Na rubrica Fora de Cena, com um formato quinzenal, pretendemos conhecer o percurso de alguns actores que fazem do palco a sua vida, olhando-os para além das personagens que vestem. É sobre teatro que aqui falamos, mas o que queremos mesmo é ouvir as histórias reais, onde cada um se apresenta ao vivo e a (muitas) cores.

O senhor que se segue chama-se Carlos Faria e foi um dos fundadores do TASE – Teatro de Animação de Santa Eufémia. Vejam o que nos disse.

Conta-nos a tua história, o que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso?
A minha ida e o meu gosto pelo teatro advêm do meu tempo de adolescente. A minha primeira atuação “a sério” – A guerra – um sermão do Padre António Vieira, decorreu no Seminário Diocesano de Leiria, com encenador (Dr. Pascoal), aos treze anos. Antes disso, entre amigos, fazíamos várias brincadeiras. A partir dos dezasseis ou dezassete anos, em Santa Eufémia, umas vezes sob a alçada/direcção do Padre Joaquim Duarte Pedrosa, outras vezes não (só com as miúdas), acentuou-se o gosto de representar e desde então nunca mais parou. Aliás, tive umas férias de cinco ou seis anos, na década de 80 (porque será que foi? O casamento!!!). Mas como o “bichinho” continuava sempre vivo e a mexer, depois dessas férias recomecei e a partir daí nunca mais parei. Encenávamos e apresentávamos uma peça por ano, normalmente as comédias clássicas (A Maluquinha de Arroios, O Vizinho do Lado, O Vizinho do Rés do Chão, O Santo de ao Pé da Porta, O Pinto Calçudo, etc.) até que em 2004 tudo mudou… Cinco malucos pelo teatro (eu e mais quatro colegas) fundámos o TASE – Teatro de Animação de Santa Eufémia e desde então tem sido tudo muito alucinante. Em muitos momentos sinto que estou a levitar.

Na tua opinião, qual o valor do teatro relativamente a outras artes?
O teatro vale, acima de tudo, por ser um trabalho de equipa. O teatro é a arte da repetição. Ao contrário do cinema, cada representação de teatro é espectáculo novo, um espectáculo diferente do anterior e seguramente do próximo, pois cada espectáculo depende da conjugação do estado de espírito de cada actor, da inspiração do momento, da capacidade do improviso, do palco, do público que estiver a assistir, das condições técnicas do espaço, etc. Mas quem gosta do teatro normalmente também tem sensibilidade, coração, olhos e mãos de “artista” para as outras artes. Embora eu também goste muito de pintar (óleo e acrílico) e tenha um enorme prazer em fazê-lo, porque adoro os momentos solitários que a pintura me oferece, para mim a pintura não é a mesma coisa. O teatro em relação às outras artes tem uma coisa que as outras não têm: os aplausos ou os silêncios da plateia que avaliam no momento a nossa prestação em palco. Por isso gosto mais das tábuas do palco do que do ateliê de pintura.

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Se pudesses ir buscar características a personagens que já interpretaste, quais seriam?
O Cavalheiro de Negro (o diabo) na Barca sem Pescador, de Alejandro Casona. Este personagem tem o poder de provocar o remorso e fazer abanar a consciência dos poderosos que não olham a meios para atingir os seus objectivos, nem que, para eles, seja necessário matar/aniquilar inocentes indefesos. O Marreta na Lã e a Neve, de Ferreira de Castro. Um anarca, um esperantista que acredita numa sociedade mais justa, harmoniosa, sem classes, e que um dia haverá paz do mundo para sempre e tudo faz para transmitir esse ideal aos que o rodeiam, principalmente aos mais novos, de que vale a pena lutar por esse ideal e que nunca devem perder a esperança no futuro.

Como costumas lidar com as críticas?
Estou sempre muito atento a elas. Com elas aprende-se muito. São uma oportunidade para corrigirmos posturas, tiques, etc. Embora às vezes sejam difíceis de ouvir. O mais importante ainda é saber de onde vêm e de quem as faz. Mas procuro estar sempre muito atento e ver o lado pedagógico e formativo que elas nos oferecem.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
Há muitos anos, em Santa Eufémia, num palco velho que existia na antiga igreja já demolida, na representação da peça Frei Luís de Sousa, quando se simulou o incêndio do palácio na sala dos retratos, através de uns archotes embebidos em petróleo que se apagariam depois numas latas com água, o palco e as bambolinas começaram a arder. Apesar da nossa aflição, o que tornou a cena mais real, conseguimos dominar o fogo e a coisa resolveu-se. Nessa peça fiz o papel de Romeiro.

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
Os principais desafios são sempre as novas propostas, por vezes difíceis, que nos vão colocando, com muita frequência e às quais, por regra, nunca consigo dizer que não, porque também me dão sempre “muita pica”. Ao invés, os entraves, o que me aborrece mais, são alguns membros do grupo (poucos, felizmente! Os resistentes à mudança e que não gostam de sair da sua zona de conforto) que colocam sempre muita dificuldade e nos aconselham a não aceitar porque “isso dá muito trabalho e não vamos conseguir”. Mas com a minha persistência e resiliência (eu diria mesmo com a minha teimosia e mau feitio) normalmente consegue convencer-se o grupo (a equipa) a aceitar os trabalhos mais arrojados.

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Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
Eu acho que o teatro, o teatro amador em particular, nunca vai morrer. Na minha opinião, o teatro tem tendência a enfraquecer quando a economia do país está em alta, quando há muito dinheiro, porque as pessoas procuram outras coisas (mais caras) – grandes férias, viagens, festas, automóveis, etc.., mas quando a crise aperta, as pessoas, em alternativa, viram-se para estas coisas das artes, ao que está mais acessível, e muitas delas acabam por aderir e interessar-se, para sempre, pelas artes e pelo teatro. É caso para dizer que para o teatro quanto mais crise política, económica e financeira houver, melhor.

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Admiro vários, por razões diferentes: Ruy de Carvalho, Maria do Céu Guerra, Nicolau Breyner, entre outros. Entre nós, por Leiria, admiro o trabalho do Pedro Oliveira d’O Nariz.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Se possível, ficar em silêncio e só, durante 10 ou 15 minutos, beber bastante água e depois, claro, ir várias vezes ao urinol.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver? 
Sei lá!!! Várias!!! O Guardião do Rio, da Palmilha Dentada, Ibéria e 1325 dos Peripécia.