Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto de Fábio Ribeiro
Ilustração de João Pedro Coutinho

Já não era novo, comentavam todos… Ele, como qualquer outro que é apanhado de surpresa, não via outra razão que não essa. É verdade que aos poucos se vai acreditando em algumas verdades que até nem são muito nossas, assim como quem quer desesperadamente fugir à realidade que se vai tornando insuportável. Mas, neste caso, pode dizer-se que nem ele conhecia a realidade…

Viveu demasiado tempo à sombra da existência. Os dias corriam-lhe pela vida, uns atrás de outros… À medida que os obstáculos lhe iam aparecendo contornava-os, não tentava encontrar o sítio de onde vinham, nem tentava compreender a razão de lhos terem tentado impor… Também se tinha escondido muitas vezes na sua própria vida sem nunca dar muito valor ao que a vida dos outros trazia para o arrastar dos seus dias.

Dele diziam que caminhava sem direcção. E ele, como qualquer doido, sabia que caminhava com sonhos, coisa que nem todos seriam capazes de compreender, pensava ele em mais uma tentativa de fugir aos pressupostos da vida. Tentativa essa que poderia muito facilmente ser confundida com vontade de ser feliz da maneira mais fácil… à maneira dele…

E assim foi vivendo como quem não quer morrer… Crente num futuro que só ele vislumbrava, perseguido por um passado que ia ignorando, foi vivendo… Como a vida quis, ao sabor da brisa calma de um sonho por concretizar… Muitas vezes escondido atrás de todo o amor que sabia, ou pelo menos julgava, ter para dar, outras tantas vezes escondido por medo de nunca vir a ser compreendido por quem viesse a amar…

Caminhava, como caminham os mais fortes, sozinho e a tentar que se não saiba que carregam o maior vazio de todos, o medo de que com o amanhã não venha nada do que por ontem se não lutou. Não se lembrava de como tudo tinha começado, não sabia que caminho o teria levado ali. Ao medo do vazio do amanhã… Da esperança que sempre o caracterizou restava pouco mais do que um sonho. Um sonho que, com o passar dos dias que se arrastavam, se tornou numa miragem distante. E não conhecia até ali sentimento algum que o pudesse salvar de si, do seu vazio… Do espaço infinito que lhe destroçava o coração.

Dele todos julgavam saber tudo, mas na realidade, na realidade que é verdade e que é dele e de mais ninguém, ninguém sabia nada… Ninguém via para lá do seu sorriso. Nem sequer lhe conseguiam ver os olhos tristes que se faziam notar logo ali acima… Assustados, sem esperança… Desesperados…

Ninguém a não ser ela… Ela, que chegou antes que mesmo ele tivesse percebido que se havia perdido algures num futuro que nunca teria sido. Ele, que julgara ter sempre caminhado sozinho, foi sempre acompanhado por ela que se deixou caminhar com a certeza de que alguém que sonha não anda por aí durante o dia, a deixar que se lhe arrastem os dias pela vida. Ela viu-o muito antes, salvou-o de si e do seu vazio. Ocupou-lhe aquele espaço no coração que aos poucos ecoava o vazio de propósito no passado…

Foi ali que ele morreu… O homem que caminhava sozinho e sem sentido morreu naquele preciso momento e quando vieram tentar descobrir o porquê da sua morte… Descobriram que tinha morrido por amor já há algum tempo, naquele tempo em que ela entrou no leito do seu arrastar de dias e o guiou por onde achou ser o caminho que o salvaria de si. Não fosse ela lhe ter mordido o coração e tê-lo morto a tempo, hoje ele não seria mais do que um grito de dor num coração massacrado pela vida.

Não se pode dizer que lhe deva a vida, até porque da vida nem se espera muito. Mas deve-lhe a morte… A morte que o salvou do fim do viver. Que o salvou daquele grito que nunca ninguém teria ouvido. Que o salvou daquela ferida que sangraria durante todo o seu viver e ninguém conseguiria ver.