Há rotinas que me estão entranhadas desde sempre. Sempre adorei ir a mercados tradicionais e feiras. Quando era criança cresci a ir aos sábados de manhã ao mercado da Vieira, mudei-me para Leiria e esse hábito veio comigo. Com a maior das satisfações, ao sábado levantava-me cedo para ir ao mercado dos legumes e depois ainda ia bater perna no meio dos feirantes. Mesmo saindo à sexta feira à noite, argumentava que não podia ficar até tarde porque queria ir ao mercado. Tenho testemunhas disso e é pessoal aqui da Preguiça Magazine.

Agora, aqui em Timor estou no paraíso dos mercados: há todos os dias, em todo o lado. Em qualquer bairro ou rua encontra-se sempre bancas improvisadas ou vendedores ambulantes. Díli tem vários mercados espalhados por toda a cidade, um dos mais conhecidos e tradicionais é o mercado Taibessi e é onde costumo ir. Este é um grande mercado que outrora foi marcado por violentos confrontos e destruído aquando dos conflitos em 2006. Da sua requalificação resultou um lugar coberto, com bancas para as mulheres exporem os seus produtos agrícolas e afins. Apesar de ser já um mercado mais organizado e arranjadinho, a autenticidade continua lá, até porque o povo timorense para além das bancas aproveita o chão também para colocar os seus vegetais. Se há espaço no chão, porque não aproveitá-lo?

Como podem imaginar, eu adoro vir aqui todas as semanas: é o meu momento de puro contacto com os locais. O meu gosto por mercados é sobretudo por ser nestes sítios que sinto o respirar de um povo, os seus comportamentos, a sua rotina. Para mim, Taibessi ou qualquer outro mercado é lugar de visita obrigatória em Timor. Apesar de ser um lugar mítico na cidade, pouco me cruzo com outros malae (estrangeiro na língua Tétum).

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À moda antiga, não pode falhar o belo do naperon.


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Uma típica banca timorense, com um bocadinho de tudo.


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Uma infinidade de cores e variedades de leguminosas. A venda faz-se à porção, medida com latas.

É um sítio ao qual vou sozinha sem problema nenhum. Claro que sou assediada, os meus dois olhos são pequenos para conseguir ver tantos a olhar para mim e a chamar, mas não passa disso. Um sorriso aberto e um alegre “Bom diiiiaaaa”  é o suficiente para perceberem que os vi ou ouvi.

Quando entro pelo mercado adentro e mergulho nos corredores, paro e olho à minha volta e aprecio cada cor, cada movimento, cada pessoa, cada legume. A mãe natureza consegue dar alegria, cor e sustento a um povo que carece de uma alimentação variada e rica.

Nesta altura do ano, já no fim da época das chuvas, o mercado enche-se do melhor que há nesta época: muitos tomates (de diferentes tamanhos e variedades), feijão-verde, beringelas, cenouras e muitas verduras: alfaces, folhas de mostarda, couve lombarda, agriões e couve de nabo. Há muitas e boas abóboras, batata-doce roxa, batata convencional e uns quantos tubérculos como o gengibre e o açafrão.

Tirando a banana e o coco, que há aqui ao pontapé o ano todo, nesta altura há muitas tangerinas, melancias, anonas e maracujá. Uma outra coisa que não falta o ano inteiro são malaguetas. Há uma linda variedade desta pólvora à venda em todo o lado. A zona das leguminosas também é um regalo de se ver: são alguidares cheios com diferentes cores de feijão, milho e arroz. Aqui encontro as mais bonitas variedades de arroz: arroz preto, arroz selvagem, arroz roxo, arroz vermelho, arroz vermelho claro e arroz integral. Escusado será dizer que comprei uma porção de cada… e mais houvesse.

Todos os produtos são harmoniosamente arrumados em montinhos e os produtos não se vendem ao peso mas sim à peça ou ao conjunto. As coisas não são propriamente baratas, quando comparadas com os preços a que estava habituada. Em todo o caso, é ainda no mercado que consigo comprar a preço dos locais. Havendo um ou outro timorense mais espertinho que me vende pelo preço de estrangeiro e que às vezes é um abuso o que pedem (3 tangerinas 1$).

Como em todos os mercados, as coisas estão mais ou menos organizadas. Existe a zona dos produtos agrícolas, a zona dos produtos em conserva, o “talho” (para passar por esta secção é preciso ter algum estômago), tudo se vende aqui: pão, galos, peixe e até roupa em segunda mão.

O mercado Taibessi funciona também como local de revenda. Muitos comerciantes provenientes de outras aldeias vêm aqui abastecer-se para vender nos seus mercados. Assistir a toda esta azáfama que dura o dia todo, 7 dias por semana, é uma rotina que faço geralmente às quintas-feiras. Depois vem a parte boa, que é comer estas coisas boas e inventar cozinhados com elas.