Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Jaime de Oliveira Martins
Ilustração: João Pedro Coutinho

Belo país, pacato, simpático, onde habitavam os feijões sob a batuta do seu presidente, o senhor Grão-de-bico. Não sendo um feijão, ocupava aquele lugar graças ao conformismo da maioria dos feijões, que acabaram por o aceitar. Sobretudo os Feijões-brancos e os Feijões-pretos. Ambos eram incansáveis trabalhadores que se dedicavam à agricultura, ao pequeno comércio e, na indústria, eram operários diligentes e afincados. Trabalhavam bastante, mas não enriqueciam, pelo que muitos até chegavam a fugir para outros países à procura de melhor vida. Os Feijocas-brancos, que sendo iguais aos Feijões-brancos apresentavam maior opulência, grandes barrigas e fumavam charuto, eram os donos das fábricas, dos campos e das grandes lojas onde todos os outros trabalhavam. Não eram nada condescendentes com os seus empregados. Pagavam mal, exploravam quanto podiam e apenas se preocupavam com as suas próprias barrigas.

Um dia, os Feijões-verdes, fartos de ver os seus congéneres sofrer, pegaram em armas e fizeram uma revolução! Destituíram o Grão-de-bico e os seus acólitos, para de seguida formarem uma comissão governativa, que incluía os Feijões-brancos, os Feijões-pretos e os Feijões-vermelhos, estes últimos muito activos na conquista de direitos para todos. Por exemplo, conseguiram reduzir horários de trabalho e criaram protecção social, na doença e na reforma.
Os Feijocas-brancos, os gordos que fumavam charuto ficaram muito aborrecidos por terem de partilhar os seus ganhos. O problema deles, é que assim já não podiam comprar um iate de 50 metros, mas apenas um de 30 metros, enquanto todos os outros Feijões estavam felizes por terem melhores salários, melhores condições de vida, acesso à saúde e à educação para os seus filhos.

Mas estavam também felizes, porque agora podiam escolher os seus dirigentes, através de uma votação secreta. Havia quem chamasse a este sistema “Democracia”. Durante uns anos, foram alternando liderança entre Feijões-vermelhos, Feijões-brancos, Feijões-pretos. Chegavam mesmo a coligar-se uns com os outros, a fazer acordos de governação, que umas vezes corriam bem, outras vezes não. Chegou mesmo a haver Feijões-verdes já reformados a ser eleitos para o poder. Foi um período de bem estar para a maioria dos habitantes de Feijolândia.

Até que um dia apareceram os Feijões-manteiga. Estes raramente se mostraram no tempo do Grão-de-bico, pois ele era muito severo para quem pensava diferente dele e para quem tivesse comportamentos que ele considerasse impróprios. É que estes Feijões-manteiga eram conhecidos por terem umas mãozinhas muito escorregadias, por onde escorregava muito dinheirinho. A troco de favores especiais, começaram a passar, às escondidas claro está, avultadas quantias para os Feijões que estavam no poder, que a pouco e pouco iam ficando mais comprometidos, a fazer o que os Feijões-manteiga queriam e a seguir as decisões que lhes eram impostas.

Um belo dia, quem é que aparece ao lado dos Feijões-manteiga, fumando os seus charutos e ostentando as suas grandes barrigas… Os Feijocas-brancos! Tinham regressado e vinham cheios de força, que até se candidataram a eleições! Fartaram-se de meter medo a todos os outros Feijões com a ajuda dos Feijões-manteiga e perante a passividade dos Feijões-verdes. Apenas os Feijões-vermelhos alertavam para o que se poderia a passar. Juntamente com alguns Feijões-brancos e Feijões-pretos apelavam ao voto e à consciência cívica, mas em vão, pois os Feijocas-brancos, aliados aos Feijões-manteiga ganharam mesmo as eleições, conquistando o poder pela chamada “via democrática”, engordando agora uns e outros, e mudando para uma marca de charutos mais cara.

Até os Feijões-frade, beatos de altar, que eram unha com carne com o Grão-de-bico, alertavam agora para os riscos de regresso da pobreza!

Indiferentes, os Feijocas-brancos e os seus parceiros de coligação, os Feijões-manteiga, aliviaram os impostos dos mais ricos e carregaram de impostos todos os outros. Com falinhas mansas, e sobretudo incutindo o medo, degradaram o sistema de ensino, as condições de acesso à saúde, aumentaram o horário laboral, retiraram protecção social na doença e no desemprego, diminuíram as reformas… Enfim, a Feijolândia entrou numa espiral de retrocesso dos direitos adquiridos. “Um sacrifício necessário para a prosperidade!” Diziam eles, esfumaçando os seus charutos e expelindo bolinhas de fumo com que cegavam os restantes feijões.

A vida continuava a sorrir para os Feijocas-brancos e Feijões-manteiga. Todos cada vez mais gordos. Todos cada vez mais ricos. Alguns mudaram-se mesmo para ilhas paradisíacas…

E os Feijões-brancos, os Feijões-pretos, os Feijões-vermelhos queixavam-se amargamente da sua sorte, pediam melhores condições, ao que os gordos Feijocas, de charuto ao canto da boca respondiam: “Emigrem, se não estão bem!”

Todos os Feijões, brancos, pretos, ou vermelhos, sofriam na pele as agruras do despotismo que os gordos exerciam. Mas, estranhamente, ainda que sofrendo, entregaram-se a uma tal apatia e distanciamento com a causa pública, que nem sequer participavam nas eleições… mais de metade não votava e os que votavam davam sucessivas vitórias aos seus próprios carcereiros que continuavam com a delapidação da cada vez mais pobre Feijolândia.

Ninguém conseguiu ainda perceber como evoluirá esta história, pois os Feijões-manteiga andam por aí, e os Feijocas-brancos estão mais gordos do que nunca…

“Valha-nos Deus!” Remata o expedito Feijão-frade do alto do seu altar. “Não vale o aborrecimento! Qualquer coincidência com a realidade é pura semelhança! Isto afinal é tudo a feijões!”