Qualquer português que aterre em Timor é logo recebido de forma diferente, só porque falamos a língua oficial do país. Língua essa que, por cá, só uma minoria é que consegue discursar. É notório um apego a tudo o que esteja ligado à cultura portuguesa. Muita coisa foi deixada cá, sendo hoje parte integrante também da cultura timorense. Orgulham-se de ser o único povo da Ásia a dançar da mesma forma que nós, juntam-se para piqueniques, fazem bailes, bem ao estilo português e nunca dizem que não ao convívio.

Tal como para nós, o futebol aqui é o desporto rei. Ao final do dia, a praia e os terrenos em pousio ganham balizas e joga-se uma futebolada. Por ser um país que se rege pelas regras do cristianismo, os feriados e os valores são os mesmo que os nossos. Olho para Timor e imagino que este seria o cenário de Portugal no tempo dos meus avós. A política, o estado social, os valores, em tudo me faz lembrar o antigamente que não vivi, mas de que sempre ouvi falar.

Por tudo isto, quase perdemos a noção da distância a que nos encontramos; sentimo-nos muito próximos de Portugal. E depois de termos vencido o campeonato europeu de futebol, esta proximidade entre os dois povos cresceu ainda mais. Nunca imaginei que o povo timorense pudesse sentir de uma forma tão verdadeira, tão genuína e com tanta alma o “esplendor de Portugal”.

Tudo bem que Portugal teve um papel importante na libertação do povo e esse momento está muito presente nos seus corações, mas daí a explodirem de felicidade quando joga Portugal também não estava nada à espera. Por causa do Campeonato Europeu, este povo não dormiu: desde o primeiro jogo, às quatro da manhã as antenas sintonizaram o canal. Vimos timorenses a comprarem antenas (com um custo de 20$) para poderem ver o jogo. Eles sofreram, elas gritaram e juntos festejaram tanto ou mais do que qualquer cidadão lusitano.

Porto, Porto Lutar para vencer - eram as palavras que mais ouvíamos

Porto, Porto, Lutar para vencer – eram as palavras que mais ouvíamos


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Emigrantes por um dia


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Cada jogo de Portugal foi sempre celebrado por Timor como uma vitória

As ruas encheram-se de bandeiras, homens, mulheres e crianças ecoaram de forma entusiasta “Portugal Campeão”, “Força Portugal”, ou “Porto, Porto” (como gostam de chamar). Mas a verdadeira loucura foi quando se deu o apito final de cada partida vencida. Mais depressa do que qualquer português saíram a correr, pegaram nas suas motos e ergueram a nossa bandeira, beijaram o brasão e explodiram de felicidade porque Portugal venceu. Porque o povo irmão, como nos chamam, lhes deu a taça.

Assistir a tudo isto foi, sem dúvida, dos momentos mais fantásticos, mais emotivos e arrepiantes de toda a nossa viagem. Por momentos, senti o sentimento de um emigrante. O peso da distância nos nossos corações. Mas a vontade de estar aí e não aqui foi ultrapassada pelo amor que os timorenses têm por nós, por Portugal, fazendo-nos sentir em casa.

Todos juntos, mas mesmo todos juntos, ministros, polícias, velhos e novos, homens de rua, mulheres e crianças, sem distinção social, gritaram; gritámos até a voz nos falhar por Portugal. Toda esta gratidão, esta admiração que o povo tem pela minha bandeira fez-me pensar: será que há por aí mais algum país no mundo que sinta o mesmo apego pelos seus países colonizadores? Eu duvido. Só Portugal conseguiu esse efeito nos povos por onde passou.

Todo este afecto a Portugal também me leva a concluir que nós somos um povo especial. Somos amados em qualquer parte do mundo, somos vistos como um povo hospitaleiro, amigável e sempre pronto a ajudar. Somos o que somos, com os nossos e muitos defeitos, mas o nosso sangue, a nossa essência é de gente boa.

Ser português em Timor é um privilégio. É um orgulho ver o nosso ego a inchar e ter o nosso coração a render-se a esta gente que, sem se dar conta, nos dá tanto.

Muito obrigada, Timor Leste, do fundo do meu coração, por me teres dado estes momentos que jamais esquecerei.