Tiago Santos (na foto de cima, a ser entrevistado por uma rede noticiosa), um marinhense que vive no Algarve, não é só doido por bola como a vive muito intensamente. Vai daí, rumou a Inglaterra com alguns amigos, e contou à Preguiça os momentos históricos vividos por um clube pequeno que se atreveu a ganhar o campeonato inglês de futebol.

Antes de mais, um ponto prévio: gostamos de futebol. Muitos de nós já jogaram CM (ou FM) – o simulador mais famoso de futebol mundial onde és o treinador e levas a tua equipa à glória – até serem campeões europeus com o clube da terra, acompanhamos normalmente qualquer jogo da Liga Inglesa que dê às 12h30 de um sábado qualquer, alguns de nós conseguem dizer o onze base do Tondela no último campeonato, etc. E acreditamos que há muitos outros como nós por aí.

Jogamos Fantasy Premier League (tipo a Liga Record, mas do campeonato inglês, feito pela EASPORTS, os meninos que criaram o FIFA) há já uns cinco/seis anos e foi aí que conhecemos o Michu, o Kane, o Sterling e este ano o Mahrez, o VArdy e o Kanté e daí veio o interesse ainda maior sobre a Liga Inglesa.

O que o Leicester fez é algo incrível. Ganhar uma Liga onde tens o 4º orçamento mais pequeno entre os clubes concorrentes, jogando contra Chelsea, Man United, City, Liverpool ou Arsenal, parecia impossível (e as casas de apostas inglesas “diziam” isso ao dar odds de 1/5000 no início da temporada para eles conquistarem o troféu). Eles fizeram história e nós quisemos estar presentes nessa história. Posto isto, vamos ao importante: a viagem e a festa.

Moramos no Algarve e marcámos a viagem cerca de um mês antes do jogo com o Everton (7 de Maio), mesmo ainda não sabendo se eles seriam ou não campeões. Contávamos que esse fosse o jogo do título, mas se já tivesse ganhado nessa altura também não faria muita diferença. No início éramos 2 ou 3, e acabámos por ir 10 amigos para Inglaterra.

A malta portuguesa que viajou do Algarve para se juntar à festa

A malta portuguesa que viajou do Algarve para se juntar à festa

Pagámos cerca de 60€ pela viagem de avião ida-e-volta de Faro até ao aeroporto de East Midlands (que fica a uns 30 quilómetros de Leicester, onde apanhámos um autocarro por 6 libras), e mais 60€ por dois dias numa pensão de Leicester, com o famoso english breakfast incluído. Não era nenhum luxo, mas já dormi em piores e a pagar mais.

A cidade é a 10ª maior de Inglaterra e tem cerca de 350 mil habitantes, onde “apenas” 45% de ingleses são nativos, o que dá uma mistura de raças e povos impressionante. Ao chegar notava-se a energia que pairava na cidade, toda decorada de azul, havia t-shirts do clube por todo o lado (mas também vimos camisolas do Arsenal, Liverpool, etc) e parece que a cidade estava em banho-maria para a festa do dia a seguir.

Fomos dar uma volta pela cidade, e claro que descobrimos dois portugueses (estamos sempre em todo o lado) que nos fizeram sentir em casa rapidamente. Um era barman de um dos pubs mais pitorescos de Leicester e o lema dele era (e é) “Português aqui não paga”. Nós éramos 10, o resto fica à vossa imaginação.

No dia seguinte acordámos relativamente cedo, tendo em conta o que tinha sido a noite anterior, para não perdermos nada da festa. A nossa pensão ficava a cerca de 30 minutos a pé do King Power Stadium, o dia estava bom e três de nós puseram-se a andar. Lá por volta das 11 da manhã já estávamos no estádio (o jogo era por volta das 17h) e já estavam largas centenas de pessoas à volta dele.

Havia gente do mundo inteiro, mas quem se destacava claramente eram os italianos. Cerca de 2000(!) invadiram a cidade completamente, de autocarro, carro, avião, etc. Tal como nós, não tinham bilhete (no mercado negro tentaram-nos vender um bilhete por valores entre 150 a 400 libras) e vieram para mostrar o seu apoio ao treinador do Leicester, Claudio Ranieri.

Para se ter uma ideia, o bilhete de temporada para ver os jogos do Leicester em casa rondava as 500 libras (700€) ,o que para o poder de compra inglês não é nada por aí além. Bandeiras e camisolas, além das italianas, havia argelinas (fãs de Slimani!), tailandesas, brasileiras, americanas, etc.

Portugueses que torcem pelo vermelho, argelinos que puxam pelo verde, aqui unidos pelo azul

Portugueses que torcem pelo vermelho, argelinos que puxam pelo verde, aqui unidos pelo azul

Fomos entrevistados para a Marca, ESPN Brasil, RAi UNO, uma televisão tailandesa qualquer e para a TSF.
O jornalista português ficou pasmado com a nossa história e ainda andou a beber uns copos com a malta, mas como o patronato não poderia saber, isto ficou como um segredo nosso (até ele nos espetar uma faca no peito e pôr umas fotos nossas no site da TSF onde não nos encontrávamos completamente a 100%).

A festa foi realmente brutal (quem assistiu ao jogo dentro do estádio tinha direito a pizza e cerveja de borla lá dentro, nós comíamos as chamuças oferecidas pelos indianos, e as cervejas pagas pelos italianos) que só foi interrompida durante uma meia hora com um pequeno dilúvio vindo sabe-se lá de onde.

A festa continuou até ás tantas da manhã, foi uma viagem inesquecível, e para repetir. Foi tipo um vilafranquense ou outro clube de Portugal subir de divisão na distrital onde aparece sempre o porco no espeto e o vinho tinto a rodes, mas numa dimensão mil vezes maior.