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Texto
Pedro Miguel

Foto (home page)
Frank Habicht (Londres, 1968, pormenor da fotografia original)

25 Abril 2016

A malta vê na televisão aqueles caçadores de tempestades que vão atrás de onde há sarilho, mas aqui o trajecto era o inverso. Como viajante solitário, os avisos amarelos ou vermelhos às vezes são apenas um detalhe. O objectivo era nobre: ir ver uma das melhores exposições de fotografia de sempre.

Foi numa daquelas tempestades, com nome de gente, que são as piores – neste caso, era a Katie a fustigar o céu londrino – que se andou a fugir de um vento cortante e das nuvens com alguma urgência e determinação, assim como desde já fica o agradecimento à pessoa antiga que inventou as arcadas nos edifícios.

Assim, era a ziguezaguear entre as abertas e a olhar constantemente para as nuvens por cima da cabeça, como que a pedir ao divino para aguentar só mais um bocadinho, que os três quilómetros a pé entre a estação de King’s Kross e o centro de artes Barbican Center se fizeram entre algumas corridas para um qualquer resguardo da intempérie.

Era dia de Páscoa, e durante as tréguas da situação meteorológica as crianças brincavam à caça aos ovos no Postman’s Park, um desvio que vale sempre a pena fazer, numa espécie de peregrinação que faz bem ao espírito (em cima, na foto de abertura deste artigo, sacada respeitosamente mas sem vergonha em www.postmanspark.org.uk). Para além de ser um refúgio no centro da cidade, é lindo, verde, pequenino, com bancos para sentar, e tem um mural de homenagem a heróis desconhecidos.

Curiosidade de ser um 24 de Abril e ter sido a personagem que foi usada no filme.

Curiosidade de ser um 24 de Abril e ter sido a personagem que foi usada no filme Closer.

Isso mesmo, in commemoration of heroic self sacrifice, que é como quem diz, pessoas anónimas que perderam a vida a salvar, ou a tentar salvar outras. Apesar de o local já ter já sido protagonista no filme, Closer, de 2004, com Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman e Clive Owen – podem ver imagens a partir de 1′ 20” – hoje em dia é um refúgio onde se está relativamente bem e em paz, e naquele dia serviu também de abrigo debaixo das telhas, rodeado de evocações a pessoas inspiradoras.

Após mais uma descarga do São Pedro, ou Saint Peter ou lá quem seja o responsável pelas torneiras lá de cima naquela localidade, foi tempo de ir até ao Barbican, mesmo ali ao lado, ver a monumental exposição de fotografia Strange and Familiar, uma mostra conjunta de reputados fotógrafos internacionais, ligados à agência Magnum, e que retrata a identidade cultural, social e política do Reino Unido, desde os anos 1930 do século passado (por exemplo, a foto de capa deste artigo, que vêem na homepage da Preguiça, da autoria de Frank Habicht).

Que assombro. Não seria de esperar outra coisa, já que a exposição tem como curador Martin Parr, fotógrafo bastante conceituado, e com olho para o retrato de rua, casual, satírico, antropológico, certeiro. Se ele tem olho para a fotografia, também o teve, generosamente, para a escolha de muitos outros colegas que fazem desta exposição colectiva um dos acontecimentos do ano em terras da nonagenária majestade.

O que será feito daquele menino vesgo que espreitava à janela na Inglaterra rural dos anos 1960? E aquela outra criança escocesa com um ar aflito, numa Glasgow cinzenta, que não se sabe se está prestes a apanhar do pai alcoólico, ou se estará a fugir de outras crianças mais velhas que lhe querem bater. Safou-se? Os trabalhadores daquelas minas tiveram uma reforma condigna, ou a Thatcher conseguiu mesmo partir a espinha aos sindicatos de tal forma que quem trabalhou a vida inteira no duro acabou na mesma na miséria?

Sem Título

Esta não é uma mera exposição a que se vai porque é muito giro ir ao centro de artes, que ainda por cima fica lá no estrangeiro, e depois vem aqui armar ao pingarelho. É tão mais do que isso. É um testemunho, um retrato social, a prova de que a uma proporção de uma foto por mil palavras, ali está um monumento histórico contado através da imagem, uma lembrança de que a vida é quilhada, e os vinte e quatros de Abril desta vida são importantes para se poder fazer os vinte e cinco.

Strange and Familiar: Britain as Revealed by International Photographers está patente no Barbican Center, Londres, até 19 de Junho.

Texto de Pedro Miguel
25 Abril 2016