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Texto
Sara Peres

6 Abril 2016

Gosto da Bélgica. E como poderia não gostar quando é de lá que vem a Chimay, a cerveja de que tanto gosto? E a Godiva, que confecciona umas trufas de chocolate que me fazem salivar só de pensar nelas? Ou o Tintin, personagem da minha infância? Ou Blake & Mortimer, protagonistas das aventuras favoritas da adolescência? E Magritte? Como não gostar de um sítio onde há batatas fritas ou waffles deliciosos a cada esquina?

É: a Bélgica podia ser um paraíso. Mas depois está dividida em duas partes que não se entendem e não fazem, ou não querem fazer, cedências uma à outra. Tem uma burocracia tão pesada que se consegue aguentar um ano sem chegar a um consenso quanto à constituição do governo. E é frio como o raio. Mesmo no pico de Agosto.

Nada é perfeito, claro. Ainda assim, por pior que a Bélgica, ou Bruxelas, em particular, possa ser, creio que ninguém terá ficado feliz com os atentados. Excepto, naturalmente, os autores dos atentados, que teimam em crer que é fazendo-se explodir em locais públicos que conseguirão mudar o mundo, transformar a realidade, e defender os seus interesses. Se bem que, até certo ponto, há que lhes dar razão: o mundo mudou após o dia 11 de Setembro de 2001 e, para os moradores de Paris e Bruxelas, a realidade também se alterou depois de as bombas explodirem.

Claro que a importância que atribuímos a todos esses incidentes não tem nada que ver com a quantidade de gente morta (quem quer que já tenha ouvido falar na famosa Lei de McLurg sabe isso): já deve ter morrido mais gente num segundo, durante um bombardeamento na Síria do que numa hora no Bataclan. Mas como França é ali ao virar da esquina e é a pátria da liberdade, igualdade e fraternidade, e a Turquia fica para lá do Bósforo, a caminho da Ásia, é mais fácil lamentar uns quantos mortos franceses do que umas centenas de turcos.

Tons de pele, credos religiosos, nacionalidades à parte, o que me parece importante é algo muito simples, e que é comum a qualquer criatura que habite o planeta: o medo. É isso que está em jogo e é isso que importa. O medo infiltrou-se no quotidiano, instalou-se nas vidas de todos nós, independentemente das nossas diferenças. Para os ocidentais parecerá uma sensação nova. Excepto para os poucos que sobreviveram ao Holocausto. Para o comum cidadão sírio, afegão, iraquiano, tunisino, líbio, desde há algum tempo que os dias normais incluem medo na equação.

Não me interpretem mal. O medo até pode ser útil, tornando-nos atentos. Mas como tudo, deve ser consumido com moderação. Caso contrário, daí até à paranóia é um instante. A fronteira que separa a “normalidade” da doença é ténue. E quando algo como a paranóia assume o controlo, só se pode esperar o pior.

E se, subitamente, do nada, pensando nos eventos recentes, e nas notícias que os acompanharam e continuam a recordar, alguém me pedisse uma sugestão de leitura, a minha escolha não recairia num livro de Orwell, embora calhe sempre bem. Ao invés disso, recomendaria um outro que, através do riso, talvez nos elucide um pouco sobre a nossa natureza: O Alienista, de Machado de Assis. Porque, às vezes, aquele se acha mais bem dotado de bom senso, provavelmente é o mais louco. Ou paranóico.