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Texto
Sara Peres

15 Março 2016

Há muito tempo, num post muito muito distante, declarei que a minha vida não dava um filme e teorizei sobre rotinas, afirmando que, apesar de aborrecidas, são necessárias. Esta semana, como que sentindo urgência em provar a veracidade dessa teoria, saí da minha rotina laboral, aventurando-me nuns poucos dias de férias, e, consequentemente esqueci-me que aquela era semana de Preguiça.

Vergonha!, irresponsabilidade!, gritava a minha consciência. Como podia ser, quando anoto religiosamente a periodicidade das publicações na minha agenda e no calendário disponibilizado pelos senhores da Google? A verdade é que me esqueci porque foi uma semana atípica e só no próprio dia me dei conta do lapso.

Mas perdoe-me a meia dúzia de cidadãos leitores que duas vezes ao mês perscruta este canto. Perdoem-me, pois. Ora, encontrando-me vazia de ideias (mas cheia de chocolate), e perdendo minutos da minha vida no Facebook, apercebi-me, subitamente, graças àquelas compilações de memórias que a coisa agora faz, que o último ano (desde Fevereiro do ano passado para cá) foi dos diabos: há um ano despedia-me temporariamente do Minudências, por motivos relacionados com a minha saúde, e amaldiçoava com alguma frequência a minha mudança de cidade. Pesava sobre mim muito trabalho, uma vida não-social e uma consciência que felizmente não tem figura humana ou animal, caso contrário uma de nós já teria ido parar ao hospital vítima de violência física.

Um ano depois, em Março de 2016, ainda a procissão vai no adro e dou por mim a verificar que já cumpri umas quantas resoluções de Ano Novo: terminar a leitura d’O Bom Soldado Svejk (check), visitar uma nova cidade (Bruges, check) e arranjar um novo corte de cabelo (finalmente, check). Sim, não elevei muito a fasquia, mas quem disse que as resoluções têm alterar a nossa vida radicalmente? Um ano depois, raras são as semanas em que após o trabalho não tenho já uma série de actividades planeadas, que podem incluir uma ida ao cinema ou ao teatro, ler um livro numa esplanada, beber copos com os colegas de trabalho no final do horário de expediente, escrever coisas novas, ver um filme no conforto do lar, conviver com os amigos (alguns novos) ou dormir uma sesta.

Não são tarefas que mudam o mundo, mas são pequenas coisas que me impelem a seguir em frente, mesmo nos momentos menos bons. Aquelas alturas em que percebemos que não estamos a fazer aquilo com que sempre sonhámos, nem moramos onde gostaríamos de morar, nem temos algumas das coisas que pensámos que teríamos por esta altura. As sombras existem, as memórias de momentos mais felizes empurram-nos para o chão e a desilusão está aí mesmo ao virar da esquina. Cada um faz o que pode e cada qual desenrasca-se como sabe (ou como intui). Nascemos sem livro de instruções (os livros, sempre os livros!) e por mais que os pais, os avós, os tios, os primos, os amigos mais velhos, os amigos da mesma idade, pessoas estranhas, nos digam para fazer assim ou assado, nada substitui a experiência e a importância de uma queda.

Ao contrário do que fazia quando era pequena, ao ler os policiais de Agatha Christie – ou seja, fazer batota e consultar o final para verificar se o meu suspeito correspondia ao criminoso – a vida não permite dar saltos em frente só para ter a certeza se a história vai acabar bem. E, ao encontrarmo-nos aqui, presos na nossa própria narrativa, a única coisa a fazer, parece-me, é continuar em frente, página a página, capítulo a capítulo, assobiando (como recomenda Eric Idle em Always Look on the Bright Side of Life) até ao fim.