem criar um “Centro de Diálogo Interculturas”, que irá funcionar na Igreja da Misericórdia, não me cai bem. Existem ali algumas coisas para desvendar e a Câmara devia estar ausente nestes assuntos. Falaremos sobre isto mais tarde.

E a conversão das crianças às religiões, qualquer uma delas, é um atentado a elas próprias. Também mais tarde direi porquê. Para já, deixo algumas linhas, que compilei e passei para o actual português, de um dos livros que pertencia ao meu Trisavô Thomaz. Deste ainda guardo um pequeno daguerreótipo, entre outras fotografias dele (digo isto para que percebam quão antigo ele era). In A Boa Educação, de Victor Nunes, editado por Pedro Bordalo Pinheiro, a páginas tantas, lê-se: “Assim, durante os anos que decorrerem até ser homem feito e até pensar e raciocinar por si, a moral incutida no seu coração ajudá-lo-á a sopear as suas paixões, os seus instintos maus, e se não fosse a educação moral, ver-se-ia exposto a grandes perigos. Chegado o educando à idade de homem, escolherá a confissão religiosa que quiser, ou mesmo não escolherá nenhuma e preferirá o livre pensamento.” Não vos parece acertado?

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
15 Março 2016

Lixo cultural

Encontrava-me com alguns amigos, nativos, em calorosa confraternização num bar de Gante, numa noite bem fria dos anos 90. Subitamente vi-me rodeado de olhares sorridentes que me questionavam. Não reagindo, perguntaram-me se gostava do que estava a ouvir. Não percebi o que era. Nem tão-pouco entendi, de imediato, que cantavam em português. Com caras de grande espanto, os meus amigos belgas diziam-me que era Madredeus e questionavam como era possível um português não conhecer os Madredeus, que tanto apreciavam.

Posto isto, choca dizer-vos que a maior parte dos eventos que vão acontecendo à minha volta os considero lixo cultural? Não é que andasse distraído. De Vilar de Mouros a Faro corria para assistir às mais variadas manifestações artísticas. Deliberadamente, passava à margem daquilo que eu considerava não ter qualidade. Se vou a um restaurante, por exemplo, não havendo nele iguarias que aprecie, esqueço ad aeternum que aquele sítio existe e nem tão-pouco me fica o nome dele na memória, por mais afamado que ele seja. De facto, são as coisas belas que vi, as boas pessoas que conheci, aquelas emoções de felicidade que me moldaram, que guardo comigo para sempre.

Leiria penetra intensamente na oferta cultural que bem conhecemos. Do ridículo àquilo que considero necessário para uma comunidade, ainda há saldo positivo. No entanto, temo que a coisa transborde. Lembram-se, com certeza, quando se soube que o grupo editorial Leya queimava milhares de livros, por simplesmente não conseguir fazer nada com eles. Quando a oferta é muita, há desperdício. Hoje parece que toda a gente se sente capaz de escrever um livro e a questão agrava-se. Escreve-se e edita-se muito mais do que aquilo que realmente se lê. O que está a acontecer com a produção de eventos culturais e com o seu consumo é uma situação similar.

Este consumismo cultural está a ser estudado. Não direi nada de novo. As pessoas têm hoje mais tempo e dinheiro para gastar, entre outras razões que se prendem com a moda. Mas ainda não entenderam bem que o consumismo também passa por aqui, pelos eventos culturais, embora vão percebendo que existe uma grande oferta. Os especialistas em sociologia do consumo dividem-nos em omnívoros e unívoros culturais, apreciando esta evolução com requinte, olhando-nos como cobaias perdidas em labirinto sem saída. Mas o que é verdadeiramente trágico é que não existem indicadores de qualidade, isto é, para todos tudo é bom, tudo corre bem, é tudo lindo.

Fico de boca aberta com a falta de gosto que as pessoas têm e, principalmente, com a ausência de critérios de qualidade. E ai de quem diga mal! Para lá de perceber que, apesar de tudo, continuam num certo analfabetismo cultural porque, por muitos concertos a que assistam, não percebem ainda coisas simples como, por exemplo, se estão a ouvir um trompete ou uma tuba. Mas estão lá apinhados, como carraças ávidas de sangue. As salas enchem, transbordam, numa estranha sequiosidade. E os media abstêm-se de fazer críticas negativas. Amorfos, portanto. Se, até à implantação da República, a crítica mordaz era o prato do dia nos jornais (pateava-se nas salas de espectáculo), e posteriormente com o Estado Novo desapareceu por completo (como é óbvio), hoje existe uma paz podre (guiada pela deontologia jornalística). E os artigos de opinião são, de uma forma geral, floreados de agrado para todos. Apenas na política, para animar, há alguma animosidade.

Não se trata de maledicência. Trata-se apenas de se dizer aquilo que se pensa. Deixarmos de ter medo de ser sinceros. Como li há dias, este povo canta a “Grândola, Vila Morena” nas ruas, para logo depois ir a correr para as mesas de voto e eleger a direita. Povo estranho. E dos Madredeus, como todos já sabem, tratou o actor Mário Viegas, vindo a dar-me razão.

Texto de Frederico Serrano (since 1961)
8 Março 2016