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Texto
Paula Lagoa

Fotografia
Rafael Silva

22 Abril 2016

Vem aí um fim-de-semana prolongado e se para ti ficar em casa a pasmar não é opção, temos uma sugestão para ti: Caldas da Rainha

Sim, Caldas da Rainha, porque não? Pode não ser o primeiro lugar que nos vem à cabeça quando pensamos numa escapadinha de fim-de-semana, mas sem nada a perder, nem verba para grandes aventuras, fiz-me à estrada. Afinal é já aqui ao lado, para quem está em Leiria – que é o meu caso, e para quem está em Lisboa é mais ou menos a mesma coisa.

Já tinha ido algumas vezes às Caldas, mas pode dizer-se que conhecia tanto da cidade como se nunca lá tivesse posto os pés. Isto, normalmente, é o resultado de ires aos lugares em trabalho e com o tempo contado. Desta vez fui em lazer e decidida a trazer-vos uma espécie de roteiro a la preguiça, que é como quem diz, de baixo orçamento, mas cheio de sensações. Ouvi dizer, ou li algures, que é sempre bom usar a palavra sensações neste tipo de artigo e, pronto, cá está ela.

Antes de me fazer à estrada, liguei a uma amiga das Caldas e perguntei-lhe: olha lá, Rita, além de cerâmica marota, o que é que há de jeito na tua terra? Deu-me uma lista de lugares a visitar e coisas para fazer, que acabei por me esquecer em casa mas, no fim de contas, fui parar à maioria deles sem problema. Uma coisa boa desta cidade é que se consegue ir a pé para todo o lado. Depois de estacionado, o carro só voltou a andar para fazer a viagem de regresso. Sempre a poupar!

Em busca dos encantos das Caldas da Rainha fui parar ao Mercado da Fruta. Era um dos pontos da tal folha com as dicas da Rita. Chovia a cântaros, mas lá estava o mercadinho a funcionar com as suas bancas vistosas. Voltando às sensações, ali as frutas, as hortaliças, as flores, as ervas aromáticas, os frutos secos, os queijos, tudo cheira ao que realmente deve cheirar e a atmosfera enche-se de odores que vamos descobrindo à medida que circulamos nos estreitos corredores do mercado. Tive a sorte de passar lá ao sábado, que é o dia mais forte, mas há mercado todos os dias da semana, no período da manhã. Rente à hora de almoço levantam-se arraiais e fica a descoberto uma bela praça de calçada portuguesa de 1883, ladeada por catitas fachadas de azulejos, de resto, uma coisa comum nesta terra onde a cerâmica é rainha.

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Há mercado da fruta todos os dias de manhã


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Bom petisco é na Casa Antero. Se lá forem, digam ao Paulo Feliciano que vão da nossa parte

Embora almoçar, que isto de ver tanta coisa boa abre o apetite até aos mais enfastiados, que não é, definitivamente, o meu caso. Levava na cábula mental um nome: Casa Antero. Pelo menos três pessoas que não são das Caldas (isto é muito importante) já me tinham falado nesta tasca e foi para lá que fui direitinha, tipo flecha. De portas abertas desde 1957 por Antero e Olímpia, passou nos anos 80 para gestão dos filhos, Paulo e Anabela, que nos 90’s requalificaram o estaminé, passando a ter dois serviços distintos: de um lado o Pachá, um espaço dedicado a refeições gourmet, do outro, a Casa Antero, que mantém os tradicionais petiscos e o vinho a copo que popularizou a antiga taberna.

Foi precisamente na taberna que me deliciei com uma generosa dose de lulas à bulhão pato, depois de me terem atravessado o prato alguns petiscos mais tradicionais como salada de polvo ou moelas e também umas sugestões menos prováveis como mexilhões de escabeche, rim frito e um inesperado e perfumado mini hambúrguer de cozido à portuguesa. Uma maravilha! A decoração do espaço fica entre a taberna típica e tasca moderna. Saltam à vista as muitas garrafas de vinho expostas, em particular as de 6 litros que, garante Paulo Feliciano, “não são só para decoração”.

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Quinta Visconde de Sacavém. A casa deu lugar ao Museu da Cerâmica.


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Loja da fábrica Bordallo Pinheiro. No segundo andar é que estão as pechinchas.

A travessa de folha de couve não é invenção de Rafael Bordalo Pinheiro. E esta,hein?

De barriga cheia, o passeio segue até à fábrica das famosas cerâmicas decorativas e utilitárias Bordallo Pinheiro. A ideia era visitar o museu, mas fiquei a saber que só é possível com marcação prévia. Não dei a visita por perdida e aproveitei para trazer um saco cheio de coisas bonitas da loja da fábrica, que está aberta ao fim-de-semana. As peças não são propriamente baratas mas se o orçamento for curto, podem sempre espreitar o segundo andar, onde há uma loja de artigos de segunda escolha, com pequenas imperfeições, a metade do preço. Sim, mãe, a terrina que te dei tem defeito: agora encontra-o.

Se a visita à Bordallo Pinheiro deixar alguma curiosidade sobre a história da cerâmica nesta pacata cidade é de seguir viagem até ao Museu da Cerâmica, que fica a poucos metros da Bordallo Pinheiro, instalado na Quinta Visconde de Sacavém, construída em 1890 pelo 2º visconde de Sacavém, aparentemente, fervoroso coleccionador, ceramista e importante mecenas dos ceramistas caldenses. Ali fiquei a saber que, além de Rafael (1846-1905), existiram outros Bordallo Pinheiro, até anteriores a ele, que se dedicavam à arte de moldar barro/pastas para fazer coisas bonitas. Ah! E que a temática naturalista das folhas de couve, das lagostas e afins também não foram invenção sua. Ele foi um seguidor de outros naturalistas. Aqui entre nós, o que se soube vender melhor!

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Parque D. Carlos I


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Não se metam com eles!

Estas e muitas outras curiosidades que vos podem fazer ganhar queijinhos no Trivial Pursuit estão dispor do visitante. E se tiverem dúvidas, falem com a dona Aurora Almeida, que desde 1986 faz a visita guiada e cuida da quinta como se fosse sua. Aproveitem para desfrutar do jardim e apreciar a bela casa que tinha o visconde, cheia de pormenores decorativos e arquitectónicos, como painéis de azulejos dos séculos XVI ao XX, gárgulas, frisos e cercaduras.

Um lugar que dispensa recomendação, porque inevitavelmente se vai lá parar, é o Parque D. Carlos I. Instalado no coração da cidade, é o lugar certo para a passeata de domingo. Um sítio onde o verde predomina e as imponentes ruínas, do que nunca chegou a ser uma unidade de internamento do Hospital Termal Rainha D. Leonor (de finais do sec. XIX), se fazem à fotografia. Se o passeio for a dois e o sol a brilhar, apostem tudo numa voltinha de barco pelo lago e cuidado com os gansos que mais parecem cães de guarda à propriedade.

Se calhar ao segundo domingo do mês é de aproveitar para dar uma espreitadela à Feira de Velharias, que se estende por uma boa parte do parque. Aqui dentro é de visitar ainda o Museu José Malhoa, que figura entre os “obrigatórios” das Caldas e que mostra o maior núcleo reunido de obras do seu patrono e uma importante colecção de pintura e de escultura dos séculos XIX e XX, revelando-se a quem o visita como o museu do naturalismo português. Não deixem de reparar nas árvores seculares e nas esculturas ao longo do parque e tirem uma selfie no coreto para mais tarde recordar.

Onde ficar?

Se a ideia é pernoitar, entre a oferta hoteleira caldense, a sugestão recai sobre o SANA Silver Coast, um hotel quatro estrelas que lidera na relação qualidade/preço. Isto quer dizer que, o conforto, a localização (mesmo à frente do Parque) e a qualidade dos serviços não se pagam com a pouca diferença de preço para outras unidades de qualidade inferior na cidade. E depois podem sempre dizer que já dormiram onde a família real de D. Carlos I e a nobreza da época fazia os seus convívios, o que é superchique!

O hotel está instalado num edifício de 1890, onde outrora funcionou o Hotel Lisbonense. É um edifício bonito de ver, especialmente com a iluminação nocturna. Mesmo que não sejam hóspedes, é de aproveitar para beber qualquer coisa na esplanada ou no bar, que ficam mesmo à entrada. E se quiserem surpreender a cara-metade com um jantar daqueles que trazem água no bico, apostem tudo no Restaurante Lisbonense, dentro do hotel e igualmente aberto ao público. Aqui a fasquia eleva-se com a cozinha de autor, o espaço requintado e o atendimento super personalizado, mas descontraído.

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O SANA Silver Coast Hotel fica mesmo no centro da cidade.


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Os pratos do Restaurante Lisbonense têm todos uma apresentação que até custa a desmanchar.


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Os Dead Combo no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha

Comemos corvina que sabia a peixe, novilho que sabia a carne de vaca, polvo com sabor a polvo, entradas e acompanhamentos frescos e igualmente ricos em sabor. A impressão com que fiquei foi que esse é o segredo do chef, apostar na riqueza de cada alimento, com simplicidade, sem mascarar o seu sabor original. Boa, chef! E registem este nome: Divai. O vinho que escolhemos, exclusivo da cadeia de hotéis SANA. Fica entre os mais económicos da carta e deixa-se beber sem derrapagens no percurso. O preço médio por pessoa ronda os 30 euros e acreditem que são muito bem gastos.

Sem derrapagens também seguimos até ao Centro Cultural e de Congressos (CCC). Sempre a pé, que ajuda a digerir o repasto. De visita às Caldas, é sempre de espreitar a agenda do CCC, que normalmente faz parte do percurso dos melhores artistas nacionais e internacionais em digressão no país. Nós tivemos a sorte de apanhar os Dead Combo em cartaz, o que somou muitos pontos nesta aventura à descoberta das Caldas da Rainha.

Antes do regresso a casa, com passagem prevista pela praia de Foz do Arelho, compra-se um pacote de cavacas e outro de suspiros – doces típicos das Caldas, coisinhas mais sem jeito da história da doçaria portuguesa, mas que aparentemente têm saída. Pessoalmente dispenso, mas a sogra tinha dito que gostava muito e fica sempre bem chegar a casa com um regalo para o pessoal.