Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Nesta rubrica a Preguiça recorda o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Além dos membros do clero, conhecem a Sé de Leiria os que estacionam à volta, os noivos e convidados dos noivos, os que bebem copos nocturnos na escadaria, os turistas e os crentes. Em qualquer caso, dificilmente se deixam impressionar pela catedral, que não podia ser mais simples e despojada. Depois, há outro grupo de pessoas, os alunos de arquitectura e história da arte, ou professores e investigadores, para quem este edifício com 457 anos é de estudo obrigatório – neste texto vamos explicar porquê, mas, primeiro, contamos a história da torre sineira, aquela que os leirienses perpetuaram em verso.

Diz a tradição que existiu na Sé de Leiria uma pequena torre para o culto, mas, porque os residentes no outro lado da cidade não escutavam os sinos, o bispo D. Miguel Bulhões e Sousa ordenou em 1770 a construção de uma nova estrutura, que hoje conhecemos, na encosta do Castelo. Daí o verso: “Leiria tem uma torre que não tem Sé e uma Sé que não tem torre”.

Quanto à catedral, é “a primeira marca em Leiria de uma mentalidade moderna e a primeira vez que se aplicam em Leiria os valores do humanismo e do Renascimento”, explica Marco Daniel Duarte, director da Comissão de Arte e Património Cultural na Diocese de Leiria-Fátima. É também um dos melhores exemplos portugueses de igrejas salão (hallenkirchen), a par dos mosteiros de Alcobaça e dos Jerónimos. Por isso, “não há nenhum estudante de arquitectura em Portugal que não tenha de estudar a Sé de Leiria”, reforça Marco Daniel Duarte.

Se já lá entraram, sabem que o estilo é monótono, austero e depurado. Quase pobre e superficial. Na verdade, está em linha com a vanguarda na Europa à época e com as orientações do Concílio de Trento. E porquê? “Tem a ver com ir ao essencial das formas”, com uma construção “que não esmaga o ser humano”, sintetiza Marco Daniel Duarte. O bispo que idealiza a Sé de Leiria – D. Frei Brás de Barros, embora tenha sido o sucessor, D. Gaspar do Casal, a dinamizar a obra – tem ideias claras para o projecto. Por um lado valoriza a mensagem do cristianismo e a relação com os fiéis sem artifícios nem ornamentos, por outro, numa fase em que a dissidência protestante ataca alguns dogmas católicos, reafirma o papel da mulher nos evangelhos, com a representação da coroação da Virgem no retábulo do altar mor. “É um caso muito claro da arte a funcionar como transmissora e defensora da fé”, diz Marco Daniel Duarte. As pinturas são de Simão Rodrigues, um dos mais reconhecidos artistas do seu tempo.

Se visitarem a catedral com arquitectos, podem sempre puxar de alguns detalhes para impressionar: o tecto das três naves colocado ao mesmo nível, a planta em cruz, os pilares de base cruciforme, a pia baptismal quinhentista, o fontenário renascentista com mármores da região – e, acima de tudo, o tratamento da luz, que resulta num interior muito mais iluminado. Já o cristo que se vê no retábulo do altar mor, no lugar de uma tela perdida, foi instalado em 1983 e, segundo a tradição, veio da Igreja de Nossa Senhora da Pena.

O ambiente espartano do edifício, que começou a ser construído em 1559, só é quebrado com as capelas nos transeptos norte e sul, as cruzes da sagração e as inúmeras lápides tumulares, algumas de bispos (a Sé, antes da construção dos cemitérios, era a principal necrópole da cidade). É o que resta, depois do terramoto de 1755, um incêndio e pancadarias napoleónicas (sim, os franceses também andaram por ali a causar estragos).

Ilustre, mas desconhecida, a catedral cuja autoria é atribuída a Afonso Álvares, e que terá sido continuada por João Moreno, não mereceu sequer a visita do Papa Paulo VI, quando, em 1967, aterrou na base aérea de Monte Real e passou por Leiria a caminho de Fátima. Mas ainda estamos muito a tempo de a redescobrir.

Vais ouvir os sinos da Sé. Está para breve o programa museológico que promete renovar o interesse acerca da torre sineira de Leiria. É o único caso em Portugal em que a torre está separada da Sé. Já reabilitada, depois de uma intervenção com fundos comunitários concluída no ano passado, a estrutura é visitável por marcação. Mas o que lá vem sugere novas perspectivas de interpretação no plano cultural e turístico. Por exemplo, o acesso ao espaço que terá servido de cadeia e que explica a frase “vais ouvir os sinos da Sé”, que com certeza já ouviram por aí. Mas, também, os pêndulos do relógio. E a Casa do Sineiro, por cima do arco, que o escritor Eça de Queiroz utilizou para cenário n’O Crime do Padre Amaro, embora transposta para a Sé. Ou, ainda, os dois carrilhões e oito sinos ali instalados, que ao longo dos tempos sonorizaram o avanço das horas e minutos, a celebração de missas e a ocorrência de incêndios na cidade.

A torre que hoje conhecemos, em estilo barroco, junto à antiga Porta do Sol, ostenta algumas pedras da cerca muralhada medieval e foi mandada construir em 1770, pelo bispo D. Miguel Bulhões e Sousa. É do prelado o brasão inscrito na cúpula.