Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Carla Pinto Coelho
Ilustração: João Pedro Coutinho

Um homem acorda e tudo o que tem vontade de fazer é continuar a dormir. Um homem ouve o despertador e sabe que o mundo o chama, mas esse mesmo homem não quer ter de sair da cama. Começa o combate diário entre a razão e a vontade. A razão ganha, não sem luta, não sem sequelas – a vontade não se deixa vencer às primeiras. Este homem tem agora a dura tarefa de se levantar, abrir os olhos por inteiro e dar um passo na direcção da água quente do chuveiro, que o acordará de vez. Assim faz este homem, com os ombros caídos e as pernas bambas, à procura de motivos para encarar o presente rotineiro dos dias.

Este homem chama-se Octaviano Mercês e tem morada no lado direito de um quinto andar, num prédio antigo de uma rua ainda mais antiga da velha Lisboa. Este homem não teria em si nada de extraordinário, não fosse pelo simples e aparentemente inútil facto de estar vivo.

Sai todos os dias de casa a horas de apanhar o autocarro que o levará directo ao local de trabalho, onde exerce a sua profissão com valentia e uma massiva dose de indiferença aos males alheios. Sentaram-no atrás de uma coluna, numa mesa de lata creme como tantas outras mesas de lata creme, numa cadeira hirta como tantas outras cadeiras hirtas, com um computador à frente, encardido como tantos outros computadores encardidos pelo uso e a má limpeza das repartições públicas. A sua função é informar, mesmo quando ele é o primeiro a não saber. Informa sobre mudanças de residência, maternidades e prestações por morte, informa sobre contribuições e lamentações gerais, recebe documentos, ofícios, pedidos e reclamações, muitas reclamações, a maior parte oficiosas e odientas, que ninguém se atreve a escrever no Livro Amarelo.

À hora de almoço, é na Dona Carolina que repasta. Ainda é um lugar familiar, um pequeno restaurante em que todos se inteiram da vida alheia, sem maldade, só com a curiosidade natural de saber se o outro anda ou desanda. A comida é boa, o preço acessível, o vinho já teve melhor cor, mas Octaviano é homem de poucas queixas. Já lhe bastam as que lhe entopem os ouvidos das nove às seis, cinco dias por semana.

Octaviano volta a casa todos os finais de dia, como em todos os dias, depois de uma corrida até ao autocarro apinhado que passa a desoras. Todos os dias, arruma a casa que mantém impecável e austera, bebe religiosamente um chá de limão com quatro bolachas de manteiga ao lanche e um chá de camomila com três bolachas de manteiga antes de deitar. Senta-se em frente à televisão durante uma hora e deita-se com vontade de esquecer as lamentações e as crises de raiva e lágrimas que lhe continuam a ecoar nos ouvidos, mesmo quando sobe o volume do telejornal.

Octaviano deita-se. Tudo o que tem vontade é dormir sem hora de acordar.