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Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Nesta rubrica a Preguiça recorda o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Texto de Paula Lagoa
Fotografias de Ricardo Graça
15 Abril 2016

A importância da água para o ser humano é tão evidente como o não fazer nada para o bicho preguiça. É inquestionável que viver sem água não dava jeito absolutamente nenhum. Sem vinho também não, mas isso é outro assunto. Como diz o reclame, “água é vida”.

Muito antes da água canalizada, das redes de esgotos e saneamento, as fontes, lavadouros, chafarizes, fontanários e seus familiares tinham uma importância extrema para as populações. Não é por acaso que as primeiras cidades se desenvolveram próximas de rios e Leiria não é excepção. Já tinham pensado nisso?

Na cidade do Lis, e bem perto do rio, há uma fonte onde a água corre pelo menos desde 1721 e que escolhemos para este Leiria para Totós por ser, hoje, um lugar de passagem, mais do que de paragem, como foi noutras vidas. Acreditamos que grande parte das pessoas passa por ela com uma indiferença que não faz justiça à sua importância para a cidade e, por isso, fomos até lá.

A Fonte das 3 Bicas, como é conhecida actualmente, ou Fonte Grande, Chafariz Grande e ainda Fonte das Carrancas, designações que foi tendo ao longo dos tempos, assumiu nos séculos XVIII, XIX e até meados do século XX um papel muito importante enquanto recurso à água para as mais diversas finalidades.

Dali era retirada água para tudo o que se possa imaginar. As mulheres enchiam grandes jerricãs para uso doméstico, os cavalos de carga de bens e pessoas bebiam dos dois grandes bebedouros laterais, lavava-se roupa e refrescavam-se os muitos forasteiros e viajantes que tinham ali paragem obrigatória, já que a fonte era (e ainda é) muito próxima daquilo a que hoje chamamos rodoviária. Teve até ao século XIX um enquadramento urbano de excelência: em frente à antiga, e agora inexistente, Ponte dos Três Arcos, por onde passava a estrada nacional que ligava Lisboa e Porto.

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Esta movida de outros tempos é difícil de imaginar agora, naquele lugar onde até existe um letreiro que diz “água imprópria para consumo”. Apesar disso, a fonte encontra-se em bom estado de conservação e é bonita o suficiente para perdermos alguns minutos a olhar para ela.

Eu bebi muita água da Fonte das 3 Bicas e até chapinhei onde, outrora, cavalos bebiam água. Na Rua Tenente Valadim – onde fica a fonte e onde morei – não havia miúdo que nunca tivesse ido parar lá dentro. Bebi de todas as bicas até me dizerem que “a do meio é a da morte”. Não consegui desvendar nada sobre esta espécie de lenda, creio que não passasse de uma brincadeira de garotos, mas encontrei quem acredite piamente que “se bebes das 3 bicas é em Leiria que ficas”.

Dona Felismina, a cesteira da Rua Direita, diz que quando desembarcou em Leiria, em 1950, vinda de Gonçalo, na Guarda, bebeu das três bicas e que alguém lhe disse depois: “Bebeste das três? Ficas em Leiria de vez”. “E fiquei mesmo”, diz satisfeita com a vida que encontrou por cá. Lembra ainda que era frequente as mulheres levarem água da fonte para as limpezas em casa ou para a rega de plantas. “Apesar de já haver água da torneira, poupava-se muito com a água das fontes”, recorda.

Pensando bem, eu bebi das três e por cá continuo. Supersticiosos há por aí? Bom, se alguém tiver um grande desejo de por cá ficar radicado pode sempre ir até lá e beber das três bicas. Como agora a água é imprópria para consumo, o mais certo é apanhar uma grande caganeira… mas, pronto, vejam a coisa como um tratamento diurético.

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Fontanário de estilo barroco
Nestas coisas as datas nunca são precisas, mas há evidência de que a Fonte Grande, Chafariz Grande, Fonte das Carrancas ou Fonte das Três Bicas já existia na primeira metade do século XVIII. De acordo com uma descrição documentada de 1721 teve elementos que já não existem, nomeadamente dois brasões representando as armas reais e da cidade de Leiria.

É um fontanário de estilo barroco, possui dois bebedouros laterais e uma bacia central precedida de um pequeno largo, protegido por varandins de motivos trabalhados e ladeado por dois bancos de pedra. A água jorra por três carrancas, sobre uma espalda de cantaria que se prolonga para ambos os lados, ornamentada por um friso arrendado de quadrilóbulos com a imagem de Santo António ao centro.

Tem degraus de acesso por três lanços de escadas (um ao centro e dois laterais). Na parte posterior do espaldar encontra-se a cisterna rematada por lanternim (fresta para dar ar e luz). Há registo de algumas perdas de elementos arquitectónicos, que terão acontecido durante um período de abandono, antes do restauro de 1997. Desde então encontra-se em bom estado de conservação, guardando consigo a memória de um lugar que teve grande importância para a cidade.

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