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Texto e fotos
katy Deodato e Ricardo Santos

8 Abril 2016

O momento alto desta aventura australiana deu-se quando, na celebração do Dia de Páscoa, o Ricardo foi convidado para dar graças antes do jantar.

A resposta dele foi prontamente que não, mas eu, que já antevia o momento cómico que podia ser, dizia: “Yes. Yes, Ricardo you can do it” e a família ainda me ajudou: “It’s not dificult, only a few words”. Sem coragem para recusar, o Ricardo pega na minha mão e todos juntos fechamos os olhos e ouvimos o senhor, ups, desculpem, o Ricardo. Ámen!

Por aquilo que vimos e perguntámos, os australianos não têm uma tradição particular para festejar o Dia de Páscoa. Oferecem-se uns chocolates e aproveita-se o feriado para visitar a família, mas não significa isso passar o dia todo enfiado em casa a comer.

Eles só estão bem é a fazer actividades ao ar livre, trekking ou desporto em geral. Faça chuva ou faça sol, os dias são para ser passados em qualquer praia ou parque natural. Nós aproveitámos o sol de Outono que para sul já começa a esconder-se por detrás das nuvens e passámos o fim-de-semana com a família da Jen (aquela onde estivemos no mês de Março). Levaram-nos a conhecer as melhores praias da zona de Albany e Denmark, tivemos visita guiada a um porto que em tempos foi a maior fonte de rendimento da vila de Albany com a caça de baleias e ainda participámos numa corrida comunitária (somos bué fit). E, para acabar em beleza o fim-de-semana, fomos presenteados com uma degustação de vinho numa quinta.

Já nos estamos a habituar a estar sempre a mudar de família, sentimo-nos cada vez mais à vontade a dormir em casa de estranhos. Já não temos tanto aquela vergonha inicial e já nos habituámos a conhecer e adaptar a novas casas, novos trabalhos e novas personalidades. Acaba por ser um vício engraçado, pois temos tido tanta sorte (ou não, e realmente os australianos são todos assim) que somos tratados como reis. Somos o centro das atenções e tudo gira à nossa volta, de forma a proporcionarem-nos uma boa estadia. Os dias em Albany foram muito bem passados junto de pessoas totalmente estranhas, mas que nos recebem com muito carinho.

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Madfish Bay_Denmark

Regressámos a Perth, pois fomos atraídos por um anúncio no qual pediam ajuda para construir um espaço para a anfitriã dar as suas aulas de yoga a partir de casa. O desafio pareceu-nos interessante e decidimos pedir asilo por uma semana. O anúncio nem tinha muita informação e, por isso, fomos surpreendidos quando vimos crianças na casa.

Alice, a anfitriã deste workway, recebeu-nos logo como se fôssemos amigos e cedeu o seu quarto para dormirmos enquanto ela iria dormir no chão no quarto dos filhos. Explicou-nos que, de momento, não tinha possibilidades financeiras para avançar com o projecto de construir algo onde pudesse proporcionar um melhor espaço aos seus clientes, que habitualmente se deslocam até sua casa para ter aulas particulares de yoga, massagens e meditação. Basicamente, o que esta mãe divorciada com apenas 33 anos queria era que brincássemos com os filhos: dois rapazes, de 9 e 8 anos. Tarefa fácil para o Ricardo, que criou logo uma empatia que só ele consegue ter com crianças, sobretudo se forem rapazes.

Alice tem guarda partilhada e as crianças só ficam ao seu cuidado de sábado a quarta; nos outros dias fica livre para trabalhar e divide o seu tempo com umas horas num ginásio e outras em casa.

Estar com esta família é ver uma realidade diferente da qual nos temos vindo habituar na Austrália. Só temos convivido com pessoas endinheiradas: há realmente aqui muita gente rica, muito rica mesmo, mas estarmos com uma família com menos possibilidades permite-nos conhecer e enfrentar uma outra faceta desta sociedade.

O que admiro na Alice é que apesar de ter pouco (mas atenção: pouco aos olhos dos australianos…), abre a porta da sua casa e não se sente incomodada ou envergonha com o pouco que tem para oferecer. A humildade desta rapariga, que encara a vida como pode, deixou-nos surpresos quando nos levou a comer a um centro comunitário, onde geralmente vai às quintas-feiras porque a comida é oferecida, ou paga-se um preço simbólico (cerca de 1€) por uma refeição.

Nesse dia foi risoto de legumes e frango no forno. Não se almoçou nada mal e ainda fomos fazer compras na loja comunitária, onde pudemos trazer os bens essenciais por valores muito inferiores ao normal.

Abertamente, Alice diz-nos que está a recuperar de uma situação financeira mais complicada, mas que isso não é motivo para ter vergonha, ou para se esconder; é apenas uma fase mais complicada.

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Na água até já não se ver nada. Sunset em South Beach.


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Fremantle e a sua arte urbana por todo o lado

A nossa posição ao início foi: “não faz sentido estarmos numa casa onde, para além de não termos o projecto que pensávamos que íamos ter, ainda estamos a dar despesas à rapariga”. Mas a Alice é uma fixe, até o carro dela nos deixou à disposição para podermos ir à praia. Nós sentíamo-nos um bocado desconfortáveis com tamanha abertura e, para nós, brincar com os miúdos ou ir levá-los à escola não era suficiente para retribuirmos toda a sua hospitalidade.

Por outro lado, também achávamos que não fazia sentido ir embora, e se a Alice mantém as portas da sua casa abertas para viajantes como nós é porque tem gosto em receber pessoas. E, por isso, ficámos.

Sentíamo-nos bem em casa dela. Alice é uma desportista, vegetariana, com boa onda. De manhã bem cedinho, às 6:30 horas, íamos com ela até à praia fazer um jogging matinal. Depois disso, uns alongamentos e um banho fresquinho no mar eram suficientes para absorver as boas energias e começar o dia.

Depois Alice ia à vida dela de trabalho e nós à nossa de turistas. Ainda deu para conhecer Fremantle, um subúrbio de Perth, que antigamente era local escolhido para aprisionar os fora-da-lei, portanto um local sem grande interesse, mas hoje é uma área muito agradável para se passear, com imensa arte urbana, casas ao estilo colonial inglês e um subúrbio junto ao mar com uma praia convidativa para ver o pôr-do-Sol.

A Alice pretende educar os filhos de uma forma que já pouco se vê neste século XXI. Não há televisão em casa, nem tablet, nem nada electrónico para entreter as crianças. O que há é muita criatividade e muitos jogos de tabuleiro. Agora já percebo quando ela nos dizia que o que precisava era que brincássemos com os filhos. De facto, é preciso ter-se mesmo muita disponibilidade para o fazer.

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Um dos muitos morais grafitados de Fremantle.


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Prédio histórico de Fremantle.

As crianças são fáceis, o mais novo é mais birrento, mas basta uma palavra para mudar a sua atitude. Não há gritos, nem histerismos, os horários são para cumprir sem stress, sem choros sem muitas lamurias. Há uma rotina para se cumprir, e com educação e respeito, o dever é cumprido.

Com horários laborais diferentes dos nossos permite que as crianças jantem por volta das 18:00 horas e se deitem por volta da 20: horas. O dia seguinte começa cedo a escola é só às 8:30 horas, mas o horário de levantar é às 7:00 horas para irem fazer um passeio matinal os três.

Regressa-se a casa e cada um prepara o seu pequeno almoço. O papel da mãe é mais de supervisionar e/ou ajudar caso precisem. Antes da escola ainda há tempo para um joguinho de cartas ou de tabuleiro. A escola não fica longe e vai-se bem a pé. Às 15:00 horas termina, há tempo para passar no parque ou volta-se para casa para brincar. Faço umas panquecas para o lanche, saltamos na cama elástica e divertimo-nos nesta casa que nada nos exige a não ser a nossa companhia.

Chegou a hora de deixar Perth, agora vamos voltar para o sul, onde já estivemos de passagem. Esta viagem está recheada de boas pessoas, de boas experiências e de oportunidades. Agora vamos passar umas semanas num hotel de gestão familiar que precisa de ajuda no negócio. O curioso desta nova etapa é que os anfitriões são um casal português.

Contamos tudo no próximo capítulo.