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Texto
Paulo Sellmayer

29 Março 2016

Estou na Alemanha, mais propriamente em Oberhausen, minha cidade natal, onde existe um antigo gasómetro transformado em espaço para exposições de arte. Foi usado pelo Christo (obra do artista na foto) numa das suas últimas instalações. Tive sorte e estava cá quando foi. Impressionante.

Este espaço é tido e foi pensado para ser uma memória viva da antiga zona industrial aí existente, um pouco como as chaminés de alvenaria de tijolo de burro que abundam na paisagem portuguesa, quais esqueletos de um corpo decomposto, e nos lembram de que ali havia um forno de uma fábrica. Ali nos lembram de que houve outra coisa para além de prédios.

Esta região, a Renânia do Norte – Vestfália, foi um grande pólo na primeira revolução industrial. Como tinha minas de carvão havia muitas metalúrgicas, que obrigaram à construção de canais para poder fazer o transporte por barco directamente das fábricas pelo rio Reno até ao porto de Roterdão.

A transformação do tecido industrial fez-se, e esta zona é hoje em dia uma das mais populosas da Europa. Algumas das indústrias pesadas, metalúrgicas, situam-se nesta região, como a Thyssenkrupp. Pouco interessa, mas aqui produz-se muito, há muita indústria, muitos operários e ainda assim existem por aqui cidades como Wuppertal, onde Pina Bausch desenvolveu o seu trabalho, Düsseldorf, que viu Joseph Beyus e Anselm Kiefer formarem-se na sua universidade e desenvolverem o seu trabalho por lá, e um festival de curtas metragens em Oberhausen, onde Fassbinder, por exemplo, deu alguns dos seus primeiros passos.

Tudo isto num raio de 30 quilómetros. Mas também vivem 5,5 milhões de pessoas por estas redondezas. Sai-se de uma cidade e entra-se noutra, sem haver uma estrada para a Marinha Grande a separar. Os prédios são escuros e cinzentos, obedecendo a uma grelha que nunca viu uma sardinha, mas quentes por dentro, e aproveitando toda a luz que possa vir desse céu cinza.

Acho que a cultura evangélica, protestante, contraposta à ostentação da cristã, formou a sociedade para um aproveitamento, um não-desperdício do que é válido, capaz de operar transformações curando as feridas das percas. Aproveita-se o que há.

Esta semana já volto, daqui a pouco na verdade, e sempre que aqui venho volto atento. Atento ao que pode ser aproveitado, que espaços devolutos, que indústrias podem ser desenvolvidas ou não sendo modernizadas que aproveitem a sua componente manual para processos de produção flexíveis em produtos de valor acrescentado, ao que se pode fazer com o que há, no espaço onde vivo.

Sou um optimista. Prefiro ver virtudes em defeitos: encarar o mau feitio como carácter forte/directo, por exemplo, ou o espaço devoluto como potencial. Há por aí algum barracão/escola à procura de ocupantes? Mesmo que os prédios não falem, duvido que possam continuar imóveis.