Este Verão está a ser bastante fértil em eventos desportivos. De vez em quando lá calha e há um Europeu de Futebol, este ano curiosamente no mesmo país da tradicional Volta a França em bicicleta, uma breve passagem pelos campeonatos Europeus de Atletismo e ainda vamos levar com os Jogos Olímpicos. A Preguiça foi sentir o pulso a quatro aficionados do Tour de France.

Se de bola estamos mais do que conversados, ao ponto de me pedirem para não mencionar o nome de Renato Sanches em momento algum deste artigo, caso por algum motivo viesse à baila, dá para ver bem o grau de saturação de que até o desporto-rei por vezes é alvo.

Por isso, sim, fiquem descansados que o nome de Renato Sanches não será referido neste texto. Se me pedem para não falar do Renato Sanches, eu não falo. Não sei se compreendo quem quer esquecer o Renato Sanches, mas respeito quem não quer ouvir falar do Renato Sanches. Renato Sanches, out, que é como quem diz, dossier Renato Sanches resolvido, já não está cá Renato Sanches algum. Até porque para falar de alguém seria do Rui Costa, esse grande campeão. E, sim, também há um ciclista com esse nome, igualmente brilhante.

Jorge Duarte, pessoa que se dedica ao body piercing (é ele na foto que abre o artigo), está ligado à loja Cenas no centro de Leiria. Para ele, furos só nas pessoas, pois na roda da bicicleta não lhe dá muito jeito, que ele gosta de pedalar os seus quilómetros para se manter em forma e para desfrutar desta actividade desportiva.

Jorge Duarte (Fotografia de Ricardo Graça)

Jorge Duarte (Fotografia de Ricardo Graça)

Preguiça Magazine: Preferes ver o Campeonato da Europa de Futebol ou a Volta a França em bicicleta?

Jorge Duarte: Prefiro a Volta a França.

PM: Para ti, qual é a importância do Tour?

JD: Para mim tem importância porque sendo um evento tão mediático, acho que leva algumas pessoas a começar a dar umas voltas de bicicleta. E, como se sabe, é bom para a saúde. Como também gosto de andar, fico contente quando vejo mais pessoas a praticar.

PM: Nos últimos anos, a modalidade tem sido notícia pelos piores motivos, o doping. Que comentário te oferece?

JD: O doping existe em quase todos os desportos, até no snooker se tomam cenas para a concentração, mas no ciclismo é sempre mais falado. Para mim não devia existir, mas isso é impossível. Vai haver sempre alguém que toma.

PM: Já perdoaste ao Lance Armstrong?

JD: Só fiquei um pouco desiludido com o Lance por ele ter maltratado algumas pessoas que eram da sua confiança quando estas disseram que ele se dopava. Quanto ao dopar-se… ninguém ganha a Volta a França sem doping.

PM: O que gostavas de dizer àquela malta que aparece na TV a correr em histeria atrás dos ciclistas?

JD: Até gosto de ver esses adeptos e as maluquices que fazem, faz tudo parte do grande circo que é o tour. Só alertava alguns que correm muito encostados ao ciclistas porque podem fazê-los cair e com a queda podem ficar afastados da prova.

PM: E os portugueses em prova?

JD: Claramente o Rui Costa.

PM: E já agora, quem achas que vai ganhar este Tour de France?

JD: Gostava muito que fosse o Alberto Contador, mas acho que vai ser o Quintana ou o Froome.

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Carlos Matos (fotografia de Ricardo Graça)

Carlos Matos é produtor cultural, DJ, ex-futebolista e tudo, mas o que ele gosta mesmo é de acompanhar a Volta a França. Ano após ano, assim o tempo o permita, não perde pitada. Se for preciso, adapta as suas rotinas para ir espreitar quem pedala por gosto e parece que não se cansa.

Preguiça Magazine: Preferes ver o Campeonato da Europa de Futebol ou a Volta a França em bicicleta?

Carlos Matos: A Volta a França, sem dúvida! Tirando os jogos de Portugal, onde, naturalmente, os níveis de adrenalina se manifestam até no mais insensível e indiferente dos compatriotas – mesmo que o futebol que Portugal pratica seja fraquinho (pelo menos até agora) – não faço qualquer alteração à minha rotina para seguir outro jogo qualquer. Já para ver o Tour

PM: Para ti, qual é a importância do Tour?

CM: O Tour é, para mim, o maior espectáculo desportivo do mundo. À conta do Tour “conheço” França como a palma das minhas mãos. E à conta do Giro, a Itália, e à conta da Vuelta, a Espanha (risos).

PM: Nos últimos anos, a modalidade tem sido notícia pelos piores motivos, o doping. Que comentário te oferece?

CM: Infelizmente é um mal que tem ensombrado a modalidade. O grau de competitividade e a ambição desmedida de sucesso (na tentativa de agradar e de garantir, muitas vezes, a continuidade dos patrocinadores – absolutamente determinantes para a sobrevivência da modalidade) leva a que os atletas se submetam a sofisticadas artimanhas para que as suas performances sejam as melhores. Está errado e é moralmente reprovável. Mas não é uma prática exclusiva do ciclismo, como provam os recentes acontecimentos na comitiva olímpica russa…

PM: Já perdoaste ao Lance Armstrong?

CM: Sim, já. Era o meu ídolo. Enganou-nos a todos. Pediu desculpa. É um ser humano e, como tal, imperfeito, como qualquer um de nós…

PM: O que gostavas de dizer àquela malta que aparece na TV a correr em histeria atrás dos ciclistas?

CM: Tenham calma! Ainda se magoam!

PM: E os portugueses em prova?

CM: Destaco, naturalmente, o nosso campeão do mundo, o Rui Costa, um ciclista de elite com uma humildade desconcertante e, por isso, inspirador.

PM: E já agora, quem achas que vai ganhar este Tour de France?

CM: Gostaria que fosse um outsider. O Froome e o Contador são corredores de excepção, mas há valores emergentes como o Alaphilippe ou o Aru que podem vir a dar cartas. E depois, claro, há sempre o espectacular Peter Sagan, mas esse dificilmente ganhará o Tour. Mas quem eu gostava mesmo que ganhasse era o Rui Costa! Se não for ele, então que seja o Alejandro Valverde que é, para mim, um corredor completíssimo!

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Arlindo Cid (fotografia de Ricardo Graça)

Arlindo Cid também pode ser conhecido como o Arlindo das bicicletas. É um aficionado das duas rodas sem motor, também dá ao pedal sempre que pode, esteve ligado ao comércio das binas e gosta de dar a sua voltinha, que, diga-se de passagem, é bem mais longa do que o simples giro do comum dos mortais.

Preguiça Magazine: Preferes ver o Campeonato da Europa de Futebol ou a Volta a França em bicicleta?

Arlindo Cid: Uma vez alguém me disse “O meu futebol tem duas rodas” e eu subscrevo… Obviamente que torço para que Portugal seja campeão europeu.

PM: Para ti, qual é a importância do Tour?

AC: O Tour é a prova rainha do ciclismo. Fazeres 3519 km (2016) em 21 etapas, sendo que a maior etapa tem 237,5 km e frequentemente fazem 180 km num dia, não está acessível ao comum dos mortais. Uma pessoa medianamente preparada pode fazer 100 km num dia, mas a questão é a recuperação para o dia seguinte e mais outro, e outro, e outro… O Tour é onde estão os atletas de topo da modalidade, onde as marcas testam bicicletas e componentes, é um evento que chega em directo a quase duas centenas de países, chega a milhões de pessoas… é imenso.

PM: Nos últimos anos, a modalidade tem sido notícia pelos piores motivos, o doping. Que comentário te oferece?

AC: O doping é a vergonha de qualquer desporto. Estas modalidades movem milhões e a pressão para vencer é enorme. Neste e noutros desportos os atletas andam sempre no limite do que é legal. Se se provar que um atleta usou doping para vencer ou tentar vencer os outros deve ser afastado. No ciclismo outro doping que tem dado nas vistas é o “mecânico”: para ambos há que haver sanções pesadas.

PM: Já perdoaste ao Lance Armstrong?

AC: Lamento, mas não. A vontade de vencer nunca deve ser superior à integridade de cada um.

PM: O que gostavas de dizer àquela malta que aparece na TV a correr em histeria atrás dos ciclistas?

AC: Corram, mas não atrapalhem! (risos)

PM: E os portugueses em prova?

AC: Uma vez que são só dois, posso destacar ambos? O Rui Costa, hoje (5 de Julho), está em 17º e a 18” do Peter Sagan, que vai na frente. O ex-campeão tem ordens da equipa para tentar ganhar etapas e não se preocupar com a geral. Vai ter de “suar as estopinhas”. O outro português, Nelson Oliveira, na Movistar, está a ter “a oportunidade” de dar nas vistas. Espero que lhes corra tudo bem!

PM: E já agora, quem achas que vai ganhar este Tour de France?

AC: O Froome, vencedor em 2013 e 2015, será o favorito… o Quintana certamente que não lhe vai dar sossego. O Contador não tem tido vida fácil, já caiu duas vezes e as minicâmaras instaladas nas bicicletas têm mostrado bem a violência das quedas e o guerreiro que é. O Sagan vem do BTT e tem muita técnica, tal como podemos ver no Paris-Roubaix, quando se safou ao passar por cima da bicicleta do Cancellara que lhe caiu mesmo à frente. Através de uma troca com outro atleta do seu país vai competir em BTT nos jogos olímpicos do Rio. Se vencesse o Tour e depois os Olímpicos em BTT seria perfeito!

Uma selfie no Giro não é para todos

Uma selfie no Giro não é para todos

João Menezes já por cá andou pela Preguiça, há precisamente dois anos, como blogger cujo nome era O Sol das 7 da Tarde, o que pode dizer muito da sua visão de vida. Por estas alturas, com os dias maiores, é gajo para pegar numa das suas binas e desaparecer no horizonte a cavalgar, perdão, a pedalar.

Preguiça Magazine: Preferes ver o Campeonato da Europa de Futebol ou a Volta a França em bicicleta?

João Menezes: A Volta a Itália, depois a Volta a França e, se não houver mais nada fixe, ver Portugal no Euro. No primeiro jogo de Portugal neste Euro aproveitei para ir pedalar para a Pista de XCO da mata dos Marrazes. No jogo com a Polónia ficámos a jantar na varanda e quando ouvíamos os vizinhos a gritar íamos até à sala ver o que estava a acontecer. Torço por Portugal, mas, nesta altura, o que vejo mesmo é a Volta a França.

PM: Para ti, qual é a importância do Tour?

JM: O Tour para mim não tem grande importância, gosto mesmo é das etapas de montanha, como o Mont Ventoux ou Alpe D’Huez. O Joaquim Agostinho chegou a ganhar esta etapa e tem um memorial nesta subida. Resumindo, para mim o que importa mesmo é ver aquele pessoal a sofrer naquelas subidas cheias de curvas e contracurvas. É por isso que, destas Voltas todas, a que gosto mesmo é o Giro d’Itália, até porque já tive a oportunidade de ir a Itália em trabalho: lá assisti a duas etapas e pedalei horas antes, no mesmo percurso que os ciclistas fizeram. Todo aquele ambiente é, para quem gosta de bicicletas, fantástico. (Não, não me meti a correr atrás de nenhum ciclista, mas não resisti a tirar um auto-retrato!)

PM: Nos últimos anos, a modalidade tem sido notícia pelos piores motivos, o doping. Que comentário te oferece?

JM:doping em muitos desportos, o ciclismo é só mais um entre esses todos. Convencionou-se que o ciclismo seria o bode expiatório para o doping. À frente do ciclismo está o atletismo, o basebol e o halterofilismo. Claro que não concordo com esta prática. Mas não resisto a 3/4 de bica, o café ainda é legal. Uma coisa é certa: estas provas não são para meninos! Por mais drogas que eu tomasse e transfusões de sangue fizesse, não conseguia fazer 3500 km com médias de 45km/h. Tudo aquilo é extremamente difícil, a expressão “sangue, suor e lágrimas” aplica-se literalmente. Veja-se a queda de Alberto Contador, logo no segundo dia desta edição.

PM: Já perdoaste ao Lance Armstrong?

JM: Nunca estive chateado com ele. Do que já li, parece que é uma pessoa controladora e difícil de aturar. Sim, mentiu quando disse que não se dopava. Mas isso é um lado pessoal que não me interessa muito. Foi uma pena ele estar envolvido nesses esquemas. Houve muita gente a pedalar por causa dele, por causa da recuperação do cancro que teve, das vitórias que teve na Volta a França depois disso e a associação de apoio aos doentes com cancro que criou, a Livestrong.

PM: O que gostavas de dizer àquela malta que aparece na TV a correr em histeria atrás dos ciclistas?

JM: Convidava-os para jogarem o Jogo da Estátua mas em bicicleta, da mesma maneira que também convidava todos os automobilistas a pedalar numa estrada movimentada durante 100 metros. Acho que é pessoal que pouco ou nada pedala, não respeita quem está em prova e só está ali para aparecer na televisão. Não têm consciência do perigo que provocam quando tocam num ciclista e o fazem desequilibrar-se. Há inúmeros casos de vitórias comprometidas por estas causas.

PM: E os portugueses em prova?

JM: Este ano só lá estão o Rui Costa e o Nelson Oliveira. Gostava que os dois, com ou sem vitórias, se destacassem positivamente.

PM: E já agora, quem achas que vai ganhar este Tour de France?

JM: Não ligo muito a quem ganha. Geralmente gosto dos que ficam para trás e conseguem dar o litro e nunca baixam as armas. Mas, pronto, tenho de admitir que gostava que o Peter Sagan ganhasse. Ele é uma espécie de Mac DeMarco, em modo ciclista: aquele rapaz irritantemente irreverente, de quem não gosto de gostar, mas gosto.