A Yanna e o Doug cresceram e estudaram na cidade de Nova Iorque, mas a vida encaminhou-os para campo e encantaram-se pelo mundo natural. Quando começaram a sonhar com um futuro juntos decidiram que queriam viver uma vida simples, por escolha e não por necessidade.

Há 25 anos que vivem juntos na Carolina do Norte, perto de Asheville, num dos sítios com maior biodiversidade da América do Norte. Vivem em harmonia com a Natureza e obtêm a maior parte dos recursos que necessitam (alimentos, fibras, água, medicamentos, etc.) do seu terreno. Um casal extraordinário que me ensinou que quando escolhemos viver com pouco apercebemo-nos da abundância que nos rodeia.

Não lhe chamam permacultura, mas é como se fosse
Tive a sorte de conhecer o Todd, o filho da Yanna e do Doug, na Austrália. Um rapaz novo e cheio de vida, com conhecimentos de ecologia, biologia e micologia impressionantes. Quando ele me falou da forma como foi criado e do modo sustentável como os pais dele viviam fiquei entusiasmada em incluir o projecto deles na minha pesquisa. Tive a sorte de eles aceitarem. Não costumam receber woofers e também não estão no circuito de projectos de permacultura. Na realidade, nunca estudaram permacultura, mas eu descobri que utilizam a maior parte dos seus princípios de forma intuitiva. É o resultado de muitos anos de observação e interacção com os sistemas naturais que os rodeiam. A permacultura é senso-comum para quem vive da terra e em grande proximidade com a natureza. Os pais da permacultura, Bill Mollison e David Holmgren, quando criaram o conceito inspiraram-se em práticas agrícolas antigas e modos de vida tradicionais sustentáveis.

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Eu, o Doug, o Todd e a Kelsey


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Água da nascente a 20 metros da cozinha. Que luxo!


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Policulturas em rotatividade. Ao fundo, uma pilha de composto

Aprender com quem sabe, aprender fazendo
A Yanna, criada em Nova Iorque e licenciada em estudos antigos, aprendeu agricultura na Grécia, com uma família de camponeses com quem viveu um ano. Também na Grécia, aprendeu várias outras artes e ofícios tradicionais com os locais, na maioria pessoas idosas e iliteratas, que lhe deram a descobrir várias paixões. Ao todo, viajou durante 10 anos e foi tendo vários mentores em diversas áreas. Uma delas olaria, que anos mais tarde se tornou um ganha-pão. Quando sentiu que era tempo de assentar, a Yanna procurou um terreno onde pudesse estar em contacto com a Natureza, continuar a aprender com os mais velhos e viver um estilo de vida semelhante ao que tinha experimentado na Grécia rural.

O Doug é apaixonado pelo mundo natural desde criança e, depois de ter tirado o curso de artes, resolveu dedicar-se à exploração e compreensão da Natureza, aliando ambas as paixões através da ilustração, dos contos criativos e do artesanato. Ao longo dos anos tem escrito vários livros sobre animais, plantas, fungos e a relação dos humanos com a Natureza. E dá vários workshops de diversos temas, incluindo forraging, ou seja, procurar alimentos selvagens na Natureza.
Aqui um vídeo interessante sobre a vida do Doug, da Yanna e do Todd

Trabalhar com a Natureza
A horta da Yanna produz uma grande diversidade de legumes que alimentam a família durante todo o ano. Sendo uma entusiasta da agricultura biológica, a Yanna sabe que é uma grande mais-valia trabalhar com a Natureza em vez de contra ela e tem diversas estratégias para o fazer. Para fertilizar a terra tem pilhas de composto espalhadas pelos vários cantos da horta, utiliza estrume das suas galinhas e estrume de cavalo de um criador da região. E também semeia plantas fixadoras de azoto, como ervilhas, favas e feijão em zonas diferentes da horta, consoante a rotatividade das culturas de cada ano. Como um dos lemas é aproveitar tudo o que as plantas nos dão, depois da colheita das ervilhas apanham-se os rebentos tenros e as flores da planta, que são uma delícia nas saladas.

Todas as plantas são bem-vindas na horta da Yanna. Às ervas daninhas ela chama plantas voluntárias (que eu achei o máximo) e caso estas não estejam a competir com as outras culturas, ela deixa-as ficar. Sabe que todas as plantas desempenham alguma função ecológica e prefere pesquisar (em textos e artigos científicos) o porquê da presença das voluntárias para as poder utilizar, em vez de as erradicar. Outra das estratégias que a Yanna tem é semear flores um pouco por toda a horta. Flores que atraiam insectos polinizadores e insectos benéficos no controlo de pragas.

Há anos que começou a guardar sementes de algumas variedades tradicionais de hortícolas, porque não quer que estas desapareçam se ninguém o fizer. Hoje tem dezenas de variedades de tomate, feijão, milho, batata-doce, entre outras. É conhecida como a “rainha da batata-doce” e eu posso confirmar porquê. Nunca vi tanta variedade de batata-doce na vida e nunca provei batata-doce tão boa.

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Uma casa no meio da Natureza


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Artesanato do Doug, malas feitas com casca de árvore


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Corredores de flores entre as culturas atraem insectos benéficos e baralham as pestes

Alimentação de qualidade
Passar 10 dias com a Yanna foi uma experiência e tanto. Uma aprendizagem a vários níveis e uma grande fonte de inspiração. Aquele sentimento de “quando for grande quero viver como ela”, sabem? Foi desafiante, porque ela tem uma energia inesgotável, mas foi principalmente um prazer poder ajudá-la nas suas muitas tarefas e aprender fazendo.

O dia começa cedo na cozinha. A Yanna faz pão fresco, coze batata-doce (o snack favorito da família e dos cães), vai buscar água à fonte (a dez passos da cozinha e a melhor água que eu já bebi), faz chá com as suas várias ervas medicinais, dá de comer ao novo passarinho que está a ajudar a criar, colhe cogumelos shitake, e outras coisas mais.

“Divirto-me mais no jardim”, confessa ela, deserta para deixar a cozinha e ir brincar com a terra e com as plantas. “Mas é importante lembrar que produzimos comida para nos alimentarmos bem e por isso é importante prepará-la”. Para além da preparação diária, na altura das colheitas a Yanna processa grande parte da comida, de forma a prolongar a sua utilização. O desidratador de alimentos e a panela de pressão para as conservas são duas das formas de conservação que mais utiliza. A despensa da casa é impressionante. São frascos e frascos com dezenas de variedades de feijão, milho, tomate, pimento, batata-doce, cogumelos secos, chás, etc. Tudo tão saboroso, tão nutritivo, tão saudável.

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A dispensa da Yanna com comida para o ano inteiro e mais ainda


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Rebentos e flores da planta da ervilha


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Colheita matinal de cogumelos shitake. Mnham!

A diversidade e a qualidade dos alimentos que a Yanna produz e processa fez-me repensar as minhas prioridades de vida e constatar que uma das coisas mais importantes que posso fazer por mim e pela minha família é proporcionar-nos uma boa alimentação. O mesmo se aplica à água que bebemos. Já viram o luxo que é ter uma nascente de água doce à porta? Beber aquela água revitaliza qualquer pessoa. Bem diferente da água com cloro e outros químicos que se bebe diariamente nas cidades. Acredito (e sinto na pele) que somos o que comemos e bebemos, e são cada vez mais os estudos científicos que o comprovam.

Na realidade, passar uma temporada com a Yanna, o Doug e o Todd fez-me repensar a vida em geral, repensar aquilo que eu mais valorizo na vida e o que quero oferecer à minha família no futuro. Valorizo produzir alimentos saudáveis e providenciar água de qualidade. Valorizo estar em contacto diário com a Natureza. Valorizo ter tempo para fazer o que me entusiasma e estar com aqueles que amo. Valorizo ser livre para decidir o rumo da minha vida. Valorizo partilhar o que tenho a mais com quem me rodeia. E valorizo viver em simplicidade.

Obrigada, Yanna, Doug e Todd, por me mostrarem que é possível viver de forma simples por escolha e ser muito feliz!