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Texto e fotografias
Katy Deodato e Ricardo Santos

10 Março 2016

Até se me deu um arrepio na espinha quando recebi o carimbo australiano. Estamos cá, naquele que é primeiro país que sempre me vinha à ideia quando pensava num lugar distante a visitar. Entrámos como turistas, mas o que vamos fazer é conciliar trabalho com lazer.

Ao longo de três meses (permissão para estarmos no país) vamos andar de família em família, a ajudar no que precisam, em troca de estadia e alimentação. Para começar escolhemos uma na cidade de Perth. No site Workway dizia que esta família só precisava de umas horas de trabalho nas lides domésticas e em troca podíamos ficar a viver em casa deles com pensão completa – e é esse o compromisso: eles precisam de ajuda e nós precisamos de um tecto e de comida.

Estávamos ansiosos e muito entusiasmados, pois era a primeira vez que íamos fazer algo do género. Saídos do aeroporto tínhamos de apanhar dois autocarros até chegar à casa da família. Apercebi-me de que o país era rico quando levantámos dinheiro e o multibanco só nos deu notas de 50 dólares australianos. Vamos para pagar a viagem do autocarro e o senhor diz-nos que não tem troco… Pois, mas só temos notas de 50…. ele amavelmente oferece-nos a viagem. Como? A sério! Começamos bem!

Como tugas que somos, vimos logo oportunidade para não trocar a nota e usar a mesma desculpa no autocarro seguinte. E não é que resultou? Pimbas, vai buscar! Estes tugas logo a armarem-se em chicos-espertos e a safarem-se. Com isso poupámos 15 dólares em transportes. Por aí fora tivemos de caminhar até chegar à casa. O Google Maps é sempre um bom guia e nunca se engana.

Chegar a um lugar pela primeira vez é uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo de entusiasmo e engraçada. Meio aparvalhados a olhar para todo o lado, reparamos estupidamente em tudo e tudo é alvo de comparação, com a nossa cidade, com o nosso país e à primeira vista as diferenças são abismais. A começar pelas casas de luxo que por aqui se vêem.

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Centro financeiro de Perth


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Uma das tarefas era passear o Luka, de manhã e ao final do dia

Entramos na rua que nos leva à casa. Cada vez mais sentíamos os batimentos do nosso coração. Soubemos logo que tínhamos encontrado a casa quando vimos hasteada a nossa bandeira! Um miminho engraçado de se ver. Chegamos! David dá-nos as boas-vindas e, ao mesmo tempo, dá-nos logo a chave da sua casa e os códigos de entrada. Informa-nos que estaríamos sozinhos em casa a tarde toda e ao jantar tínhamos de nos desenrascar. Disse para nos sentirmos à vontade como se estivéssemos em nossa casa. Uuuii! Nem queiras saber o que a gente faz em nossa casa, ó David. Na verdade, não fazemos muito. A nossa casa não tem piscina, nem uma despensa que mais parece os corredores do continente, nem uma televisão do tamanho das telas do Cinema City. David, tu não deixes a tua casa assim sozinha com estes dois rufias!! Bom, fora de brincadeiras é incrível como conseguem abrir as portas a estranhos e nos deixarem tão à vontade que quase podíamos andar pelados pela casa. A família do David é constituída por 4 filhos (mas só dois é que ainda vivem em casa: a Natasha, de 17 anos, e o Cameron, de 21 anos), a sua esposa Denishe e o Luka, um caniche já com 14 anos.

Ao inicio tínhamos aquela sensação de sermos os estranhos (e éramos), mas a família também não ajudou muito porque eram muito calados, mesmo uns com os outros não conversavam muito, e quando conversavam eram formais. Jantávamos com aquele silêncio estranho que até a mastigar se consegue ouvir, mas o filho volta e meia gostava de quebrar esse gelo e mandava com cada arroto… Lindo! Sem pudor, sem qualquer problema, o rapaz precisava de se aliviar. Era sinal que o jantar que eu tinha preparado estava bom.

Sim, em quase todos os jantares tive de cozinhar, pôr em prática os meus dotes culinários. Para uma família que não tem por hábito preparar grandes refeições, os meus pitéus vieram trazer alegria à casa. Aos poucos começámos a estar integrados com a família e adaptámo-nos ao jeito deles.

Todos os dias pela manhã atribuíam-nos tarefas como: aspirar, limpar o pó, arrumar as prateleiras, limpar a piscina, levar o cão a fazer o seu cocó, organizar toda a papelada lá de casa. É mesmo impressionante como conseguem que estranhos lhe mexam nas coisas. Vimos facturas de compras online que até nós ficámos embaraçados…

O trabalho era fácil e pelos dois nunca demorávamos mais do que 3 horas. Por volta do meio-dia estávamos livres para explorar a cidade e a praia.

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Cottesloe Beach


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Na roça com a Lolita na Austrália

Vivemos na casa do David durante uma semana e o melhor desta experiência foi observar os seus comportamentos e o quotidiano. Foi estranho para nós verificar que apesar de viverem todos juntos, a família é muito independente. Cada um tem o seu horário, cada um faz a sua vida sem grandes interacções. Podem estar todos juntos em casa mas, por exemplo, não tomam necessariamente o pequeno-almoço ou o almoço juntos. Não têm aquela união de família à mesa que nós temos. Mas o pai pede para se reunirem ao jantar. Por volta das 18 horas a mesa está posta – houve um dia que até jantámos às 17 horas.

Esta família de classe média/alta tem tudo o que geralmente se pensa ser essencial para se ter uma vida bem confortável, mas o curioso disto é que, no tempo que estivemos com eles, não nos transmitiram serem lá muito alegres e felizes. Pode até ser personalidade e impressão nossa, mas a verdade é que, por aquilo que nos fomos apercebendo, a felicidade deles parece passar muito por adquirir bens materiais que acabam por nunca serem suficientes para atingir sequer a gratidão pela vida afortunada que levam.

O que também achei interessante foi que, apesar de serem pessoas com dinheiro, até são gente muito simples na aparência. Muito menos vaidosas do que nós, ou seja, olhando para eles não se imagina o que podem ter. Não são exibicionistas nem se preocupam com a imagem como nós. A sociedade não lhes impõe essa pressão.

Assim como os dois filhos, ambos trabalham no McDonald’s. Supostamente, e comparado com a nossa classe média/alta, não se vê nenhum menino da linha a trabalhar no Mac. Ai que horror. Aqui, para além de não ser vergonha nenhuma, é muito comum os jovens trabalharem nestes sectores e obterem um rendimento que, no mínimo, nós não o conseguíamos trabalhando… sei lá… para aí uns cinco anos.

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De volta da papelada


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Nós com o David e Luka


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A caminho de casa depois de um passeio até City Beach

Depois de cumprir com o trabalho era hora de ir laurear a pevide. O David tinha duas bicicletas e foram o nosso melhor meio de transporte. Toda a área urbana é ciclável e plana, o que é bom: poucas subidas. Então, tal como muitos australianos, íamos todos os dias almoçar num dos muitos parques espalhados pela cidade. O nosso preferido foi o Kings Park. São hectares de campo relvado com toda uma Natureza envolvente, muitos pássaros e uma belíssima vista sobre a cidade de Perth. Ficámos deslumbrados com a pinta desta cidade. Se um dia me pus a imaginar como seria viver numa cidade perfeita, Perth era essa cidade.

O centro financeiro concentra-se todo numa só zona com arranha-céus a darem a sua graça contemporânea. As ruas são avenidas sem muito trânsito. Os peões e ciclistas são parte integrante, tendo sempre uma rodovia para eles. Fora do centro da cidade concentra-se a massa residencial que, se calhar, em 70% é composta por lindas moradias com belos jardins. Há poucos prédios e os que existem são de poucos andares. Assiste-se a um estilo de vida mais relaxada e com muita qualidade. O Ricardo diz que a cidade é demasiado perfeita e certinha, tudo parece estar meticulosamente arranjado e organizado.

Mas como amantes do mar que somos, foi na praia que passámos mais tempo. Fomos à procura daquela que dizem ser a melhor das redondezas, Cottesloe Beach. Ainda ficava longe: uns 30 km (ida e volta). A praia era linda, grande, as águas são superlímpidas, muito azuis. Até me fez lembrar a praia da Vieira… mas porque a água era fria!

A partir do meio-dia começa o vento, chegam os praticantes de kitesurf e windsurf e a praia fica colorida com os seus pára-quedas. O tubarão às vezes lá se lembrar de vir até à costa, mas o helicóptero que sobrevoa as praias emite o alerta e rapidamente o mar fica sem banhistas.

Constatámos que os australianos são amantes da Natureza. Graças ao seu bom tempo e às boas infra-estruturas que possuem, adoram actividades ao ar livre. Só para terem uma ideia do luxo que é este país, os parques de merendas em vez de terem os tradicionais fogareiros a lenha têm fogareiros eléctricos.

Apesar de estarmos aqui há pouco tempo, esta experiência de viver com famílias australianas está a ser fantástica. Estamos mesmo a gostar muito de ter esta proximidade com os locais, que de outra maneira nunca teríamos.

O fixe disto, e por incrível que pareça, é que a Austrália está a ser o país onde gastámos menos dinheiro. Ainda só comprámos o cartão para o telemóvel.

Mas bom foi quando o David nos pediu para ficarmos mais uma semana na sua casa, pois tinha gostado da nossa presença, do nosso trabalho e dos meus cozinhados. Ficou a promessa de voltarmos lá mais uns dias, se tivermos intenções de ir para aqueles lados outra vez. Agora estamos a viver numa quinta a 100 quilómetros a sul de Perth, a brincar aos agricultores. Contamos no próximo artigo. Até breve!