Quando o que parecia ser um lugar de estacionamento se revela, afinal, um lugar sagrado.

Estacionamento

Quem se atreveria? Nunca eu, que me encho de pejo e comoção ao deparar com poesia no código da estrada, no mobiliário urbano da cidade onde estou de férias, no inusitado da vida a acontecer, naquel’outro dia que se enfileira para chegar.

Chegará? Encontrar-me-á porosa? Absorvo-o e encho-me dele? Ou de tão cheia deixo-o escoar-se inteiro no bueiro dos dias vãos?

Tantas perguntas. O tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem. Resposta pronta na ponta da língua, a quem possa interessar. Carta aberta aos habitantes do planeta Terra. Por mais distante, o errante navegante, quem jamais te esqueceria. Caetano Veloso. Outra vez a poesia, essa chata que me faz pensar com a premência de quem faz contas complicadas de cabeça, como converter aquelas dezenas de tracinhos em imperiais, ao balcão da taberna, multiplicar tudo por x euros e dividir tudo por y pessoas embriagadas, muito antes da calculadora a pilhas estar on.

  • Este gajo é um boi da álgebra!

E quem não vê nesta frase uma ode, não teve a bem-aventurança de conhecer o Necas, tão poeta como o Caetano.

A logística do tempo determinou ser esta a última vez que publico neste espaço. Agradeço tudo a todos. Aos que me puseram a escrever e aos que se dispuseram a ler. Vou sentir falta deste lugar de estacionamento semanal, reservado a cargas e descargas de mim, desde o dia 21 de Março até ao dia de hoje.

O lugar está reservado ao abrigo da placa com força de lei e eu, ah com certeza, ah como não, vou deixá-lo livre, como sempre o soube, como sempre o vi, destinado à enormidade absoluta da logística do tempo, ali na rua como aqui no peito, até conseguir estacionar, com muita dificuldade e muitas manobras, noutro qualquer lugar onde caiba, apertada pela vida estacionada à frente e pela vida estacionada atrás. Às pessoas dessas minhas vidas, peço desculpa pelos toques, inevitáveis, apesar de todos os sensores que me equipam.

E agora que me vou embora, desligo o motor em vez de o ligar, certa de que a ignição aconteceu lá atrás e permanece por magia, segura de que o meu ponto feliz não é morto. Rotação, precisa-se. Ainda é tempo de esticar a caixa, lá mais à frente, um dia. Ou então amanhã, ainda hoje, sempre, desde que vislumbre em permanência um lugar de estacionamento reservado à logística do tempo. Para ocupar sem transgredir, em caso de necessidade.

Os textos publicados neste espaço foram escritos de acordo com a ortografia que a D. Gisela me ensinou. Na altura, em plena era da esferográfica BIC, era obrigada a escrever com caneta de ponta de aparo e recargas de tinta, sempre e só de cor azul, que uso até hoje, ainda que hoje os dedos martelem teclas pretas de letras brancas. São-lhe todos dedicados.

Texto de Isabel Miranda
25 Julho 2016

Rosa

Era um bairro com alma de lata, visceral e aguerrido, de batuques à solta e solas dos pés negras de pó. Um bairro com unhas desmazeladas, cabelo crespo e ganzas nos olhos. O rio ali ao lado enchia os becos de mosquitos indolentes, vagarosos no zumbido, que aqui e ali picavam sem ninguém dar por isso, tinham deixado de existir e no entanto as picadas, no entanto eram tantos e nenhuma picada que se desse por ela. Os cães. Vadios, errantes, ladravam para dentro e bebiam das poças, quando as havia, cobertas pelos mosquitos inexistentes que na língua dos cães ganhavam um sabor picante, eu acho que ganhavam porque via os focinhos franzirem de repente e logo as bocas abertas, as línguas de fora, aquele arfar aflito que alivia ardores de malagueta. As crianças. Vadias, errantes, choravam para dentro e batiam esplanadas ribeirinhas, no fito da esmola turista que tentavam sacar antes que viessem enxotá-las, como a mosquitos que incomodam pessoas que dão por eles.

A Rosa. Era uma dessas crianças, de idade indefinida porque o corpo tão mirrado, por um lado, mas o olhar tão duro, por outro. Usava o cabelo curto, retalhado por tesoura de escola, segura na própria mão. Era teso e de pontas espetadas para o céu, queimado pelo sol, levemente mais claro que o rosto encardido, que enquadrava numa harmonia cromática de perfeição renascentista. A Rosa não pedia esmola nas esplanadas. Escolhera uma da sua preferência e mantinha, há muitos meses, uma assiduidade canina. Chegava um pouco antes de abrirem, ainda o empregado distribuía mesas e cadeiras que elevava sobre o ombro e depositava com estrondo na calçada, quando, sem dizer uma única palavra, a Rosa se aproximava com ar altivo e pose de rapina. De quando em vez, não se lhe adivinhava o critério, escolhia ajudar na arrumação das cadeiras em volta de cada mesa, quatro cadeiras que ajeitava metodicamente, com empenho, rectificando a quadratura, absorvida pelo carácter primordial do resultado daquele trabalho. Depois, seguia o empregado até à copa, agarrava num pacote de sumo e num bolo qualquer e sentava-se a comer. Só falava para responder, frases curtas, não quero leite, pode ser pão com fiambre mas levo o bolo comigo, coisas assim. Quando chegava o primeiro cliente, já a Rosa tinha levado o caminho oposto ao da sua aproximação, de maneira que, no momento em que o cliente destruía a esquadria perfeita entre as quatro cadeiras e a mesa quadrada, já ela virava a esquina que ninguém sabia onde ia dar. No inverno voltava de novo ao fim do dia, à hora do fecho, e recolhia as sobras que houvesse. Disse uma vez que tinha irmãos, só isto, só assim

  • Vou dar isto aos meus irmãos

e quantos seriam, onde viviam, como fariam, ninguém perguntou porque a Rosa só atendia a perguntas necessárias, como no caso de poder ser fiambre em vez de queijo em vez de bolo em vez de nada.

Um dia chegou mais cedo e sentou-se numa das mesas da esplanada, sem ajudar com as cadeiras. Pegou num guardanapo de papel e, com uma caneta de feltro roxa de ponta romba, fez um desenho. Ofereceu-o ao empregado e disse que se ia embora, não tinha fome. O rapaz respondeu-lhe que levasse então uns bolos para os irmãos, a Rosa disse que não tinha irmãos. E a forma insolente como olhou de frente os olhos do outro, a demência de todos os velhos no olhar desgarrado de menina pequena, limpo e profundo, sem medo e sem fé, marcou para sempre o rapaz que servia na esplanada e que nunca mais a viu. A não ser reflectida nas poças de água do bairro onde a procurou, no final desse verão. Encontrou-a desfigurada pelas línguas sedentas dos cães vadios e manchada por nuvens bruxuleantes de mosquitos picantes.

Texto de Isabel Miranda
4 Julho 2016

A vida em poucas palavras

Subia a ladeira a passos largos, firmes e ácidos. As ervas indigentes derretiam por debaixo dos seus pés, para trás as marcas de ferraduras a galope, pela frente a fuga ao chicote do tempo perdido que lhe vergastava o lombo branco, de pele fina de tão gasta. A manhã fresca, indecisa, não deixava pistas de augúrio sobre o dia crescido que haveria de ser mais tarde, se quente se frio, se longo se num sopro, se crucial ou se indiferente. Por agora importava continuar a subir, melhor ainda se o cansaço da ladeira íngreme a esvaziasse de forças para respirar, se caísse de vez e para ali ficasse, adubo orgânico, vital.

No cimo da ladeira havia uma casa. Era baixa e larga, era branca e limpa. Existia há muito tempo, ninguém sabe dizer há quanto, pelo que se assumia que existisse desde a génese dos montes que a cercavam. Os quartos, salas, saletas, cozinhas e banhos estavam dispostos em forma de rectângulo fechado, elevados um piso em relação à base. Davam todos para uma varanda única que seguia a geometria rectangular, sem interrupções. Por sua vez, esta dava para o piso térreo, uma espécie de pátio interior em terra batida, destinado a acolher os animais de criação que, assim dispostos, aqueciam o espaço da casa com os seus corpos e com os seus dejectos. Isto passara-se há muitos anos atrás, mas as paredes de pedra guardavam ainda o odor e o calor, reservados a quem guardasse em si sentidos apurados de poeta.

Na casa vivia um homem. Era velho e com feições de marinheiro, desconcertantes naquele pedaço de terra tão longe do mar, de qualquer frescura, de todos os tons de azul. Na aldeia mais próxima da casa corriam várias fábulas versando a sua vida, na voz de velhos de vidas iguais, que de vidas diferentes sabiam nada. Mas juravam ter sido assim: era filho da última criada que servira na casa, que cuidara dos últimos senhores, sem descendência, até morrerem ambos, que continuara a viver na casa com o rapaz seu filho, ali nascido, até morrer ela também. Nessa altura o rapaz partiu, deixando em aberto largos anos com espaço para todas as fantasias, discorridas por bocas desdentadas, ávidas de aventuras alheias, de outras tantas desgraças que não as suas, de empurrões na modorra das horas reumáticas, tristemente reformadas. Até que um dia deu-se o regresso do rapaz, de barbas brancas e rugas morenas, vindo de longe e nada trazendo para contar. Do que se pôde observar na altura, a casa branca abriu as portadas das janelas, estremunhada, acolheu-o no seu regaço e no pátio, ventre da criação, pariu meia dúzia de galinhas.

Quase a alcançar o cimo da ladeira, ela avistou finalmente a casa. Parou por instantes e o caminho logo duplicou à sua frente – quanto mais perto se chega daquilo que se espera há muito tempo, mais o tempo se decompõe em infinitas fracções cheias de atrito, que atrasam todos os relógios do mundo. Continuou, agora mais devagar, agora mais pó na garganta ou seria medo, medo em pó, talvez solúvel no mar que banhava o pátio, banhava as galinhas, afogava o passado em comum, tão longe dali. Continuou.

O velho abriu a porta e fitou-a em silêncio. Ela murmurou, num fio de voz, demorei o tempo de acreditar que este lugar existia e que tu querias morrer aqui. Sem dizer nada, o velho fechou a porta, lentamente, ela pareceu-lhe ter ouvido o ranger do ferrolho ferrugento na tranca mas não estava certa de ter ouvido, era difícil distinguir o último suspiro quando as galinhas cacarejavam tão alto e as ondas rebentavam com tanto estrondo.

Texto de Isabel Miranda
27 Junho 2016

Um dia atrás de outra noite

Eu disse-te ao telefone: vem cá ter ao final da tarde, faço jantar para nós. Tu chegaste a rescender a vento Norte e a clorofila, logo depois de mim, que ainda exalava o bulício das compras em muitos sacos, acabados de largar no chão. Queria que houvesse jazz a tocar como se fosse noite, queria ter tido tempo de apanhar o cabelo como se fosse tango, de vestir o vestido curto e rodado como se fosse samba, de calçar as sandálias de salto alto como se fosse valsa. Mas tu tinhas pressa em chegar e chegaste cedo demais. Vinhas feliz, trazias uma garrafa de gin na mão e abraçaste-me antes de a pousares na mesa, senti-lhe o gargalo a magoar-me a omoplata mas o teu beijo profundo sorveu-me os ais. Ficaste comigo na cozinha, já os copos servidos, o meu pousado ao lado da tábua de picar legumes e o teu a gelar-me o pescoço, enquanto me abraçavas novamente e eu mantinha os golpes sobre a cebola, rindo em vez de chorar. Percebi que íamos jantar tarde, mas não abreviei em nada os ritos sacros de uma mesa posta para a primeira ceia. Persisti na toalha prevista, nos pratos designados, nos copos eleitos, nas velas exactas. Por fim, já era noite e sempre foi jazz, escolhido ao acaso porque tudo era perfeito naquele momento, fosse o que fosse. Horas depois, extintas as velas e finado o jazz, desnudos na penumbra silente, seria esta a primeira vez em que dormíamos juntos na minha cama.

A primeira noite na cama com colchão moldado às noites em que me basto. Cama de casal com contorno de um corpo só, desenhado a giz como se tivesse havido um crime e o lençol fosse de asfalto, e do corpo retirado urgisse conservar a forma com que marcara o chão na queda.

Blister individual.

Entrelaçamo-nos num pegajar de corpos suados, rastejamos, rolamos um sobre o outro pelo chão da sala. De joelhos, depois gatinhando em fuga fingida, tu a abocanhares-me o tornozelo, a lançares garras aos meus quadris escorregadios, numa predação carinhosa em direcção à porta da sala e ao corredor que conduz ao quarto, que não é um quarto, que é um buraco de coruja numa vida oca, um ermo agreste sem serventia, eu quero estar sozinha. O acesso requer embrenhamento em desencantos escarpados, desilusões cerradas que não vais querer desbravar. As conquistas a duras penas são premissa de outros tempos e de outras glórias, e tu, que te limitaste a seguir seixos e beijos que eu larguei a marcar caminho, nunca chegaste a chegar.

A noite passou. O acordar de manhã contigo ao lado, no meu quarto, o sair de casa sabendo que já tinhas adormecido outra vez, que quando acordasses sozinho e olhasses em volta me havias de ver em toda a parte, devia ter-me feito sentir a paz de saber que te quero comigo. Em vez disso, fez-me voltar atrás. Cancelar todo o dia pela frente e voltar atrás, abrir a porta e deixá-la aberta porque tu vais sair, sim, sinto a urgência de que saias já, tens que sair já. Acordo-te e peço-te que vás sem duche, que vás sem café, que vás sem meias. Já, tem que ser já, sai da minha casa.

A partir de agora, que sabes como chegar e que eu sei que não vais voltar, espero-te para sempre com o jantar pronto, a mesa posta a preceito, o banho tomado de fresco, o cabelo bem apanhado, o vestido curto e rodado, as sandálias de salto alto e Miles Davis no trompete.

Texto de Isabel Miranda
20 Junho 2016

A bola de vidro fosco

Pára de dizer que me conheces! A frase ribombou gritada, arfante, seguiu-se a queda dos braços, que se haviam elevado e que voltavam agora à posição inerte de quem se cansara, de quem acusava o primeiro indício de já não valer a pena explicar, defender, argumentar, sufragar vencido, conciliar, manter o fio. Ainda assim, como sempre acontecia, a conversa desenrolou-se.

Mas sabes o que é? É que eu conheço-te mesmo. Eu sei prever as gargalhadas, por exemplo.

Não é difícil, vê como tudo o que dizes soa a candura infantil. Rio-me das tiradas inteligentes, mordazes, da perspicácia rápida e certeira nas conversas à desgarrada, no seio de irmandades naturalmente fundadas sob a égide de copos cheios, que ficam vazios, que ficam cheios, que ficam vazios. Rio-me sempre que a ironia estrebucha à solta, sempre que a parvoíce se revela imprevisível. Rio-me muito se alguém tropeça e cai. Durante vários anos, atravessando milhares de horas felizes, tu estavas lá, fazias parte, rias comigo, ríamos tantas vezes de ti e de mim. Agora já não nos achamos graça, chegamos a tolher qualquer gargalhada num raio de quinhentos metros à nossa volta, como aqueles aparelhos que cortam o sinal às redes móveis. Por isso agora saio sozinha, ao encontro do riso solto que tu dizes saber prever. A verdade é que a minha gargalhada sempre te incendiou, e saber prevê-la não quer dizer que me conheças melhor do que ao mecanismo básico da tua própria tesão.

Também sei o que te faz chorar.

Isso então… repara, insistes em pressupostos primários, responder-te chega a ser pedagogia. O meu choro é o mesmo que encontras em qualquer personagem de filme, de livro. É igual ao choro da apresentadora do jornal da uma, ao da vizinha que é mãe de quatro, ao do feirante que vende a cinco, ao choro do porteiro que pega às sete, ao do craque que joga às oito, igual ao choro da avó que adormece às dez, igual ao do motorista que conduz o doze, igualzinho ao teu. Mas tu crês que alguém chora por motivos de insondável mistério, alheios a desvarios do hipotálamo ou a desgraças consumadas? Erras mais do que Descartes.

Sei quando vais menstruar, com antecedência de vários dias.

Pois sabes. Sem recurso a calendários, que os dias passam iguais e nós não damos por eles. Isso sempre me fez confusão, que sinais são esses que o meu corpo não acusa mas que tu lês? Sabes sempre, muito antes de eu sentir o que quer que seja. Falas-me em odores indetectáveis, quase cósmicos, falas-me em cores, em alterações do tom de pele que espelho nenhum reflecte. Reparas num suspiro a despropósito, que eu juro que não aconteceu. Dizes que são os temperos que escolho para a comida. Achas que dou mais duas voltas ao enroscar-me na manta enrodilhada do sofá. E acertas na previsão, mês após mês, o que me aborrece profundamente e tu sabes bem que sim.

[Profecia por profecia, escolho já a cigana a motor que trabalhava na feira popular. A troco de poucos trocos, imprimia num papelinho, que depois vomitava para podermos guardar em local secreto, toda uma lista de desgraças improváveis e de graças mais que certas, que chegou a pautar as minhas decisões de criança temerosa. Que isto do destino é coisa com que não se brinca, ainda que a cigana vidente seja a brincar.]

Em que é que estás a pensar? Ficaste tão calada.

Estou a pensar que me conheces a ponto de intuir os meus ciclos menstruais.

E então?

Então, amanhã vou-me embora. Vou cultivar opacidade para outra freguesia.

Texto de Isabel Miranda
13 Junho 2016

Boa vontade

Ele entrou no quarto lúgubre, hesitante. Ela jazia na cama, morta.

Ele sentou-se naquele espacinho de lençol entre a perna dela, dobrada de inerte, e o cotovelo dela, vértice sem vida. Ele pesava uma tonelada de pesar, ela pesaria os tais vinte e um gramas que dizem pesar a alma da gente. Corpos fora nada, deve estar certo.

Ele perseguia o pedido de desculpas, que não tivera voz quando podia. Agora, por cada grama de alma que ali houvesse, havia um milhar de coisas que, não tendo sido ditas, jamais romperiam a placenta das coisas que não nascem. O pedido de desculpas era agora um aborto de palavras.

Fala comigo, fala comigo, o olhar duro a dizer que não quero, em vida, o olhar meigo a dizer que não posso, em morta. Ajeitou-se no sentar, empurrou suavemente o cotovelo, o braço a descair em ângulo oblíquo, olhou-a com aspereza enquanto lhe oferecia as flores que trouxera em jeito de tréguas floridas. Não, minha querida, assim não esperes de mim boa vontade. Olha, até flores te trouxe, sabes bem que não merecias sequer esta visita. Quando gritaste que nunca mais me querias ver, quando bateste a porta com estrondo de eco perene, eu confesso que até sorri, encantado com a perspectiva de te ver regressar, em poucas horas. Não regressaste. Mas não importa, eu vim sem hesitar, aqui me tens, fala comigo. Diz que detestas flores do campo e que as certas seriam rosas, pousa-as com despeito e não procures a jarra onde as deverias pôr, em água, ao pé de ti. Implica com os pólens, invoca as alergias, mas fala, por favor. Agora podes dizer tudo que não riposto, atendo ao estado em que te encontras, sinto pena de ti. Se me perguntares jurarei que não sinto (pergunta, vá, pergunta), continuas altiva e sobranceira, desprezas a minha aflição. Lá em casa também aconteceu assim, sabes bem, puseste-te linda, eu pus-me aflito, saíste de noite e eu supus que voltasses quando fosse já dia. Mas nunca mais amanheceu.

Depois de saíres, fechei os olhos para apurar o olfacto que seguia o trilho do teu perfume em direcção à porta. Frouxo, encolhido, cobarde. Se me tivesse tomado de ímpetos viris, penso agora, talvez sentisses respeito pela minha dor beligerante, corajosa, talvez tivesses voltado para trás com o pedido de desculpas que haveria de apaziguar todos os demónios que viviam connosco, que tu seduzias mas era a mim que se agarravam, cravavam garras, comiam. Eu enlaçar-te-ia, minha querida, estender-te-ia o corpo franzino na nossa cama de sempre, tu havias de sorrir a medo e pedir desculpa, uma palavra entre duas mordidelas lambidas na minha orelha, era só isto e depois era só o resto que a noite nos trouxesse. E depois era só o resto da nossa vida, juntos para todo o sempre, até o dia amanhecer. Quantas horas foram, minha querida? Sim, o resto da nossa vida, depois de saíres naquela noite infinita, quantas horas foram? Não respondes, não falas, não me dizes nada. Deixo-te as flores, já percebi que a nossa história acabou aqui.

Estou zangado contigo e tenho medo. Ensinaste-me que o amor pode morrer atropelado entre o bater raivoso duma porta e a chave a destrancá-la, horas depois, no regresso calculado e mais que certo que não chega a acontecer. Que o amor pode ser assim tão desatento, eu não sabia. Sozinho, de sentidos apurados pela falência do que fui ontem, a partir de hoje conto apenas comigo. Para olhar para os dois lados, para todos os lados, uma e outra vez, antes de atravessar.

Mas podias ao menos dizer alguma coisa, mesmo que não queiras pedir desculpa. Pronto, está bem, descansa que não insisto mais. Deixo-te em paz. Minha querida.

Texto de Isabel Miranda
6 Maio 2016

Contrafacção

conta

Não sinto nada por ti
Meu amor

Amor contrafeito
Feito a contragosto
Gosto que me comas
Entre comas
Gosto
Entrecome
me

Descarna
me
O sexo em bruto
Deixa
me
Só a pele

Tatuagens invisíveis
Ao olho que está nu
Como tu
De falo lapidado
Em arestas cortantes
Hemorrágicas

Cobre
me
Vem
me
Deixa
me

Ir

Texto de Isabel Miranda
30 Maio 2016

Destinos

Quando a conheci, ela estava há dezassete dias internada no hospital. Eu vinha das férias que tiro sempre, como quem cumpre uma missão, na primeira quinzena de todos os Julhos. A mesma agência de viagens, as mesmas malas, a mesma mulher e os mesmos filhos. Diferem os destinos, embora coincidam nas algemas “tudo incluído” que nos aferram aos pulsos logo à chegada – afinal os destinos são sempre o mesmo, também. São sempre o resort sem geografia, criminoso profissional que limpa meticulosamente todos os indícios de cultura e de povo do país onde aterrámos. Que tipo de gente somos nós, os que deambulam entre a vasta oferta de restaurantes temáticos do resort, hoje jantamos no italiano, amanhã naquele das costeletas de boi com barbecue sauce e nem pensar em voltar para casa sem experimentar o da cozinha internacional, muito bem cotado no TripAdvisor, esta pulseira verde-alface é mesmo uma jóia, belíssimo buffet. Estamos no México, não é? Sim, acho que sim, mas deixa-me cá confirmar na papelada da agência. Os miúdos? Não te preocupes, estão numa aula de hip-hop à beira da piscina número sete.

Quando a conheci, fazia a ronda da manhã pela unidade de internamento. Tinha estado de serviço na urgência durante o turno da noite, o cansaço mecanizava-me o gesto absorto de folhear processos clínicos, na esperança de não haver altas para dar nem baixas a registar. Entrei na última enfermaria, peguei no dela, nada ali me deteria mais que um minuto aos pés da cama – mas foram os pés dela que me fizeram deter. Estava destapada, numa exposição de magreza baça, pardacenta, que de repente explodia em vermelho-sangue, dez explosões de vermelho-sangue, num verniz impecavelmente aplicado que lhe transformava os dedos dos pés em velas incandescentes. Senti calor. Percorri-lhe o corpo com os olhos, em contramão, até chegar ao rosto jovem e bonito de lábios ressequidos que já não faziam perguntas, pois que ao fim de muitos dias sem respostas os lábios também desistem, o corpo inteiro também desiste. Mas não os pés. Não os pés dela.

Quando a conheci, sentei-me na cama ao lado e li todo o processo como se a febre fosse minha, e era. Fiquei a saber que nenhum antibiótico fizera efeito e que nenhuma das análises decifrara qualquer patologia, no entanto a febre. Alta, persistente, corrosiva, levava-lhe o apetite e deixava-lhe arrepios gelados, depois calores suados, depois arrepios outra vez, depois os ossos a aparecerem e os olhos a esmorecerem, depois a palidez que realçava o verniz vermelho nos pés nus. Depois a enfermeira que entrara sem que eu desse conta, a explicar-me em surdina que ela havia regressado de uma viagem ao Nepal, onde passara duas semanas de férias sozinha, dormindo em abrigos ao longo das escarpas dos Himalaias, comendo em malgas comunitárias à mesa de aldeões castanhos. Que haveria de ser uma bactéria, daquelas que vivem lá longe, bactérias resistentes porque evoluíram a passar necessidades, que enfrentam as modernices farmacêuticas com um esporo às costas, e agora, doutor, já não sabemos o que fazer para salvar a rapariga.

Quando a conheci, percebi que eu, doutor, tinha que me salvar a mim próprio, as férias faziam-me adoecer sem febres que me alertassem. Desta vez, tal como ela, cheguei e fui para o hospital. Ela acabou por recuperar, houve um antibiótico novo que lhe devolveu a vida e o viço. Eu também recuperei, houve um verniz vermelho que me devolveu a garra e o gosto. Que me trouxe a febre de uma mulher apaixonante, apaixonada pelo mundo, que me contagiou para sempre com a vontade de arriscar doenças remotas e bactérias nativas. Amanhã partimos os dois, mochilas apontadas a uma aldeia no Vietname e repastos de insectos fritos no horizonte.

Texto de Isabel Miranda
23 Maio 2016

 

A fotografia

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(ELE A FALAR)
-Olha em frente, não, olha em viés, mais para baixo, mais para baixo… assim, aguenta a pose, estás magnífica, my dear! Agora o queixo, tens uma sombra no ombro, levanta-o um pouco… isso, isso, perfeito! Falta pouco, está a correr bem, muito bem. Espera, não mexe, vou ajeitar-te o cabelo, tens que parecer natural… assim, assim! Agora tenta olhar como quem olha o nada, sabes como é? Não, não foi isso que te pedi. Olhos de virgem mal resolvida não favorecem o shot, então, estavas a ir tão bem! Olha para o vazio, experimenta imaginar-te no cais de chegada de um comboio que tu esperas e que nunca mais se vislumbra, sabes como é? Mas que merda, eu falei-te de ansiedade, falei?! Não ponhas expectativa nesse olhar, deixa-o vazio! Pronto, mantém o comboio na cabeça mas não lhe ponhas passageiros dentro, não é altura para enredos de Tolstoi, mas que raio, estás difícil, hoje. Queres parar um pouco? Cinco minutos para um cigarro e depois, fazes favor, voltas vazia.

(ELE A PENSAR)
Daqui de onde estou, três passos atrás, ela ainda me parece mais bonita. Quando se alhear do que lhe peço, hei-de fazer a foto que não serve para nenhuma revista mas que saiu perfeita, aquela que é só para mim, que vou guardar entre as páginas do Cartier-Bresson que tem honras de bíblia lá em casa. Pode ser que um dia a convide para um copo num bar e ela aceda em jantar também, talvez que esse jantar de temperos certos se prolongue até só restarem a nossa excitação efervescente e a modorra lisa de um empregado com sono. Pode ser que ela dê por si a precisar de mais um copo. Talvez lho possa servir eu próprio, enquanto ela se recosta no sofá da minha sala. Imagino-me de costas, às voltas com o gelo, quantas pedras disse que queria?, o whisky a promover confidências infantis, risinhos de candura obscena, ela escorrega mais um pouco, como quem cede à gravidade da força que atrai os corpos para cópulas no chão. E eu largo a garrafa de bourbon, já é o terceiro que lhe sirvo, já não há mais gelo – agora que sei quantas pedras quereria se ainda houvesse. Digo-lhe sentir que chegou o momento por que esperei a noite inteira, ela ri num despudor insinuante, lança-me mãos sôfregas, equivocadas, o que queria oferecer-lhe não está ao alcance das suas mãos. Está guardado entre as páginas do livro que tem honras de bíblia cá em casa.

(ELA A PENSAR)
Hoje não sei se consigo fazer isto. Realmente parece-me que não, a cabeça rodopia-me entre comboios imaginários que não consigo ver chegar vazios, a uma plataforma que não sei fingir que é cenário meu. Ajeitam-me o cabelo para ficar igual ao que já estava, mais madeixa menos onda, o rimel arde e faz os olhos chorarem de irritação, quando quem está a chorar de irritação sou toda eu menos os olhos. Manipulam o meu cabelo e o meu queixo e o meu ombro, manipulam as sombras que projecto e até o comboio que não vejo. Ah, mas se o visse, se o esperasse, fiquem sabendo, não viria vazio. Traria um homem moreno, a embaciar o vidro da janela com o bafo da saudade ofegante, a espalmar as mãos suadas naquele vidro que não desce, a querer sair em andamento quando o meu sorriso preenchesse as marcas transparentes dos cinco dedos abertos. Quando corresse para mim e me deglutisse num abraço carnívoro, não haveria madeixa de cabelo ou traço de maquilhagem que se pudessem fotografar. Já percebi, estamos aqui com um problema técnico: a minha imaginação carece de fotogenia.

(ELA A FALAR)
-Acabou a sessão, nem mais um clic. Estou farta de ti e dessa máquina de fazer colonoscopias. Trata do resto com a minha agência. Depois devolvo o vestido.

Texto de Isabel Miranda
16 Maio 2016

Fibra de sábado à noite

O ambiente era denso e nebuloso, quase mastigável. Eu não tinha jantado mas sentia-me empanturrada, incapaz de digerir aquela noite em avançado estado de composição. Talvez por continuar a beber gins em vez da fernet branca, em copo de shot, medicinal, que nos liquefaz por dentro e devolve espaço tomado pelo fastio. Estava sozinha, cheguei sozinha a território de troupes e de trips, ousadia de quem já não se importa, perfeitamente capaz de varar uma noite de sábado sem outra companhia que não o copo e o cigarro, ambos muito em plural. Sentei-me num dos bancos altos ao longo do balcão, ainda vazios porque era cedo, eram horas de encher as mesas de restaurante por essa cidade fora, enchê-las de corpos com apetites vorazes pelos outros corpos, uns e outros nutridos, de bocas tão grandes.

Eu não tinha planos para jantar. A perspectiva da mesa-para-um, normalmente acossada pelas mesas para dois e pelas mesas para muitos que formam cercos em volta, causa-me pânico de guerrilha. A única vez em que me atrevi, afoita, de peito aberto num decote profundo escavado em trincheira, no vestido preto que repito em noites de perigo, desafiando as vozes de comando que exigem camuflado, nessa vez em que me atrevi acabei tão derrotada que o vestido preto se fez em pele ardida e nunca mais o vesti. O primeiro golpe aconteceu quando me perguntaram se esperava alguém, e eu que não, o lugar posto em frente removido sem piedade, a mesinha pequena era afinal uma planície sem fim à vista, não havia esconderijos, não havia protecção, não vislumbrava guarida. Depois o golpe seguinte: chegava mais alguém para se juntar à mesa de oito ali ao lado, saudações ruidosas, gargalhadas cúmplices, regozijos ébrios – e o tiro de misericórdia. Posso levar esta cadeira, não está ocupada, pois não? Não. Quer dizer, sim, pode levar a cadeira. Sobram-me lugares vazios e é sábado à noite, sobra o estômago vazio mas não creio que seja fome, pago as imperiais que fui bebendo, invento um contratempo e fujo, fujo, fujo.

De maneira que, já veterana, adoptei a estratégia de chegar ao balcão do bar pela hora de anoitecer, pedir um gin tónico como quem aguça o apetite para um jantar exuberante numa mesa para oito, já lá vou ter, pedir mais um gin como quem aguça a lascívia para um jantar sensual numa mesa para dois, vem-me buscar. Pedir, por fim, mais um gin – como quem beberá gins sozinha pela noite dentro, sem jantar.

Os restaurantes vão abrindo comportas que trazem o fluxo das gentes felizes, detritos sólidos, sapos de papos cheios. O meu balcão enche-se de copos a sair, as bandejas rodopiam como morcegos negros a sobrevoar cabeças, as mesas baixas parecem flores com pétalas de pernas abertas que torneiam bancos cilíndricos, as saias sobem, o fumo sobe, a música trepa pelas ancas e sacode os bustos, tudo a toque de graves (pro)fundos como gargantas. Eu continuo sozinha, embora a custo de enxotar homens acompanhados por outras mulheres, por outros homens, eu acho que mais sozinhos do que eu. Deixo-me estar, renovo o copo, fumo o cigarro que um isqueiro a exalar testosterona me acendeu, a música orgástica faz-me fechar os olhos só por um instante e toda eu sou convite encriptado, os olhos abertos que me rodeiam estão atentos mas não decifram.

Não quero acabar a noite na tua cama, não quero que me leves a minha casa, não quero que me perguntes o que faz uma mulher bonita aqui sozinha, não quero que me pagues a próxima bebida, não quero que aproximes o teu hálito picante do meu ouvido com fome, não quero dizer-te se costumo parar aqui, não quero sentir a tua coxa de ganga a roçar-me a coxa nua. Eu só quero saber se me convidas para jantar contigo no sábado que vem.

Texto de Isabel Miranda
9 Maio 2016

Em exposição

Preciso de banho como se precisa de morfina quando se precisa de morfina.

Estou fechado no atelier há vários dias, telas e tintas a corroerem-me os sentidos já no limite do discernimento. Sinto os ossos fracos, as carnes mirradas, cada pincelada é um túnel de vácuo que me suga o sangue. As obras que me rodeiam são feitas de plasma meu, carregadas de plaquetas minhas, cheias dos meus glóbulos. Se as mandasse analisar em laboratório, colhidas em jejum, haveriam de acusar o excesso de anticorpos que produzem para se defenderem de mim. Principalmente quando se aproxima uma exposição, esse processo infeccioso que me debilita e corrompe, que eu combato com muito álcool e muitas panaceias enroladas em mortalhas. Olho as telas e sinto o alastrar da ameaça auto-imune, todas me encaram em desafio e escarnecem da arte que é ferida aberta, tão dada a escarafunchar, tão avessa a criar crosta, tão purulenta. Vou expor as minhas escaras e é isso que me atormenta – e é isso que alimenta as galerias-hospital. Por isso me querem, quanto mais moribundo melhor artista, o meu sangue é comissão líquida das vendas que eles fazem e que eu preciso muito que façam, para poder viver mais seis meses de cada vez. Combinei com o senhorio, com a mercearia, com todo o comércio do bairro, pagamentos ao semestre. Nunca falhei nenhum. Chego lívido, entrego-lhes notas feitas com a própria pele que eles tomam como dinheiro bom, dinheiro que está a morrer de septicémia mas que eles não sabem, que agradecem sem fazer ideia de que a única atitude nobre a tomar seria: desculpe, mas não posso aceitar este pagamento orgânico. É por demais da conta e não existe troco que aqui valha.

A exposição inaugura amanhã, os quadros levaram-nos e relaxam nas paredes, esquecidos de mim. Como sempre, vou chegar à galeria algumas horas antes dos que foram convidados, com as tintas e com os pincéis, porque há correcções a fazer. Num tom aqui, num traço ali, o galerista atormentado com a minha obsessão mas eu nem o vejo, se o visse talvez lhe corrigisse um tom aqui, um traço ali, o que eu queria mesmo era corrigir todas as pessoas que hão-de chegar, um borrão preto em cada olho para que não pudessem ver. Não olhem para mim, não quero que me saibam, que me avaliem, mas não é para si que olham, é para a sua obra, e o que é a minha obra senão entranhas minhas, comoções, suicídios, febres, fraquezas, noites de criança com medo do escuro, noites de adulto a comprovar que o escuro é para temer, o que é a minha obra senão postas de sangue postas à venda?

Distinguir a criação do criador, eis um equívoco pueril, que pode até ser confundido com arrogância. Por muito que se estude arte ou literatura, enquadramentos históricos e biografias dos autores, técnicas aplicadas e motivações subjacentes, garanto que não se encontra uma linha de ficção em nenhuma obra de ficção, uma única composição musical que não seja um desabafo, um quadro que não seja um auto-retrato ou uma fotografia que não revele um ângulo sensível. Quando eu ando de pincéis em punho, a retocar versões acabadas daquilo que fui quando as pintei, não faço mais do que tentar aproximar aquele conjunto de confissões ao que sinto agora, neste momento, no último momento de intimidade que me resta. Depois volto para casa, meia hora antes da hora impressa nos convites.

Quando a exposição acaba, quando toda a gente que por lá passou voltou já às suas próprias feridas, eu agarro-me à esperança de que me tenham visto mas não apreendido. É esta frase, dita por Johan Cruyff, que me resgata: “Se eu quisesse que percebessem, tinha explicado as coisas de forma mais clara”.

Texto de Isabel Miranda
2 Maio 2016

Carta a um Amigo Meu

Nota: esta carta não foi enviada ao seu destinatário. Não sei se ele será leitor da Preguiça Magazine – se for, se ler, a carta estará entregue.

Querido Amigo Meu,

Sei que estás bem, temo-nos encontrado por aí. Mas não tem passado disso mesmo, como sabes, cruzamentos fortuitos com pressa de parte a parte, urgência de prosseguir afazeres prementes chamados vida. Por isso te escrevo, porque precisava de tempo para me sentar a dizer-te coisas importantes, e cá está ele: o tempo. E eu sentada e as coisas importantes. Faltas tu mas, não sei por que raio, nem sequer sinto essa falta. Cuido que me lerás, caso o destino calhe de compasso em punho, espete algures aqui no meio e aceite fechar o círculo.

Sabes, acabei agora mesmo de ler um livro. Foi uma compra recente, de impulso, porque tinha combinado um encontro de trabalho numa livraria, com uma pessoa que não conhecia pessoalmente. Entrei sem saber como se daria o reconhecimento, havia bastante gente a folhear livros, a espraiar-se por entre prateleiras temáticas e ilhas de promoções da semana, a fazer fila na caixa. Demorou exactamente, cronometrados, dois segundos até a pessoa que eu não conhecia se virar para mim à minha entrada, abrindo um sorriso cauteloso a que correspondi por instinto. Sim, sou eu. Estava combinado que dali sairíamos para o escritório, que era perto mas suficientemente camuflado para que eu tivesse tido dificuldade em descobri-lo sozinha. Aquele encontro prévio facilitou mais do que a questão prática, mas isso percebi depois. A pessoa tinha um livro na mão, estava na fila para pagar e, à laia de alívio do constrangimento natural, disse-me: desculpe, é só um bocadinho – estou só a comprar um livro de filosofia para a impressionar. Ri-me, desarmada pela tirada espirituosa quando o cronómetro não tinha marcado ainda os dez segundos. Afastei-me um pouco, misturei-me com os folheadores de livros em profusão e decidi fazer também uma compra. Sabia o que queria, sabia que não iria encontrá-lo exposto por não ser nem novidade, nem clássico. Era um título daqueles que um dia guardámos na mente, já nem sabemos porquê, mas que mantivemos a acumular pó durante muito tempo. Um sopro no pó e legível outra vez. Sim, é agora que me salta do hipocampo para as mãos. Aproximei-me do balcão, quem me aguardava perguntou-me: vamos? e agora era a minha vez: só um bocadinho. Pedi o livro, pesquisa na base de dados, que sim, que havia, mas que estava no armazém. Pode aguardar? Achei que talvez pudesse, o leitor de grandes filósofos aquiesceu com cortesia, enquanto consultava no relógio o atraso somado que levávamos. Havia gente à nossa espera. Mas, naquele momento, eu não sairia dali sem concluir a compra, nem que [inserir o cliché preferido].

Depois aconteceu uma coisa estranha. A senhora da livraria perguntou, mecanicamente, é para oferecer? e eu respondi, mecanicamente, é. Mais embrulho, mais atraso, pensei confusa que estaria a adiar a reunião que me intimidava mas percebi que estava a prolongar o tempo de livraria. O líquido amniótico morno.

Querido Amigo Meu, com tudo isto a carta já vai tão longa e nada te disse ainda das coisas importantes, volto a não ter tempo. Na verdade, essas coisas importantes estão todas no livro que levei nesse dia e que agora anda comigo, não só dentro de mim mas embrulhado outra vez, dentro de um saco de papel. Afinal sempre era para oferecer. A ti, logo que te encontre fortuitamente, cheios de pressa os dois, a cumprir a vida que nunca cumpre o dever de ser feliz.

Até lá, com amor,

Isabel

Texto de Isabel Miranda
25 Abril 2016

Sinais de fumo

Numa altura da minha vida em que me agoniava encarar os próprios pensamentos, passei muitas horas à janela. Era uma fuga rápida, cinco passos de fuga desde o sofá da sala. E depois, a janela. Oferecia-me de bandeja todas as histórias e todos os tempos alheios que eu conseguisse imaginar, atribuindo-os a cada um dos desconhecidos que passavam lá em baixo, num recreio que me distraía, descansava e fazia bem. Há muito que me habituara a esse lazer terapêutico. Quando vivia na cidade grande aplicava-o, exaustivamente, aos companheiros de viagem no autocarro da manhã, repetia-o no autocarro de regresso, estendia-o em onda varrida que apanhava, principalmente, os desconhecidos que me apareciam com uma cadência certa. Por exemplo, os mendigos que estavam nos mesmos sítios, às mesmas horas, no percurso que fazia a pé até à paragem do autocarro. Imaginava, para cada um, a história que se escondia debaixo dos andrajos e do surro, numa espécie de leitura somática de expressões de rosto, de caíres de corpo. Os olhos, claro. E a postura, o grau de perpendicularidade da coluna vertebral.

Um dia, parei no passeio a olhar para uma montra. Acendi um cigarro. Aproximou-se um rapaz, calculo que não mais de trinta anos, num estado impressionante de sujidade que compunha um pantone estranhíssimo de amarelos, verdes, roxos, castanhos, laranjas e cinzas. Declinações de tom a roçar o surreal, que me provocaram um recuo, mais salto do que passo, e a percepção confusa de que nunca o tinha visto por ali, não integrava a órbita habitual dos que já tinham história escrita por mim.

Falou de imediato, disse-me

Jovem e distinta senhora, sentidas desculpas por ter vindo incomodá-la. A minha abordagem, decerto inoportuna, contudo sem qualquer perigosidade, tem como único objectivo pedir-lhe o favor de um cigarro, se acaso esse gesto lhe for possível e, principalmente, se for um gesto de sua inteira vontade.

(estas foram as palavras exactas que usou, gravei-as para sempre na memória)

Voltei a pegar no maço, estendi-lho e disse-lhe: tire dois. Olhou para mim, o meu maço de cigarros aberto na mão, e respondeu

Já que é tão gentil, vou tirar três.

Agarrou em cinco cigarros e puxou-os para fora. Eu, em estado da mais absoluta rendição à personagem, sorri de corpo inteiro e disse-lhe para ficar com o maço. Fez um gesto parecido com uma vénia contida, educada, reverente, virou-me as costas e afastou-se até desaparecer para sempre da minha vida. Como se isso fosse possível, olha o disparate, eu casei-me com ele no instante daquela vénia. Incorporei-o como uma experiência extraordinária que nos altera a percepção do que somos, do que significa ser. Apaixonei-me pelo mistério em forma de homem e nunca mais o esqueci.

Anos mais tarde, à janela onde agora passava as horas, fumava outra vez. Atirei a beata, ainda acesa, num gesto distraído que aterrou na lapela de um desconhecido que passava. Olhou para cima, entre surpreso e irritado, desferindo pragas que se enredavam nos meus balbucios de desculpa. Fechei a janela e dei alguns passos para trás, logo interrompidos por toques insistentes na campainha. Resolvi abrir a porta e acatar o acesso de ira que, de facto, compreendia, enquanto planeava um mea culpa que pusesse fim àquilo tudo. Nem tive tempo de emitir o primeiro som. O desconhecido da lapela chamuscada olhou para mim e disse, calmamente,

Arranja-me um cigarro?

Casei-me com ele. Esperamos agora o primeiro filho. De modo que, a todos os desconhecidos que me lêem e que podem vir a cruzar-se comigo um dia, quero deixar um pungente e sentido apelo: por favor, comprem o vosso próprio tabaco.

Texto de Isabel Miranda
18 Abril 2016

Delírios de Morfeu

Esta noite sonhei que conduzia um carro sem espelhos retrovisores. Nenhum, nem por dentro nem por fora.

É um daqueles sonhos que se prestam a divãs caríssimos, mínimo dez sessões, é o pacote-base, mas esse costumamos vender a quem sonha com casas sem portas e sem janelas, sonhos disruptivos de grau um. Repare, isto não é um diagnóstico, mas suspeito que vá necessitar de um pacote de pacotes. Também temos.

Opto por autovasculhar os meandros da minha sanidade conscientemente precária, aposto-me numa gincana que contorna sucessivas metáforas, todas possíveis e nenhuma que me convenha. Faço um esforço por recordar mais detalhes do sonho, era de dia ou de noite?, estava assustada ou espevitada de adrenalina?, acelerei a fundo ou pretendi parar?. Muito a custo, num jogo de toca-e-foge, aparecem-me sensações que não trazem respostas, antes adensam a turbidez do que resiste às premissas da lógica regular. Lembrei-me, por exemplo, da luz. A luz das extremidades, alvorada e anoitecer, não se repete em mais nenhuma altura do dia, por isso sei que a viagem marcava um início ou um fim. Horas depois, umas imagens confusas trazem-me os momentos em que, no sonho, eu me preparava para entrar no carro. Estava na rua, braços abertos, olhos fechados, cabeça para trás, em pose de painel solar. Quando os abri vi tudo a piscar, o efeito psicadélico atordoou-me, não sabia onde estava mas sentia um frémito de natureza selvagem à minha volta. E pronto, do sonho é tudo o que me resta.

Hoje é o dia a seguir ao dia que seguiu a noite em que sonhei. Esta noite dormi um sono benzodiazepínico, isento de delírios de Morfeu. Mas o carro sem espelhos retrovisores encetou uma verdadeira perseguição de mim acordada, não consigo fugir-lhe e, por fim, recordei que acabou por me matar. Não sei se houve acidente. Só sei que morri e que, de tão morta, chorei a falta que me fazia. Aqui jaz a que não pôde olhar para trás. Belo epitáfio, mesmo a pedir metáfora, mas não. Desengane-se quem achar que, a qualquer momento, à laia de rendição, me desenfreio na tal interpretação metafórica que os sonhos pedem e que o meu, em crescendo de teimosia, exige que eu enfrente. Dormir é zona delimitada de tréguas com os meus desgostos, é acordo unilateral de paz. Recuso dar resposta a estes ataques cifrados, cujos estilhaços infames atormentam as horas em que estou, fatalmente, acordada.

“Há quem durma tão cansado, nem um beijo os estremece
De manhã acordarão para o que não lhes apetece”

Talvez que um dia destes, ao amanhecer, saia para a rua antes até de me vestir, feche os olhos, abra os braços ao sol, atire a cabeça para trás no impulso de quem esvazia um pacote onde só restam migalhas, entre sem hesitar no carro que está à porta e acelere a fundo por qualquer estrada que me pareça extravasar os mapas conhecidos. Sem olhar uma única vez para trás, apesar dos espelhos retrovisores todos no sítio. Metáforas à parte.

Agora, se vos apetecer, ouçam “Lá em Baixo”, versão dos Clã aqui. Poema de Sérgio Godinho de onde saíram os dois versos acima plasmados.

Texto de Isabel Miranda
11 Abril 2016

Rogai por nós, pecadores

Eu chamo-me Amélia Amália. Tenho seis irmãs: a Dulce Maria, a Rosa Maria, a Lina Maria, a Rita Maria, a Graça Maria e a Ana Maria. Somos filhas de uma mãe que escolhia os nomes e de um pai que escolhia jogar póquer com os amigos.

Por todo o lado, fora de portas, habituei-me aos diminutivos que me cabiam todos a mim, visto as irmãs serem fáceis de chamar, e que me lembravam sempre línguas entarameladas às voltas com a pronúncia de um idioma mal dominado: méli, máli, mélita, málita, mélinha, málinha. Em casa chamavam-me Amélia Amália, assim, por inteiro, o que me fazia encarar com estranheza os sons sem sentido a que esperavam que respondesse na rua. E na escola, mais tarde, e na cama, muito depois.

A minha mãe era uma mulher serena, era uma pincelada comprida que arrasta a tinta sem marcar demasiado os tons na tela, uma presença difusa mas constante, sem grumos nem revezes de mão repentinos. Junto dela o tempo passava devagar, dividia cada segundo em dois meios-segundos e, se não me entendem, não tiveram a ventura de uma mãe como a minha.

Era muito católica e suponho que avessa a condicionar Deus nos seus ímpetos de fertilização terrena, pelo que poderiam ter vindo mais alguns filhos, se Deus assim houvesse designado. Ou se o meu pai não tivesse tanta sorte ao jogo. A condição de ganhador inveterado financiava as muitas, cada vez mais horas que dedicava ao póquer de trazer por casa. Casa alheia, bem entendido, que na nossa não cabiam vícios e acabou por não caber sequer o pai, visto que duas das minhas irmãs dormiam na cama da minha mãe, outras quatro em duas camas no quartinho do fundo e eu num divã da sala. Por estranho que pareça, eram encaixes perfeitos. Sentíamo-nos pertença do espaço acanhado e da família densa como a copa de uma oliveira velha, com uma ramificação comprida que terminava na casa onde o meu pai estaria a apostar a alma catarrenta.

Todos os domingos, os meus pais iam juntos à missa das dez. Íamos todos, rogai por nós que pecamos, e eu perscrutava os rostos alinhados em toda a extensão do banco de igreja que ocupávamos por inteiro, certa de não haver qualquer pecado a declarar. Mexia os lábios como todos faziam mas, ao invés dos pedidos de misericórdia e louvores consignados, mastigava entre dentes a tabuada acabada de aprender. Eis o verdadeiro milagre da multiplicação, dos peixes e do resto.

Um dia, já crescida, já o pai morto, já a mãe velha, perguntei-lhe: porque é que eu não sou Maria?

Ajustando o xaile de lã ao pescoço, com a mesma serenidade de uma vida inteira, a minha mãe disse-me:
Eu sempre tive uma grande devoção por Nossa Senhora Maria Mãe de Deus. Em sua honra, jurei aos pés do sacrário, ainda solteira, que às filhas que me desse daria eu o seu santo nome. Nasceram seis meninas e Marias todas elas. Depois outra menina, tu. Quando nasceste, há mais de um ano que só estava com o meu marido durante a missa das dez, ao domingo. Por essa altura ofereceram-me um disco de fados, que choravam todas as orações sem lugar nas missas de dia nenhum, pecados cantados sem vontade de remissão, tão bonitos.

Tu devias chamar-te Amélia Maria. Eu escolhi que não.

Texto de Isabel Miranda
4 Abril 2016

Diz-me o que vês

Tenho um filho estrábico, a quem trato por zarolho – as pessoas não gostam, acham mal. Na escala do mal achar, situam-me no grau “ai credo”, que julgo ser imediatamente anterior ao grau de deixarem de se dar connosco.

O meu filho nasceu zarolho. Enquanto crescia zarolho, lembro-me de pensar que observava o mundo à sua volta em diversas perspectivas simultâneas, uma espécie de esquizofrenia funcional que lhe abria os olhos para tudo ao mesmo tempo. As pessoas da família, que todas juntas não passam de uma irmã da minha mãe que morreu quando eu nasci, juntam-se à vizinhança num coro calado de recriminações. Eu agradeço esse silêncio constrangido e não sinto pena nenhuma delas, quando se atrapalham nos bilu-bilu à criança que dispara os olhos em todas as direcções. Volto para casa com um bebé sem mácula de batom ou pós de cores, que infância saudável e impoluta te auguro eu, meu zarolho mais lindo da vida da sua mãe.

É verdade que, para proteger o meu vesgo filho, enfrentei um inimigo reiterado e astuto, formado em pediatria, que apregoava um colega, parece que especialista em pôr o mundo a olhar para a frente, que eu tinha que consultar. A visão periférica do meu filho carecia correcção urgente, se ele crescesse mais um bocadinho, se os seus olhos maiores, talvez que já nenhuma ajuda fosse possível e agora vamos lá falar de culpas – arrisca o peso infinito da sua? Ouço o tom grave e bispal e levanto os olhos para olhar os dele, direito com direito e esquerdo com esquerdo, como compete. Viro-me depois para o meu filho, tudo baralhado naquela expressão única de múltiplas respostas, sem sombra de interrogação.

De volta a casa, rendição consumada aos pés da douta inquisição mas ainda estertores de resistência antes do suspiro final, suspirei e marquei consulta. Chegou o dia, vamos lá meu amor zarolho, e fomos. Ficámos a saber que o correcto seria eu chamar-te “meu-amor-com-os-eixos-visuais-desalinhados-e-consequente-desvio-da-visão-segundo-um-eixo-torsional” e que tudo se iria resolver.

O meu filho usa agora uns óculos redondos, com uma borracha agarrada por ventosa a uma das lentes, de momento é a esquerda, que transfere o mundo inteiro para o hemisfério direito do seu olhar. A borracha há-de trocar de lente e insistir na cegueira alternada que foi prescrita. É um processo violento, em que a minha conivência é louvada enquanto redentora da negligência anterior. Agora vejo, há que recorrer à força para disciplinar pontos de vista, as perspectivas educam-se com castigos corporais. A plasticidade da infância facilita tudo, compreendo a urgência em actuar antes que os olhos cresçam e, com eles, cresçam também as amplitudes dos hemisférios. A borracha com ventosa há-de ser pala perene, incorporada nos olhos que já são grandes, das pessoas que julgam outras ideias e outros quereres com ganas de correcção, de reposição do que está, evidentemente, mais alinhado com o seu eixo torsional de opinião.

Ah, meu filho zarolho. Se algum dia quiseres falar de culpa, vou olhar-te nos olhos obedientes e dizer-te que é toda minha.

Texto de Isabel Miranda
28 Março 2016

As andorinhas chegam de vassoura

Moro, já vai para três anos, numa página de banda desenhada de três tiras, três vinhetas em cada uma. Conheço quem habita as vinhetas que me estão acima (dois lanços de seis degraus), que me estão abaixo (outros dois como os primeiros) e que me estão defronte (um patamar, pequeno).

Vou contar-vos quem são, sem localizar as suas vidas escadas acima ou escadas abaixo ou patamar de permeio, pois que a distribuição se deu de forma aleatória e aleatoriamente habitam paredes iguais, mais pendureza menos buraco no estuque.

Há um casal de casados na casa dos trinta, dois filhos que confiam diariamente à escola primária do bairro. Há um casal de namorados de ar saudável, que manobram bandejas numa esplanada fora de mão. Há duas irmãs velhotas, galhofeiras, muito redondas e pequenas, que fazem lembrar berlindes dos maiores, coloridos e luzidios. Há uma mãe com um filho adolescente, acho que estuda, aliás, sei que estuda porque está em idade disso e usa mochila num dos ombros, de esguelha, suja e mirrada de conteúdo. Há ainda uma mãe viúva de ar cansado, que faz sopa para a filha levar em caixa de plástico, caixa numa mão e bebé na outra, porta segura com o pé e empurrada com o ombro, adeus mãe, amanhã talvez não venha que isto dá para dois dias. Há um contabilista sem emprego. Usa um ar assustado em vez de preocupado que me intriga, porque sustos são para agora e preocupações perduram – ele traz em si um susto que perdura e confunde quem espera que ande preocupado. Há também uma actriz amadora que arranjou um biscate a fazer leituras dos contadores da água, decora as falas entre números que assenta nuns papéis, o papel na peça entre os papéis dos números e nada destoa ali, murmúrios de uma ladainha que soa a metafísica. Por fim, há uma placa “arrenda-se” debruçada na janela, um dia há-de ser lixo mas hoje é título de todas as histórias ainda por contar.

Das que já se contam: a mulher que habita a primeira vinheta faz, todos os anos, uma limpeza frenética e meticulosa à sua casa. Tira todos os cortinados de todas as janelas, barrela com eles. Tira todas as pendurezas de todas as paredes, escova de cerdas moles e balde de água ensaboada, esfrega do chão ao tecto cada centímetro branco, numa perseguição da alvura perdida que afinal esteve sempre lá. Os tapetes são todos batidos, aspirados, passados a pente fino. Dos armários da cozinha saltam todos os tachos e todas as loiças, dando espaço ao pano amarelo que os lamberá com saliva de amoníaco. A orgia estende-se às gavetas, ao forno, ao frigorífico. Os colchões de todas as camas invadem o patamar comum, na vertical, amparados pelos azulejos, parecem enfrentar um pelotão de fuzilamento. Ao invés de tiros são espancados com um apetrecho parecido com uma pá de matar moscas, mas com o quádruplo do tamanho e feita de vime. As persianas são passadas com uma escova de dentes velha, que desata num vaivém alucinante ranhura a ranhura, por dentro e por fora, artes de malabarismo a tender para tendinites. O aspirador é vedeta neste grandioso espectáculo. Vai actuando a espaços, a nona sinfonia de Hoover invade-nos os ouvidos e há-de acompanhar-nos pelo dia afora, até ao cair do pano. Do pó.
Tudo isto se arrasta ao longo de uma semana útil, mais ou menos. A mulher tirou férias no emprego, mas só descansa ao sétimo dia. E é assim que eu sei que chegou a Primavera.

Texto de Isabel Miranda
21 Março 2016