Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Nesta rubrica a Preguiça recorda o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Diz-se que algumas pessoas parecem invisíveis, mas certos monumentos também. Este é daqueles que todos os dias passam despercebidos, e tem estado condenado ao esquecimento, apesar de homenagear uma figura maior do cristianismo – um boémio que acabou santificado. Com certeza já ali passaram centenas de vezes, no percurso entre a Avenida Marquês de Pombal, ou o Bairro dos Capuchos, e o centro histórico de Leiria. E se repararam no baixo-relevo enfiado entre a Rua de Alcobaça e a Rua dos Mártires, no Largo da Portela, arriscamos que nem o mais fugaz dos vossos pensamentos lhe dirigiram. Até hoje. Vamos lá corrigir tamanha injustiça, que o Leiria para Totós desta semana até consta como património referenciado no Plano Director Municipal.

Ninguém lhe conhece o autor, mas não é por isso que deixa de ter nome: Padrão de S. Francisco. E está ali, naquele lugar, há 67 anos, vejam bem. Conseguimos imaginar a quantidade de gente que espera uma boleia, um amigo para almoçar, uma palavra ou duas durante a conversa de circunstância, sem saber o porquê daquele recanto ajardinado. Como nós próprios na Preguiça, antes deste artigo. Mas agora já podemos fazer de José Hermano Saraiva e escrever que o conjunto em pedra foi construído no século XVII e colocado no Convento de São Francisco, de onde saiu para o pátio interior dos Paços do Concelho, em 1910, por causa da construção da Companhia Leiriense de Moagem. Em 1949, nova transferência, para a localização actual.

1 Painel São Francisco_8

 

2 Painel São Francisco_9

Quando dizemos boémio, e nascido em berço de ouro, não pensem que estamos a exagerar. É um texto publicado no site da Diocese de Leiria-Fátima que descreve Francisco de Assis como rei da juventude, soldado intrépido e famoso animador de festas e banquetes, desejado pelas mais belas moças. Claro que tudo isto antes de mudar de vida, influenciar a Igreja Católica para sempre e inspirar Jorge Maria Bergoglio a escolher o nome Papa Francisco.

Um intervalo para contar outra história: a presença dos franciscanos em Leiria remonta há quase oitocentos anos. De acordo com a Diocese de Leiria-Fátima, os primeiros chegaram em 1232 ou 1233 e fixaram-se nos terrenos junto ao rio Lis, construindo, para o efeito, o Convento de S. Francisco. Mas, lá está, nestas coisas da religião, há sempre alguém que se chateia. É dos livros. E com a extinção das ordens religiosas em Portugal, no ano de 1834, os franciscanos só voltam à cidade em 1902. Por pouco tempo: em 1910, a implantação da República expulsa-os e nacionaliza-lhes os bens. Em condições normais, para pessoas sem fé, seria provavelmente o fim. Teimosos, mas no bom sentido, os frades que não se importam de viver sem nada regressaram em 1940. E desta vez para ficar.

Quanto ao Padrão do Largo da Portela, S. Francisco de Assis aparece representado com um hábito de estamenha, que é como quem diz lã, composto por túnica e capuz, e tem aos seus pés um prelado superior, a mitra e dois acólitos empunhando velas. Se de um lado convive com a mais recente galeria comercial da cidade, o que quase parece mal, para alguém que procurava Cristo na pobreza e humildade, do outro não podia estar melhor, tão perto do Convento da Portela, que serve de casa aos franciscanos em Leiria.

O baixo-relevo tem ainda como curiosidade o facto de se encontrar ladeado por dois brasões, com um pinheiro e um corvo. São pedras de armas provenientes do edifício onde funcionou a Câmara, na Praça Rodrigues Lobo, refere a ficha informativa do Plano Director Municipal. E apostamos uma nota em como também não sabiam esta.

Um convento por 150 mil escudos. Muito próximo do Padrão de S. Francisco, logo ali do outro lado da estrada, fica o convento da Portela, mandado construir, justamente, para albergar a Ordem de S. Francisco em Leiria. Diz uma nota no site da Diocese de Leiria-Fátima que os franciscanos conseguiram em 1944 que a Câmara lhes vendesse o edifício, e quinta anexa, por 150 mil escudos. Ou seja, 750 euros, salvaguardadas as distâncias. A obra, que tinha sido iniciada em 1903, estava parada desde a implantação da República e consequente expulsão dos franciscanos. Nacionalizado, o espaço albergou a Escola Comercial e Industrial e o Asilo Distrital. A obra só seria retomada na década de 1940 sob a orientação do arquitecto Vasco Morais Palmeiro, que aproveitou o projecto inicial, da autoria do italiano Nicola Bigaglia. A inauguração aconteceu em 1950. Actualmente, funciona ali o Postulantado, uma casa de retiros e a sede provincial da União Missionária Franciscana.