Num determinado festival, alguém perguntava se “vais ver ou vais viver?”. A pergunta embora fosse feita para fins promocionais, tem muito mais que se lhe diga, pois há malta que de facto vai mesmo só ver.

Sem se misturar com a populaça, as zonas VIP são aquelas ilhas no meio dos festivais, cuja arquitectura da estrutura – mas também social – faz com que as pessoas se elevem num sítio alto, passe-se a redundância. De cima para baixo, é lá que se apaparicam os sponsors, se bebem umas bebidas à pala, se fazem de facto contactos. Mas esse é o preço a pagar pelo ambiente que, de uma maneira geral, é uma merda.

Com pouca paciência para essas lides, mas que por voltas desta vida profissional, já por lá pisei esses antros, nunca me esquecerei do dia em que um aspirante a estrela estava lá a distribuir sorrisos – isto foi muitos anos antes da moda dos abraços grátis -, mas estava a estorvar-me o caminho.

Delicadamente, toquei-lhe no braço para lhe sinalizar que queria passar, ao que ele me devolveu o contacto com um cumprimento efusivo. Pensei para mim “Já mijámos juntos, ou o que é que se passa aqui?” Depois lá relacionei as coisas e percebi que ali somos todos os melhores amigos uns dos outros. Bebi a bebida de rola, e bazei de lá.

Com os anos, as condições dos festivais foram tentando melhorar. Parece que definitivamente aquela postura do “para quem é, bacalhau basta” vai sendo ultrapassada, mas aquelas estruturas sempre funcionaram como uma espécie de doca seca, um oásis, um descanso para quem não quer roçar as suas sedas nos têxteis da Primark.

Depende do sítio, mas o mais certo é que te obriguem a contornar a zona que está bem visível – e onde se têm as melhores vistas, como se pode comprovar pela foto de capa deste artigo – e tu olhas assim de soslaio, como quem ignora um pobre na rua (claro que nunca fizeste isso, claro que não…), mas ali preferes não olhar para os wannabes, embora te desse jeito um WC decente.

Parece que aquilo lá está para te fazer sentir miserável, mas o que tem mais piada é que se fores bem resolvido(a) não te causa espécie alguma, mas depois acabas por te irritar na mesma, pois achas que eles acham que estão a fazer inveja e eles não sabem que te estás bem a cagar, mas eles não sabem isso… estás a ver a complexidade?