Leiria para Totós é a informação que faltava, mas provavelmente nunca vais precisar. A cábula para quem julga que Rodrigues Lobo era o vilão da história dos Três Porquinhos. Aqui recorda-se o nome esquecido na placa, o edifício em ruínas, a estátua coberta com lingerie na semana académica. É possível que estes textos venham a ser úteis, se algum dia existir a edição Leiria do Trivial Pursuit. Fora isso, não estamos a ver.

Leiria tem um avião estacionado junto ao rio Lis há décadas. Um avião que faz parte de muitas lembranças de infância das últimas gerações que ali foram levadas a ver os patos nadar, brincar no parque infantil, jogar ténis, futebol, ao bate pé ou fumar charros nos recantos do jardim.

A zona foi requalificada, o lago dos patos há muito que desapareceu, no parque infantil já não se “bate ferro” nos baloiços como dantes, o ténis foi bater bolas para outro lado, o ringue é agora usado por gente que leva o desporto mais a sério, os beijos na boca e as ganzas já não se praticam às escondidas, mas o avião, o avião continua lá. A fazer o quê? Por que razão? E desde quando?

Foi cedido ao município em 1977 pela Força Aérea Portuguesa, concretamente pela Base Aérea nº5, de Monte Real. É um de cerca de 9 mil fabricados algures entre 1937 e 1970 pela empresa norte-americana Beech Aircraft Corporation, que a partir do bem-sucedido protótipo Model 18 Twin Beech passaria a fabricar o modelo Beechcraft D.18S, como ficaram baptizados estes pequenos bimotor que correram o mundo.

parque do avião_8parque do avião_6parque do avião_5Sabe-se que inicialmente o Beechcraft D.18S era utilizado por companhias de transporte do Canadá, mas a II Guerra Mundial viria a impulsionar a construção de algumas versões desta aeronave para fins militares, nomeadamente o C-45 Expeditor, com funções de ligação e transporte, iguais ao exemplar que se encontra no Marachão, em Leiria, e que aparentemente é o único em Portugal.

O Beechcraft D.18S / C-45 Expeditor é um bimotor monoplano de asa baixa, de construção metálica semi-monocoque, tem 10,33 metros de comprimento, por 2,80 metros de altura e 14,80 metros de envergadura, dois motores – Pratt-Whitney R-985-B5, 450 cavalos de potência e capacidade para dois tripulantes e seis passageiros, 2617 quilos vazio e 370km/h de velocidade máxima.

Os Beechcraft D.18S deram ainda origem às versões AT-7 (para instrução de navegadores), a AT-11 (para instrução de pilotagem de bombardeamento) e a F2 (para fotografia e reconhecimento). Após a guerra, surgiu o primeiro modelo comercial denominado Model D18S. Uma versão equipada para transportar oito passageiros com um alcance maior e aumento da carga útil.

Pensa-se que a US Navy tenha utilizado os Beechcraft até Julho de 1972 e a Força Aérea dos Estados Unidos, criada em Setembro de 1947, utilizou os C-45 Expeditor e os Beechcraft AT-11 até 1976, estimando-se que 90% dos navegadores americanos em operações durante a II Guerra Mundial tenham sido treinados nas versões militares do Model 18 Twin Beech.

Em Portugal estiveram ao serviço, primeiro da Aviação Naval e depois da Força Aérea, a partir de 1948, seis AT-11, seis D-18S e treze C-45 Expeditor. Destes escaparam aos abates de 1976 dois que se encontram em exposição, o Expeditor de matrícula BC-10 (2508), em Leiria, e um AT-11 com a chapa (s/n 2504) no Museu do Ar, em Sintra.

Sobre o C-45 Expeditor de Leiria é difícil saber por onde andou ou em que missões participou. Uma coisa é certa: foi construído no Canadá, veio para Portugal onde desempenhou funções de treino militar, pelo número da matrícula terá sido dos primeiros a chegar e ficou para contar a história dos outros todos que desapareceram. Ah! E já agora, o nome oficial do Parque do Avião é Parque da Cidade – Jardim Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca.

Agora que já sabemos todos um bocadinho mais sobre o nosso aviãozinho militar, que por acaso não atirou uma bomba ao ar, mas a esta terra foi parar, da próxima vez que virem putos rufias a vandalizar o C-45 Expeditor espetem-lhes um biqueiro bem assente no cu.

 

Fontes: Câmara Municipal de Leiria, Museu do Ar, Força Aérea Portuguesa, Altimagem.blogsopt, Wikipedia