Penso que é normal ter objectos em casa que não notamos. Podemos usá-los todos os dias, mas nunca irão ser os nossos objectos preferidos. Muitos têm o seu quê de anónimo, sem serem arquétipos, o que os esconde numa multidão.

“Working on furniture” de Bruno Carvalho, na exposição Process no Arquivo 237.

“Working on Furniture”, de Bruno Carvalho, na exposição Process no Arquivo 237.

Há alguns projectos que exploram atentamente este fenómeno. Desta normalidade anónima surgem inquietações no processo criativo. Lembro bem de conhecer um projecto do Bruno Carvalho que explorava isto mesmo. Apresentando-se numa das primeiras exposições do Arquivo237, sob o tema de Process, o banco exposto contava esta descontextualização, partindo da obra até a um espaço expositivo. Esta transferência foi tornada evidente através da pintura do banco\escada.

A origem deste projecto do Bruno Carvalho, Working on Furniture, vem especificamente do mobiliário de obra. Do aparente descuido com que são produzidos torna-se evidente o apreço que os seus fazedores por eles têm. Feitos quase do nada, restos de cofragens e vedações, estes são simplesmente pregados. Usados, maltratados, arranjados, são feitos por pessoas que não têm formação em mobiliário mas que são fazedores natos.

É impossível não traçar um paralelo com um projecto tão importante como polémico, dada a sua estratégia de venda, intitulado Autoprogettazione, de Enzo Mari.

Autoprogettazione, Enzo Mari, 1974

Autoprogettazione, Enzo Mari, 1974

Com uma lógica muito DIY, Enzo Mari propõe um plano para fazer uma cadeira, primeiramente. Como instruções de montar Lego, são precisas x tábuas e x pregos, com as suas características. O utilizador depois prega-o. Fá-lo. Qualquer um o pode fazer, comprando-o ou não. É a ideia de cadeira acessível que persiste.

Tenho andado a postar no Instagram alguns exemplos de objectos anónimos que vou encontrando por aí, colocados sob a efígie #nodesign. Tenho vindo a observar que há muitas coisas feitas. Sim, feitas, não pensadas. Sobretudo bancos, cadeiras ou ferramentas encontradas na rua. São coisas que podia ter sido eu ou tu a fazer. Coisas simples e ainda assim expressivas que mantêm o elemento funcional estritamente no mínimo. Coisas que não dão trabalho a fazer, aparentemente. Directas, mas que resistem ao passar do tempo.

Cadeira/Banco c/ costas, Sertã

Cadeira/Banco c/ costas, Sertã


Maço, Leiria

Maço, Leiria

Isto leva-me a pensar quanto tempo às vezes demora pôr um produto numa prateleira, já que nestes exemplos se vive do imediato. Fazem-se duas ou três operações de transformação da matéria e obtém-se um objecto funcional. Um produto.

Quanto trabalho não dá desenhar algo para uma produção industrial? Porque não nos limitamos apenas a fazer coisas? Desenhá-las tudo bem, mas deixar para o fazer a maior parte das decisões de projecto que têm de ser tomadas. Partir para a execução com premissas base, como material e ferramentas disponíveis, e deixar a serendipidade e o sentido de ocasião levar-nos.

Tenho andado a praticar mais e mais este modo de fazer, e começo a acreditar que é preciso, inesperadamente, prática. Prática para de uma forma situacionista trocar o espectáculo pela verdade. Procurar a verdade das coisas feitas, ao invés de a vender através de coisas fabricadas. De uma forma figurativa e literal, esta fabricação do mundo material sucumbe à necessidade humana de provisão e planeamento/execução.

O projecto do imediato é somente a constatação de que pensar demasiado promove a ataraxia do complexo.