Cabide ou cruzeta? Definitivamente o uso de uma ou outra palavra pode comunicar a tua resistência gástrica à ingestão prolongada de francesinhas. Do Norte. Não da França.

Texto de Paulo Sellmayer
designificados.wordpress.com

Se bem que não tão radical como aloquete, a palavra cruzeta é um forte indicativo da tua região de origem, cultura falada a que estás e foste sujeito. Embora seja difícil atribuir um regionalismo ao termo/objecto, ligando-o à região Norte do país onde é mais comum ser empregue, a raiz etimológica das palavras cabide e cruzeta apontam para essa diferença. Cabide tem origem árabe, qabda, “garra, gancho”, e cruzeta do latim, crux, quer dizer cruz. Mouros, chamam nos eles. Grosso modo, se dizes que as cruzetas estão seguras porque as prendeste com um aloquete está tudo bem, és do Norte.

cruzeta

Regionalismos e linguística à parte, este é um objecto fascinante. Um daqueles objectos sintéticos, cuja simplicidade e ainda assim variedade nos permite discorrer sem nunca ficar pendurado.

A cruzeta vem da simples agregação de dois pedaços de madeira que com um gancho no topo serve para pendurar a roupa em armários. A sua trave vertical alongada serve para pendurar o vestido/casaco em lugares mais altos. Simplifica a sua utilização. Simplificado é também o desenho e método construtivo que da sobreposição de dois pedaços de madeira se obtém um objecto útil e prático.

Cada cruzeta apresenta um carácter anónimo mas suficientemente distinto para ter alguma individualidade. A essência do objecto, “its quiddity“, está na interpretação do modelo construtivo.

A cruzeta pede o nome emprestado à forma que lhe dá origem. O cabide é um móvel ou uma peça para pendurar roupa. Dado que a função do último é mais frequente, este substituiu em nome a cruzeta, já que esta aponta apenas para o modelo construtivo.

Em cada objecto, sobretudo naqueles que se nota serem feitos à mão, se reflecte a visão única do seu criador, por mais anónimo que este seja. Se atentarem irão decerto encontrar objectos com estas características, a começar nos cabides de madeira dos nossos avós.

Cada qual pensa em como constrói o mundo material que lhe é pedido desenhar.