Vamos arrumar isto no primeiro parágrafo: a) não é uma crítica ao novo trabalho dos Birds Are Indie b) ainda assim, recomendamos vivamente que juntem Let’s Pretend The World Has Stopped à vossa bagagem de férias. Contem com refrões happy sad que tanto vão adocicar manhãs gloriosas como agitar aquela viagem de carro e cabelos ao vento.

Resolvido o assunto, podemos avançar, até ao osso. Mas devagar, porque faz falta uma certa idade, pelos menos os 30, para compreender o título do álbum, que é tão eigthies como o golo do Éder daqui por umas décadas. Faz falta ser do tempo em que nada era on demand, muito menos na palma da mão. Com a Joana Corker, o Ricardo Jerónimo e o Henrique Toscano, podemos desligar o wi-fi e voltar às novidades em vinil, aos jornais em papel, à rádio FM, aos televisores a preto-e-branco, à gasolina super, às estradas secundárias.

“Somos da geração pré-internet, mas vivemos nela. A nossa geração está um bocadinho entre dois mundos e já não temos tempo para parar. E as coisas à nossa volta começam a ser um bocadinho terrivelmente descartáveis”, afirma Ricardo Jerónimo. “Então, a nossa proposta é fazer de conta que o mundo parou. E têm aqui este disco para ouvir.”

Boa ideia, sem dúvida.

Explicado o título do álbum, importa dizer que existe em formato digital e que a edição vinil também já se encontra à venda, linda de morrer, como nós trintões e quarentões tanto gostamos. E, convenhamos, para quem vê o coleccionismo como obra de intervenção artística, um vinil é um vinil e um CD é um CD.

É muita pinta.

É muita pinta.

Desde o início, em Coimbra, os Birds Are Indie têm sido a banda da Joana e do Jerónimo, a que entretanto se juntou o Henrique. Dito pelos próprios na internet: “Once upon a time there was a girl and a boy. They fell in love. Later a band was formed. Finally, an old friend came along”. Depois de nos provocarem em 2014 com a ironia de Love Is Not Enough, regressam em 2016 com o mesmo registo folk pop, às vezes em cima, outras em baixo.

Os primeiros singles são todo um manifesto estival: “Partners In Crime” e “I’m Leaving This Town“. A quem é que isto não apetece durante o Verão? E logo nos primeiros segundos do tema de abertura de Let’s Pretend The World Has Stopped eles prometem roubar-nos o coração, sobre uma batida que podia pertencer a um disco de Katrina & The Waves (por falar em anos 80): “We’re gonna make you smile, it’s gonna take a while, but we’re gonna steal your heart / we are partners in crime, and our only enemy is time, we are partners in crime, come with us and you’ll be fine“.

Quando nos tornamos pessoas de uma certa idade, as coisas mudam, mesmo sem procurarmos a mudança. Isto não é necessariamente bom, mas também pode não ser mau. No caso dos Birds Are Indie, a grande diferença está na forma como, desta vez, trabalharam as canções até entrarem em estúdio. Antes o processo de composição e registo era praticamente simultâneo, tipo à primeira. Agora não: agora demoram-se sobre as melodias, harmonias e arranjos, para depois, sim, as gravarem. A essência, essa, continua lá. “A nossa sonoridade é o que nos sai naturalmente, tendo em conta tudo o que ouvimos e também as nossas limitações como músicos”, refere Ricardo Jerónimo.

E também dançam bem.

Entre o que a vida nos dá sem pedirmos pode muito bem acontecer uma carreira nos palcos. Se os Birds Are Indie começaram mais ou menos por brincadeira, hoje os concertos, entrevistas e ensaios consomem cada vez mais tempo aos membros da banda, que em simultâneo vão trabalhando em actividades ligadas ao design, arquitectura, imagem e engenharia de som.

“As diferenças são grandes, principalmente ao nível do número de concertos que fazemos. Mas foi mais uma espécie de habituação contínua”, diz Ricardo Jerónimo. “No início era só fazer algumas músicas, assim do nada. Nas nossas vidas pessoais, a banda ocupa uma parte importante e temos de nos ir adaptando. É uma parte importante que queremos preservar e que foi ganhando mais peso ao longo dos anos. Em termos de motivação continua a ser o mesmo. A banda nasceu mais ou menos como uma forma de nos completar, e ajudar, como pessoas, e continua a ter esse papel. Mas, se fosse uma profissão, provavelmente deixaria de existir.”

Depois do Verão, mais semana menos semana, vamos ter os Birds Are Indie ao vivo em Leiria. E já sabem, se gostam muito de uma coisa, não a levem demasiado a sério.