Deixem-me dizer-vos: todos nós devíamos ter um ficheiro com vidas substitutas. Existências de reserva, planos de fuga instantâneos, prontos a activar no primeiro dia divergente de todos os outros, como, por exemplo, administrar uma pequena unidade de alojamento, de preferência em Reykjavík. Daí o interesse por esta reportagem e pela história da Inês Matos e do Hélio Marques, que deixaram Angola para trás e acabam de abrir o Most Art Hostel em Leiria, ali junto ao Jardim de Santo Agostinho.

Agora, não é preciso ser um génio da matemática para perceber que isto envolve riscos, sobretudo para quem não possui herança. Riscos tamanho XL. Portanto, como é que se faz? Como se viabiliza um negócio com seis quartos e 29 camas numa cidade que está para os roteiros turísticos como a selva africana para quem gosta da neve?

Bom, para começar, evitem ser proprietários. Não tentem, nem mesmo em casa. Comprar, construir e todos os verbos que implicam a expressão até que a morte nos separe. É muito cash e atira o payback do investimento para anos demasiado distantes. Custos fixos assustadores, compromissos inadiáveis. A alternativa é encontrar o espaço adequado e arrendar. Controlar as despesas, manter a coluna dos débitos em mínimos atómicos.

Depois: localização, localização, localização.  O segredo mal guardado do sector imobiliário também se aplica aqui. Do futuro só o bruxo de Fafe sabe, mas, à partida, o Most Art Hostel encontra-se em coordenadas que o recomendam: o novo Museu de Leiria, o núcleo expositivo do Moinho do Papel, o rio Lis, o circuito pedonal e ciclovia do Programa Polis, tudo isto fica ali à mão de semear, é só atravessar a estrada. E há bicicletas de aluguer, com cadeirinha de criança e tudo.

O centro histórico também está à distância de uma caminhada (600 metros até à Praça Rodrigues Lobo). E se Leiria não consegue competir com os mosteiros da Batalha e de Alcobaça, o Santuário de Fátima e o promontório da Nazaré, tem outras coisas para oferecer: uma noite intensa, dinâmica cultural, bons restaurantes, ou seja, vive-se bem na cidade, que pode muito bem ser o destino ideal para uma escapadinha de fim-de-semana. E em sintonia com esta boa onda, a Inês Matos e o Hélio Marques fazem do Most Art uma espécie de empreendimento temático, onde existe espaço para as artes. “Queremos divulgar a cultura e os artistas locais e acrescentar valor à estadia dos nossos clientes”, explicam. Há sempre exposições temporárias – neste momento, obras da pintora Sílvia Patrício, como aquele quadro na fotografia de cima – e eles querem manter uma agenda própria com concertos e outros eventos. Não deixem de observar, também, a instalação de Nuno Sousa Vieira nos corredores do Hostel, que assinala os principais pontos de interesse em Leiria, na óptica de quem visita a cidade (na foto de baixo).

Ela é natural de Vieira de Leiria, ele cresceu em Ferrel, concelho de Peniche. Sempre trabalharam em hotéis, portanto, têm o que é preciso para tocar o projecto para a frente. Coseram o negócio com camaratas, aposentos triplos e singles, e propõem dormidas desde 18 euros por pessoa (alojamento e pequeno-almoço) ou 45 euros para um casal e duas crianças acomodados no mesmo quarto (também com pequeno-almoço).

Nos últimos três anos estiveram em Angola, no Huambo, a ver o que davam as modas. Até que os mercados do petróleo entraram em modo gelatina e a economia do país se ressentiu de ponta a ponta. Ao mesmo tempo, o ambiente em Portugal parecia melhorar, pelo menos visto a oito mil quilómetros de distância. E a actividade que melhor conheciam, a crescer a olhos vistos. “Hoje em dia em Portugal o que está a dar é o turismo. Foi ouro sobre azul. Tudo o que seja vender a marca Portugal está na moda”, afirma Inês Matos.

Não era preciso mais para abandonarem Angola e regressarem à região. Depois de uns tempos sem certezas, já em Portugal, resolveram avançar. Com o público-alvo bem definido, no segmento do turismo cultural e city break, o primeiro passo seria descobrir o edifício para acolher um sonho a dois. Missão difícil, porque em Leiria, por exemplo, a maioria dos prédios com características adequadas não está disponível para arrendamento e alguns apresentam-se em muito mau estado de conservação. Encontraram-no no Largo da Artilharia, no final da Avenida Marquês de Pombal.

As obras arrancaram em Dezembro de 2015 e meio ano depois o Most Art está de portas abertas, com 4 postos de trabalho criados, sala de estar, cozinha comum, esplanada, uma pequena biblioteca onde se pratica o bookcrossing, zona de jogos e muita vontade de fazer parte do roteiro turístico e cultural de Leiria. A inauguração acontece por estes dias, ainda no mês de Junho.

Most Art Hostel
Largo da Infantaria 7, 11-A
A 600 metros da Praça Rodrigues Lobo
Capacidade: 29 camas (em camaratas, triplos e singles)
Preço mínimo: 18 euros por pessoa (alojamento em camarata e pequeno-almoço)
Na vizinhança: Museu de Leiria, Moinho de Papel, percurso Polis
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