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Entrevista
Catarina Pedro

Fotografia
Ricardo Graça
(excepto cena de palco)

29 Março 2016

Na rubrica Fora de Cena, com um formato quinzenal, pretendemos conhecer o percurso de alguns actores que fazem do palco a sua vida, olhando-os para além das personagens que vestem. É sobre teatro que aqui falamos, mas o que queremos mesmo é ouvir as histórias reais, onde cada um se apresenta ao vivo e a (muitas) cores.

O Henrique é o elemento mais novo do Teatro Amador de Pombal (TAP), mas já leva a sua actividade muito a sério. Pé ante pé, tem enfrentado as suas inseguranças e conquistado o seu lugar em palco. Eis o que ele nos disse:

Conta-nos a tua história, o que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso.
O teatro nunca foi algo que tivesse idealizado. Quando era mais pequeno, um pouquinho mais do que sou hoje, não gostava muito de enfrentar públicos e era até bastante envergonhado, no entanto, desde que entrei, não quero outra coisa. O meu percurso começou quando me desafiaram a entrar para o grupo de teatro da escola que frequentava, despertando o bichinho da representação. Muito tenho a agradecer ao professor e encenador António Branco, que não me deixou desistir. Por curiosidade decidi espreitar os ensaios do Teatro Amador de Pombal e fui então convidado a participar na nova produção infantil As Viagens de Gulliver, que o TAP estava a preparar e é com ela que me estreio no teatro mais a sério. Estou com o TAP há pouco mais de um ano e tenho muito a agradecer pela formação que me têm dado: já aprendi muito e espero continuar a aprender. Tem sido um percurso intenso e, apesar de curto, muito gratificante. Espero continuar a contar com o TAP para tudo o que precisar.

Na tua opinião, qual o valor do teatro relativamente a outras artes (como o cinema, por exemplo)?
O que mais me fascina no teatro é a forma como se transmitem emoções ao público sem ele se aperceber. É incrível a facilidade com que o espectador se foca no que está a acontecer em palco e, por breves momentos, se abstrai da sua realidade. Na minha opinião, o teatro supera as outras artes por viver de emoções que são reais, pela pequena distância que une o público e os actores. Quando estou a representar, o que eu mais gosto e me motiva é sentir que o público está conectado comigo ao longo do espectáculo. É esta conexão que considero fundamental para um bom espectáculo e que acredito só ser possível na representação em teatro.

Fora de cena _ TAP_3

 

Se pudesses ir buscar características a personagens que já interpretaste, quais seriam?
Ao longo do meu percurso trabalhei em moldes diferentes. Quando entrei para o TAP, deparei-me com uma forma de produção totalmente diferente do que estava habituado, já que foi uma adaptação livre que nos permitiu criar tudo quase de raiz. Penso que, como não existiam personagens definidas, ao ter a possibilidade de as criar, imprimi características pessoais nelas, o que acabou por torná-las mais reais. Dou como exemplo uma das minhas personagens em As Viagens de Gulliver, um mini imperador que está mais preocupado com o que é o jantar do que com ganhar uma guerra, procurando relativizar as situações complicadas com a sua grande vontade de comer. Acho que sou um bocadinho como ele, tento relativizar coisas que parecem sérios problemas, através do gosto por certas coisas que me dão prazer fazer, uma delas o teatro, sem dúvida.

Como costumas lidar com as críticas?
Nesta fase, em que estou a começar, procuro assimilar tudo o que me dizem, seja bom ou mau, para me poder enriquecer como actor. Estou sempre muito atento aos conselhos experientes e úteis dos encenadores e dos meus colegas de cena. Gosto particularmente que me corrijam, para poder construir as cenas da maneira mais correcta e, ao mesmo tempo, aprender com os erros. Quanto às críticas positivas, gosto de as receber pois é sinal que estou a crescer.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
Durante a digressão de As Viagens de Gulliver já me aconteceu levar um adereço de uma colega preso ao meu para o palco e também cair a peruca à actriz com quem contraceno. Mas como o teatro é isto mesmo, real e em directo, há que aprender a resolver este tipo de situações, pois permitem ganhar experiência para as representações seguintes.

Fora de cena _ TAP_4

 

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
Quando comecei a fazer teatro apercebi-me de um grande desafio: a insegurança, o medo de não ser capaz. E como o que a mente receia o corpo não executa, deparei-me muitas vezes com entraves que até pareciam simples. A única maneira de resolver este problema é fazer, repetir, voltar a fazer e voltar a repetir. Muito tenho a agradecer a todos os meus colegas do TAP que procuram sempre ajudar-me a ultrapassar os impedimentos com que me fui deparando ao longo do meu percurso.

Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
Em primeiro lugar, espero que possa fazer parte dele e acredito que melhor do que está hoje. Que seja valorizado e que possa ser de todos para todos.

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Admiro todos os que neste país fazem teatro e que proporcionam momentos de qualidade à população. Destaco evidentemente os amadores, como é o meu caso, pois sei o esforço que os grupos fazem para levar esta arte ao público. Infelizmente, ainda há quem não considere a cultura importante.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Não tenho nenhum ritual específico, mas aprendi que antes de um espectáculo é essencial o abraço a todo o elenco e equipa técnica e também o nervosismo, pois é sinal que estou totalmente concentrado e pronto para entrar em palco.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver? 
Já vi peças com muita qualidade, tanto de grupos amadores como profissionais e muitas delas veria novamente. Destaco, provavelmente a última que vi, de um grupo amador mas com uma qualidade incrível, Opus, da Ajidanha, encenado por José Carlos Garcia, que também já trabalhou com o TAP. Foi um espectáculo que me deixou a pensar durante alguns dias, o que acho fundamental. Espero continuar a ver muito mais teatro, para assistir “àquele espectáculo”, porque acredito que tal como todos os amantes de teatro, existe sempre um que nos marca de forma especial.