E não é que já lá vão 7 meses de viagem? Jasus, as voltas que esta viagem já deu. Nunca planeamos nada, nunca damos muita importância ao dia de amanhã. Aqui andamos nós num pedaço de terra, tão longe de casa que até perdemos a noção. Sentimo-nos livres, leves e completamente apaixonados por este mundo. Somos uns felizardos por estarmos a viver a vida como a queremos viver.

Sentimo-nos orgulhosos por tudo: por sermos capazes de nos adaptarmos às diferentes situações, por vivermos diferentes modos de vida, por aceitarmos sempre todas as tarefas que nos foram propondo, por termos sido acima de tudo capazes de ir atrás daquilo que queríamos. Temos aprendido tanto, sabemos já fazer tanta coisa, que antes nos passava completamente ao lado, só porque não tínhamos tempo para lhes dedicar. Hoje podemos dizer que sabemos fazer camas de hotel como ninguém, que o cocó de vaca não é nojento, mas sim um bom fertilizante, que o cimento queima as mãos mas o trabalho fica com um melhor acabamento.

É incrível como o ser humano se adapta a tudo: se tivermos a mente para aí virada, a coragem e a força automaticamente correspondem. Psicologicamente, este modo de vida é um bom teste às nossas capacidades. Agora encaramos as coisas como desafios e mesmo os problemas parecem que já não ganham aquela dimensão, se calhar porque estamos livres de pressões, ou porque temos tempo para os resolver; se calhar porque também mesmo nós já estamos diferentes e enfrentamos as coisas com outros olhos. Sentimo-nos mais completos, mais ricos, mais preocupados com o ambiente, menos consumistas. Não, ainda não temos rastas no cabelo, nem fumamos broas, nem tão-pouco somos vegetarianos (apesar de, por força das circunstâncias, o sermos cada vez mais).

lolitos_39

Uma das coisas que tivemos de aprender foi a andar de mota


lolitos_42

De espírito livre, celebramos a vida todos os dias

O balanço destes 7 meses é mais do que positivo. Estamos mesmo felizes por estarmos a viver tanta coisa. A viagem está a correr bem, quer por sorte ou por karma, tudo tem sido espectacularmente bom. Tirando a parte em que o Ricardo é burlado, está-se bem. A última foi em cerca de 50€ numa casota de câmbio toda chunga: ele ainda veio dizer-me, todo contente, que tinha conseguido a melhor taxa de câmbio das redondezas. Passados dois dias apercebeu-se de que afinal… tinha sido roubado. Faz parte. É bom para aprendermos.

A boa nova depois de tantos meses com as mochilas às costas é que vamos partir para mais uma aventura. O lugar já o conhecemos bem, sabemos as dificuldades que enfrentamos, mas também sabemos que esta é a experiência das nossas vidas e não queremos por nada dizer não às oportunidades. O Ricardo vai abraçar um projecto de um ano na área de formação dele [Engenharia Civil], em Timor. Continuamos fortes e cheios de confiança para levar este “Arranca e não faças pó” para o maior desafio de sempre das nossas vidas.

Para trás fica o desejo de voltar à Austrália. Muita coisa ficou por explorar, até mesmo as principais cidades como a grande Sidney. O sonho da Nova Zelândia esteve a um passo de se concretizar, mas ainda não foi desta.

Que grande reviravolta. Esta viagem que era para ter terminado em Fevereiro e agora parece é que não tem fim. Continuamos sem saber bem o que estamos a fazer, tal como quando decidimos arrancar sem pensar muito. Apenas pensamos que vamos ter uma experiência de vida mais duradoura do que estávamos à espera e do que estava alinhavado. Esta viagem já nos deu tanto, já nos mostrou e abriu os horizontes… muita coisa já vivemos e queremos continuar a viver, seja o tempo que for, enquanto nos sentirmos confortáveis com esta vida havemos de continuar. Bem, mas o facto de estarmos constantemente com novos objectivos, novos rumos e de conhecermos novas pessoas e novos locais, faz com que a visita a Leiria esteja sempre a ser adiada. Mas uma coisa posso garantir: por muitos sítios em que passe, não há como LEIRIA, não há como a minha Praia da Vieira. Mas sobre essa saudade um dia dará para escrever um artigo.

lolitos_40

Um dos eventos mais importantes em Bali é o funeral de um membro da família real


lolitos_41

Membros da família real balinesa

Vá, mudando de assunto: já que a nossa boa vida ia acabar, depois da Austrália passámos uns dias em Bali para uma escapadinha zen. Bali já está para nós como nosso refúgio: é o carregador de baterias, tudo por lá já nos é familiar. Já só vamos aos sítios que gostamos, já sabemos onde queremos ficar, onde ir e há um, que nos faz voltar as vezes que forem precisas: Ubud. Bem no centro da ilha, esta vila com uma envolvência natural típica de um sítio tropical proporcionou-nos mais uma vez bons momentos. Apesar de ser um lugar frenético de turistas é ao mesmo tempo um lugar muito espiritual, que consegue oferecer a paz e a calma àqueles que a procuram. Mesmo sendo já a quarta vez que vamos a Bali, estes dias foram vividos como se tivesse sido a primeira.

Descobrimos novos recantos, presenciámos um dos eventos mais importantes da ilha: o funeral de um membro da família real. Uma das grandes diferenças culturais entre nós e os balineses é que a morte é celebrada como um acontecimento de festa. É a última homenagem que a família presta ao defunto e essa homenagem não é passar o dia a chorar, mas sim celebrar com alegria a sua pessoa. Uma vez que neste caso a morte foi de um membro da família real, estes não se pouparam em mostrar a sua grandeza e riqueza, organizando um desfile com grandes andores coloridos e o principal, onde vai o defunto, é o mais majestoso, muito colorido e com talhas em ouro. É também o mais alto (os balineses têm essa fixação de que quanto mais próximos do céu estiverem mais se aproximam dos seus deuses). Toda a população participa na procissão e, como Bali é hiperturística, até nós podemos participar. Ao som de batuques e instrumentos de metal, os andores percorrem as ruas. No final do desfile há uma última reza e depois procede-se ao crematório dos andores e do defunto. São milhares de pessoas a assistir.

Toda esta experiência fez com que Bali voltasse a ficar, mais uma vez, na nossa memória como um dos melhores momentos da nossa viagem.

Para já é isto. Vão ficando atentos que isto de viver e trabalhar em Timor promete bons artigos. Grande abraço a todos os que nos lêem e um muito obrigado por todas as mensagens de apoio.