Ao longo do passeio vejo crianças que brincam do outro lado da vedação. É um dia quente e soalheiro e observo os chapéus coloridos que correm pela relva acabada de cortar. Não sei que idade têm. Continuo o meu caminho e penso na sorte que têm, protegidas que estão ainda pelo véu da inocência.

Amadurecer, que não é o mesmo que envelhecer, envolve uma gradual perda da inocência, como se ao longo do tempo fôssemos descascando uma cebola, perdendo camada após camada, até que ficamos despidos, de coração nu, susceptíveis a toda a maldade do mundo.

Perder a inocência não implica que nos tornemos mais resistentes à maldade, nem sequer significa transformarmo-nos em pessoas melhores. Aprendemos apenas a protegermo-nos, mas nem sempre de modo infalível.

Aprendemos a estar à defesa e repelimos o que possa ser entendido como um ataque. Vestimos rostos soturnos, disfarçamo-nos de pessoas sérias. Como a cebola, desenvolvemos um mecanismo de defesa contra a nudez. Mas mesmo que sejamos bem-sucedidos, conseguindo evitar percalços, são muitas as oportunidades perdidas.

Sinto uma grande nostalgia pela minha infância, provavelmente motivada pelas responsabilidades que a idade me foi trazendo. Não sei se é também por esse motivo que há tanto hype em torno de objectos ou actividades que evocam a infância.

Ainda que seja reticente a modas, também tenho um livro de colorir para adultos (isto soa tão mal). E tenho vários bonecos de Star Wars, inclusive um Yoda de pelúcia, embora só tenha brincado com eles com a minha sobrinha presente. Já com o livro de colorir é diferente. Quando soube que existiam livros deste género, corri a comprar um. Sempre gostei de desenhar (embora não tenha talento para artes visuais) e pareceu-me boa ideia. E a verdade é que o livro tem um efeito apaziguador e já acalmou diversos momentos de neura, quando falta a concentração para ler ou ver um filme do início ao fim. Também já considerei adquirir uma tábua de martelar, após ter lido Naïf. Super, de um autor norueguês. No livro, o narrador, que se encontra em crise, em busca do sentido da vida, ou algo parecido, usa a tábua de martelar (vendem-se no IKEA, na secção de criança) e uma bola para passar o tempo e aliviar a angústia.

Soa estúpido, bem sei. Mas ele há dias, que se tornam semanas, em que a ansiedade se transforma em angústia e o dia-a-dia parece inteiramente desprovido de sentido. O tempo escasseia, passo os dias ocupando-me de tarefas que não parecem importar a ninguém, roubando espaço ao que me parece realmente importante: ao tempo da amizade, dos afectos, dos livros, da vida. O corpo vai resistindo, mas a mente cede lentamente à pressão. E, querendo apenas sobreviver um dia mais, recorro a tudo o que permita aguentar um pouco mais: seja uma tábua de martelar, ou um livro de colorir. O que importa mesmo é resistir.