Ao passar a porta de uma dessas livrarias localizadas em centros comerciais, o primeiro obstáculo com que nos deparamos são aquelas mesas cheias de livros de tons garridos, um vermelho aqui, uma sacola com um livro e um perfume acolá, uma dieta de três dias que promete abater 30 quilos, livros onde figuram personagens Disney, e muitos outros. Lá costumam estar Nicholas Sparks, Pedro Chagas Freitas, o novo do José Rodrigues dos Santos e alguns livros assinados por senhoras de nome anglo-saxónico que figuram em capas cor-de-rosa. Ou preto, dependendo das preferências.

Alguns podiam ser usados simplesmente para atear uma fogueira no Inverno, porque creio que a Humanidade passaria muito bem sem eles e não lhes vejo outra utilidade que não essa. Mas se há livros para todos os gostos, também há leitores de todos os géneros. Ou talvez não.

Há dias, encontrei um artigo sobre “weeding libraries”, um processo que desconhecia por inteiro: o acto de remover as ervas daninhas do espólio de uma biblioteca para que esta possa continuar a crescer. As bibliotecas públicas norte-americanas recorrem a ele para expulsar títulos obsoletos, livros técnicos desactualizados, ou apenas ridículos (Be Bold with Bananas ou Should a Therapist Have Intercourse with Patients? eram dois dos exemplos), porque é importante seleccionar e não deixar que a biblioteca se transforme num depósito digno de um acumulador compulsivo.

Os exemplos dados por duas bibliotecárias no blogue Awful Library Books são bastante claros quanto à escolha dos títulos. E levaram-me a reflectir sobre a importância de escolher. Quando as fontes são tão diversas, há tantos autores disponíveis e muito mais livros publicados, seleccionar é imperativo.

Uma das poucas certezas que tenho na vida, para além da morte e dos impostos, é que, independentemente do tempo de vida que ainda tenha disponível, sei que não conseguirei ler todos os livros que gostava de ler nesse período. No entanto, admito que ainda não estou preparada para lidar com essa pressão temporal. Por ora, quero guardar em mim a ilusão de que terei tempo para ler todos os volumes de Em Busca do Tempo Perdido e até O Homem sem Qualidades. Mas a realidade afigura-se diferente e tenho sérias dúvidas sobre se isso alguma vez chegará a acontecer. Mas, considerando que tenho um tempo de vida limitado, sou obrigada a escolher. Logo eu que sou uma hate-reader, uma daquelas pessoas que mesmo que esteja a odiar o que está a ler, continua até ao fim, nem que seja só para depois poder dizer porque acho o livro mau. Nunca deixo um livro a meio, mas finalmente, aos 31, percebi que tenho de tomar medidas, ser uma pessoa adulta e seleccionar o que leio.

Fora com os livros da moda que suspeito detestar e que queria ler para poder falar mal com conhecimento de causa; fora com os livros que aborreçam de morte para além das 100 páginas iniciais; adeus monografias, livros de auto-ajuda e biografias de pessoas que desconheço mas que dizem que vão mudar a minha vida… e até nunca a alguns dos clássicos-que-devemos-ler-antes-de-morrer-mas-que-sei-que-não-lerei-porque-a-vida-é-curta-demais-para-tantos-volumes-de-uma-só-história-e-eu-ainda-queria-ter-um-pouco-de-vida-própria-antes-de-falecer.

Mas talvez o melhor mesmo seja ler como tenho vivido até agora: tentando ler o que gosto, enquanto procuro novos títulos que aprecie e sem pensar demasiado no que vem a seguir. Esta parece-me a escolha certa.