Tal como o calçado, também o que vestimos é, hoje em dia, quase exclusivo do fabrico industrial. Antes, estava nas mãos dos alfaiates. Poucos são os que ainda passam os dias a desenhar, a tirar medidas, presos à agulha e ao dedal. Por isso, a Preguiça entrou em modo corte e costura e quis saber tudo acerca da vida de Abílio Jorge, o alfaiate da Caxieira, Santa Eufémia, Leiria.

Texto: Joana Areia
Fotografias: Ricardo Graça

O casamento de Abílio com a máquina, a linha e a agulha tem muitos anos. Do avô, e posteriormente do pai, herdou a profissão e os ensinamentos, como geralmente acontece nesta área.

Nunca chegou a ir à escola, mas aprendeu a ler e escrever com os irmãos. Lembra-se de ter começado muito novo a ajudar o pai, de quem recebeu muitos fregueses. “O trabalho era muito e ganhava-se bem – eram necessários 10 escudos para mandar fazer umas calças”, explica.

Começou por ir a pé, de porta em porta, visitar os clientes. Depois passou a ser a bicicleta o meio de locomoção que usou até aos 60 anos. Recorda-se de a terça-feira ser o dia de sair até à cidade, para o mercado, onde tinha uma banca para entregar e receber a roupa dos clientes. Já o domingo era dia de ir até à Boavista e Caranguejeira à procura de fregueses.

Hoje em dia, com 86 anos, sai de casa para dar as suas “voltitas”, aquelas que as pernas ainda deixam que aconteçam, mas a maior parte das vezes espera, sentado na sua poltrona, à porta de casa, pelos clientes.

Já não se constroem fatos, agora fazem-se os arranjos de costura mais simples, como as bainhas, colocar um fecho, alargar ou apertar cinturas.

A visão não é como a de antigamente para enfiar a linha na agulha mas, embora demore mais tempo, não deixa de se fazer. Com paciência chega-se lá e segue-se para talhar, alinhavar, chulear, casear ou coser botões.

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A tesoura dourada, que herdou do pai e que garante ter mais de 200 anos, ajuda aos cortes. Nas mesas podem ver-se pedaços de tecido, testemunhas de outros trabalhos, carrinhos de linhas, agulhas, alfinetes e dedais. Aqui e ali, espalhadas pelo pequeno espaço, de onde um dia saíram grandes obras, fitas métricas de cores usadas. No que toca a máquinas de costura, Abílio tem duas: uma mais moderna – aquela onde podemos vê-lo trabalhar se espreitarmos pela pequena janela–, e outra, uma Singer, que agora está parada, mas que chegou a ir ao Brasil e voltar.

Quando começou, os trabalhos eram realizados à luz de um candeeiro a petróleo e o passar da roupa era feito com um ferro a carvão, que deixou de utilizar há pouco tempo. “Agora é tudo eléctrico e por isso muito mais rápido. Para usar o ferro a carvão, tinha de acender o lume, deixar que as brasas se fizessem para depois as utilizar no ferro”.
Acostumado a produzir todo o tipo de peças, desde fatos completos a ceroulas, o ritual exigia que, com a fita métrica se tirassem as medidas ao freguês, depois, com o pano estendido em cima da mesa, faziam-se as marcas a giz, para depois dar os cortes de tesoura. Faziam-se as coseduras essenciais para a prova e por fim davam-se os pontos finais.
Abílio garante que “o que custa é aprender, quer seja a manusear a agulha, a dar ao pedal na máquina, ou a tirar medidas, mas há sempre algo mais.

Cada ano há uma moda diferente, por isso é que esta é uma profissão onde nunca se deixa de aprender”. Apesar de ter menos trabalho, visto que “agora há máquinas para tudo”, Abílio não nega que as peças agora também são bem feitas e às vezes mais vistosas do que antigamente, quando um fato demorava cerca de dois dias a ser feito.