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Texto
Mónia Camacho

Ilustração
João Pedro Coutinho

2 Abril 2016

Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

MADALENA
MÓNIA CAMACHO

Dois mil e doze foi ano de perder. E perdi.

A vida pode matar-nos num golpe dramático ou devolver-nos à margem de um rio sossegado. Eu fui devolvida, num dia com graus abaixo de zero.

O homem dirigiu-se a mim e disse coisas em Alemão: «Lassen Sie uns schließen» (ou algo parecido). Repetiu aquilo empurrando-me para a saída. E, num gesto determinado de quem estava habituado a pôr gente na rua, fechou a porta. Podia ter-lhe dito que estava a nevar. Mas não disse: ele não era cego. Era só pontual. Ou alemão: não sei.

Os flocos ficaram a cobrir-me da única cor que havia.

O motorista do professor veio buscar-me antes da hipotermia dar cabo de mim. Já não faltava muito.

Instalou-me na ala norte de uma casa enorme. E deixou uma lista de sítios onde não poderia entrar: a mulher do Professor tem problemas e não pode ser incomodada. Uma boa razão.

Os problemas, segundo se dizia no meio académico, eram psicológicos. Madalena era esquizofrénica. E ele amava-a assim.

Sinto-me uma espécie de Jane Eyre dos tempos modernos embora o Professor esteja longe de ser Rochester.

Aceitei o trabalho por curiosidade sobre Madalena: o projecto, em si, não me interessa assim tanto. Já a loucura: apaixona-me. Em especial o que nela há de fragilidade humana. E a fealdade que sempre traz não afasta o fascínio.
Há momentos em que me esqueço que é louca. Temos conversas profundas nos poucos espaços em que nos cruzamos. E fico sempre num estado alterado.

Ela sabe que a sua beleza é terrível. E todos os seus sorrisos matam um pouco.

Logo na primeira semana prometo ajudá-la a fugir. Não devo ser a primeira: o professor deixa-me uma missiva com uma ameaça velada e um lembrete à minha condição de anjo caído que ele acolheu, benemérito.

A razão é daquelas coisas que pode falhar a qualquer momento. Como uma tecla encravada.

No momento em que sinto a faca na garganta apercebo-me de que sempre quis morrer.

Depois da eternidade: deixa-a cair. O metal e o chão tocam-se. O barulho da realidade é menos evidente. Toco o fio de sangue e constato que a vida existe, ainda. Apesar de tudo.