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Entrevista
Catarina Pedro

Fotografia
Ricardo Graça
(excepto imagem de palco)

11 Março 2016

Na rubrica Fora de Cena, com um formato quinzenal, pretendemos conhecer o percurso de alguns actores que fazem do palco a sua vida, olhando-os para além das personagens que vestem. É sobre teatro que aqui falamos, mas o que queremos mesmo é ouvir as histórias reais, onde cada um se apresenta ao vivo e a (muitas) cores.

Durante este mês teremos como convidados actores do Teatro Amador de Pombal (TAP). Começamos com João Alegrete, o elemento mais velho desta companhia. Depois de quase 40 anos de peripécias, desafios e muitos espectáculos, continua a falar do teatro com a mesma paixão com que iniciou. Eis o que nos disse:

Conta-nos a tua história, o que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso?
A escola deverá ter um papel fundamental na chamada de atenção para outros interesses e actividades. Assim, foi num grupo de teatro escolar que nasceu este meu gosto pelo teatro. Depois de alguns ensaios fiquei de cama doente na noite de estreia. Mais tarde, quando as pessoas ligadas a este grupo decidiram abrir este projecto à comunidade, surge o Teatro Amador de Pombal (TAP). Cheguei, bati à porta e disse que gostaria de pertencer a este grupo. Comecei os ensaios e estreei-me pouco tempo depois a substituir um dos actores que tinha sido sujeito a uma intervenção cirúrgica. Cenas!… Uma caminhada de aprendizagem constante de quase quatro décadas. Um palco é dos locais mais ermos, solitários e desoladores que conheço. A oportunidade de o transformar noutros mundos, noutros tempos, em outras praças, em outras formas de vida é talvez o desafio que mais nos motiva a continuar esta jornada.

­­­­­Na tua opinião, qual o valor do teatro relativamente a outras artes (como o cinema, por exemplo)?
O teatro é o aqui e agora, o sussurrar de uma plateia, o remexer de uma cadeira, os olhos nos olhos, sentir a respiração de um público que te acompanha, nos teus conflitos, amores e desamores. Este confronto directo, diferente de espectáculo para espectáculo, será porventura uma experiência só possível no teatro, a maior vantagem do teatro em relação a outras artes.

Se pudesses ir buscar características a personagens que já interpretaste, quais seriam?
Iria buscar a capacidade de navegar entre mundos, desfrutar dessas aventuras e desventuras, com um grupo de amigos, transmitindo a alegria dessa vivência a miúdos e graúdos. Esta é talvez a característica de personagens que mais gosto de preservar e que está representada na peça N@VEG@R, um espectáculo para a infância, produção do TAP, em que quatro crianças navegam na internet, nas descobertas dos navegadores portugueses e em coisas de miúdos.

João Alegrete_1

 

Como costumas lidar com as críticas?
Assimilar conselhos, críticas e observações, tanto da parte do público, de outros actores, encenadores e de tantas outras pessoas, devem contribuir para um maior esforço no caminho do crescimento que faz parte da carreira de um actor, à semelhança de qualquer outra carreira profissional.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
A peça A Corrida, produção do TAP, de 1987, onde já tive o grato prazer de contracenar com duas gerações diferentes (pai e filho), contingências de tantos anos dedicados a este grupo, é um espectáculo de som luz e mímica, construído em cima de uma banda sonora criteriosamente seleccionada. Três actores aguardam a entrada do público escondidos debaixo de serapilheiras que fazem parte da cenografia, já em palco. O início da banda sonora é o sinal para o começo da acção. Num destes espectáculos, o meu colega sonoplasta dispara a cassete (sim, ainda era cassete de fita) e surge uma das mais conhecidas canções, do cantor pimba, mais na “berra” na altura. Com a necessidade de permanecer imóvel debaixo da serapilheira e o pânico da troca da cassete, contar todos os passinhos do sonoplasta, ouvir o “clic” do play e finalmente ouvir a banda sonora correcta foi talvez um dos imprevistos que nunca mais esquecerei.

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas?
Tenho de confessar que uma das minhas grandes paixões é a iluminação de espectáculos, actividade que desenvolvo não só no TAP mas também em algumas companhias profissionais. É deveras frustrante chegar a algumas salas e ver as condições deploráveis em que se encontram tecnicamente, coisa que, com boa vontade, baixo orçamento e aconselhamento especializado poderia mudar-se radicalmente. A falta de interesse e conhecimento por parte dos responsáveis por estes equipamentos é algo que vejo com alguma apreensão. Contudo, estes factores não deverão constituir impedimentos para que o teatro, a dança e outras artes se realizem e façam acontecer. Com esforço e imaginação é sempre possível reverter a situação. De realçar que, felizmente há, não só no distrito, mas por todo o país, salas bem equipadas tecnicamente, bem como funcionários com formação acima da média e de uma disponibilidade incrível. Isto é, sem dúvida, sempre um grande desafio.

Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
O teatro está bem e recomenda-se. Existe público, existe público jovem, o que é promissor, bons elencos, bons encenadores, bons dramaturgos e um crescente interesse por parte do público no contacto directo só possível no teatro.
Apesar de todos os cortes orçamentais e da precariedade de todos quantos vivem desta actividade, penso que por parte das companhias profissionais, deverá ser feito um esforço suplementar e uma maior flexibilização nas suas produções, para que se torne mais viável a sua deslocação e consequente conquista de novos públicos. Felizmente que algumas companhias perceberam a necessidade de não ficarem confinadas ao seu espaço e nos vão presenteando com o seu trabalho. Um maior aproveitamento de todo este potencial, nomeadamente nos currículos escolares, seria uma mais-valia, que não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar. O maior acompanhamento real, por parte das entidades responsáveis pela Cultura e Educação, do trabalho desenvolvido por amadores e profissionais, é fundamental para perceber a real dimensão e consequente valorização desta tarefa.

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Não gostaria de nomear um actor ou actriz, no entanto há sempre aquele ou aquela por quem se nutre um carinho especial.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Antes dos meus dez minutos de recolhimento pessoal, ritual que faço questão antes de entrar em cena como actor, ou mesmo como técnico, não posso deixar de manifestar o meu enorme agradecimento, à minha família, ao Teatro Amador de Pombal, a todos os que por lá passaram, às pessoas e empresas que solicitam e confiam no meu trabalho, incentivando esta minha grande paixão de trabalhar no mundo do espectáculo.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver?
Pagaria novamente bilhete da maior vontade para rever estes excelentes trabalhos: Leonardo, da Companhia do Chapitô; Al Pantalone, do Teatro Meridional; Contos de Cabo Verde, do Teatro Meridional; A Demanda, do Teatro Amador de Pombal.

Alegrete.3