Na rubrica Fora de Cena, com um formato quinzenal, pretendemos conhecer o percurso de alguns actores que fazem do palco a sua vida, olhando-os para além das personagens que vestem. É sobre teatro que aqui falamos, mas o que queremos mesmo é ouvir as histórias reais, onde cada um se apresenta ao vivo e a (muitas) cores.

O teatro é a arte de eleição de Gil Mónico, que está no TASE – Teatro de Animação de Santa Eufémia há décadas. Em palco já vivenciou muitas experiências e emoções. Vejamos que mais tem ele para nos contar.

Conta-nos a tua história, o que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso.
Tudo começou há cerca de 30 anos. Fui convidado a ingressar no grupo de teatro de Santa Eufémia, por convite de um grande amigo, o Carlos Faria. A primeira peça que representei foi a Casa de Pais, de Francisco Ventura. Não dá para esquecer. É um drama de cortar os fios do coração. Chorei em palco e fiz chorar. Fiquei com o bichinho do teatro a partir daí. Não mais consegui desligar. Há cerca de 12 anos fui um dos elementos que fundou a nossa associação – o TASE – Teatro de Animação de Santa Eufémia. Foi, na prática, legalizar um grupo que há décadas se dedicava ao teatro. Foi um marco, de facto. A partir daí conseguimos outro tipo de apoios, fizemos formação, em expressão dramática, com o Pedro Oliveira d’O Nariz que contribuiu imenso para o nosso enriquecimento na arte e tudo isso nos deu asas para uma actividade muito intensa, para um grupo amador. Nos últimos anos, temos feito mais de 20 espectáculos por ano, entre representações de teatro próprias e organização de outros espectáculos, com outros grupos de teatro – o que é muito significativo, em minha opinião, para um grupo amador. O teatro amador, hoje, é o meu hobby preferido. É o meu equilíbrio. É no teatro que faço a descompressão do stress de uma profissão exigente.

Na tua opinião, qual o valor do teatro relativamente a outras artes?
Acho que cada arte tem o seu espaço e o seu público-alvo. Como espectador, gosto muito de ver um bom espectáculo de teatro. Ter alguma experiência de representação permite-nos apreciar uma peça de teatro, muito para além da história, muito para além da mensagem. Apreciamos, curtimos, por isso, pormenores de encenação de uma forma diferente de muitas outras pessoas. Quanto ao cinema, é evidente que também gosto muito de cinema, é uma arte diferente, quer na sua criação, elaboração, quer nos efeitos especiais utilizados. Mas o teatro é, sem dúvida, a minha arte de eleição. Estar em palco, encarnar cada personagem e, por conseguinte, despir-nos do nosso EU, naquele momento, é uma experiência muito enriquecedora. Nunca fiz cinema, evidentemente, mas tenho a noção de que os actores não vivenciam da mesma forma o que referi atrás.

Se pudesses ir buscar características a personagens que já interpretaste, quais seriam?
Bom, é uma resposta difícil de dar. Em bom rigor, nunca pensei nisso. As características de cada personagem são de cada personagem. Eu próprio sou eu próprio. Nunca fiz uma introspecção desse tipo.

Como costumas lidar com as críticas?
Apetece-me usar a célebre frase popular: “Tem dias!” A maior parte das vezes, lido bem com as críticas. No entanto, há outras vezes que, eventualmente por serem inesperadas, não reajo propriamente mal, mas marcam-me de certa forma. Deixam-me pensativo, mas também determinado em melhorar em cada oportunidade.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
Bom, ao fim de tantos anos, foram vários os episódios imprevistos. O mais marcante para mim foi há uns anos, na representação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. A minha personagem era o Fidalgo. Estava a contracenar com um colega, ele teve uma branca e após uma pausa constrangedora de uns segundos, em que ficámos ambos calados, foi preciso improvisar, contornar o texto para o colega retomar o diálogo, o que aconteceu, sem o público se aperceber se tal facto fazia parte ou não da encenação.

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
O principal desafio para mim, nesta fase, é de facto o tempo, ou melhor, a falta dele. Conciliar a profissão, a família e o teatro, não é fácil. Somente a grande paixão que sinto pelo teatro o permite. Também tem sido extremamente importante a compreensão e o apoio dos restantes elementos do grupo, quando não consigo despender o mesmo tempo que eles em algumas tarefas directivas ou organizativas do grupo.

Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
No que se refere ao teatro amador, entendo que terá sempre o seu espaço e não tenderá a desvanecer-se, uma vez que não depende, na sua maioria, de verbas governamentais, mas sim da entrega, determinação e carolice dos apaixonados pelo teatro. Já o teatro profissional tenderá a manter algumas limitações no futuro, principalmente, enquanto vivermos em contexto de crise. As verbas governamentais tendem, por isso, a reduzir-se e é sempre mais fácil aos governantes cortar na Cultura. Entendem, erradamente, que a Cultura é um sector acessório num contexto de crise.

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Vou eleger dois: tenho em conta a excelente qualidade, a longa carreira e carisma: Ruy de Carvalho e Eunice Muñoz.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Não tenho, de facto, nenhum ritual. Pode parecer estranho, mas entrar em cena para mim é praticamente com se estivesse num ensaio.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver? 
Ibéria, dos Peripécia Teatro, sem dúvida. Adorei aquela peça e estou sempre a falar dela como um excelente exemplo de representação e de encenação. Recomendo veemente. Ainda anda por aí em itinerância.