Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. De 15 em 15 dias, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto de Hélder Magalhães
Ilustração de Lisa Teles

O homem maneta perdera o braço direito quando fazia paragem ao comboio onde seguia o seu amor. O comboio onde seguia o seu amor que não fazia paragem naquela estação levou o braço direito do homem que ficou maneta e chorou a perda do seu amor.

Na bilheteira haviam esquecido de dizer à mulher que segurava o coração com ambas as mãos que o comboio não fazia paragem na estação para a qual havia adquirido o bilhete. A segurar o coração com ambas as mãos, a mulher não conseguiu agarrar o braço direito do seu amor que a esperava na estação onde o comboio não fazia paragem.

O homem maneta chorava e corria atrás do comboio a esguichar sangue pelo braço direito que havia ficado para trás, decepado sobre os carris. Corria como um soldado que fuzila a guerra de dentes cerrados para chegar a casa e de braços abertos abraçar o seu amor.

Desesperada, a mulher que segurava o coração com ambas as mãos pressionou o alarme de emergência assim que o comboio não fez paragem na estação para a qual havia comprado bilhete. Segurando o coração firme entre as mãos, a mulher olhava pela janela o homem que perdera o braço direito e corria na sua direcção.

Num último fôlego, o homem maneta alcançou o comboio onde seguia o seu amor e saltou para a plataforma da última carruagem. Agarrou-se ao puxador da porta com toda a força que lhe restava. Desfaleceu e o coração seguro pela mão esquerda.

Suspensa na aflição ao salto do homem que perdera o braço direito, a mulher que segurava o coração com ambas as mãos desatou a correr na direcção oposta do comboio que não fez paragem na estação para a qual havia comprado bilhete. Mantendo firme o coração entre as mãos, a mulher chegou à porta da última carruagem onde batia o coração que chamava pelo seu nome.

Do outro lado da porta da última carruagem, a mulher que segurava o coração com ambas as mãos escutava no batimento do coração seguro na mão esquerda do homem que perdera o braço direito amo-te Leonor. Apertando o coração com as duas mãos ao peito, a mulher chorou. Leonor era o seu nome.

Com o coração apertado ao peito, a mulher que segurava o coração com ambas as mãos retirou o martelo de emergência do envoltório e em lágrimas deu uma pancada seca no vidro à porta da última carruagem, onde por entre o estilhaçar escutou um amo-te Leonor ao bater do coração na mão esquerda do homem que perdera o braço direito.

Em sobressalto, o coração avançou para o lado de fora da última carruagem, seguido pela mulher que o segurava com ambas as mãos. De cabelos soltos ao vento, Leonor abraçou o homem inanimado sobre a plataforma que perdera o braço direito na estação onde esperava o seu amor e o comboio não havia feito paragem. Um abraço feito raiz a escrever a palavra amor sob a terra.

Aos braços do seu amor, o homem maneta ficou sem pulso e o coração a bater na sua mão esquerda disse num último suspiro amo-te Leonor. A mulher que segurava o coração com ambas as mãos emitiu um grito de dor e rasgou-lhe o peito com a lâmina de um pedaço de vidro. De forma incondicional, Leonor sepultou o coração que segurava com ambas as mãos no peito do homem que perdera o braço direito na estação onde esperava o seu amor e o comboio não havia feito paragem.

Amo-te Alexandre foi o som que a mulher que segurava o coração com ambas as mãos e o sepultou ao peito do homem que perdera o braço direito murmurou ao expirar como uma folha madura a soltar-se da árvore no Outono. Prostrados sobre a plataforma da última carruagem seguiram a viagem ao silêncio da palavra amor que o abraço feito raiz havia escrito sob a terra.