A lenda diz que o crocodilo se transformou na terra de Timor, tendo por isso a montanha o aspecto deste animal. O que mais me fascina aqui é conhecer as histórias, as crenças e os rituais animistas. O povo timorense respira espiritualidade e possui uma forte ligação com a mãe Natureza, sendo esta a razão para tudo o que lhes acontece na vida: quer sejam coisas boas ou más. Esta força do mundo sagrado e da espiritualidade é de tal forma vivida e sentida aqui em Timor que chega mesmo ao ponto de se sobrepor à própria vida humana.

A experiência de estarmos aqui a viver é de tal forma gratificante que nem damos conta do tempo que dedicamos a aprender e a conhecer, cada vez melhor, este povo, as suas tradições ainda muito primitivas, mas de grande intensidade. É impressionante como a espiritualidade comanda um povo e o torna único e genuíno.

Toda esta espiritualidade é capaz de nos colocar a ver o lado de um povo que vive acreditando na acção das leis da Natureza, chegando mesmo ao ponto de nos conseguir influenciar e ganharmos a confiança de que aquilo que nos estão a dizer é mesmo verdade. Houve momentos da nossa experiência em que acreditámos em coisas que jamais acreditava se não estivesse em Timor. Há algo de mágico e intenso na ilha que consegue pôr-nos a pensar em coisas surreais.

Atribuir tamanha fé a lugares, a objectos e a animais é algo que ainda me transcende, mas pelo qual com o tempo fui ganhando total admiração e um enorme respeito por todo este animismo que aqui se vive. Ao olhar para um povo completamente isolado do mundo durante tantos anos, onde o único ensinamento que tinham provinha da Natureza, é profundamente respeitável. Enquanto nós ,graças ao acesso ao conhecimento, sabemos que cientificamente o mundo surgiu pela teoria do Big Bang, mas para um povo tribal a terra, e principalmente a terra deles, Rai Timor Lorosae, nasceu na transformação de um crocodilo.

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Momento National Geographic – crocodilo de água doce nas margens de um rio


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Crocodilo visto no mar – Loré, Timor Leste

Sendo por isso o animal mais sagrado e mais importante de todo o país. É venerado e elevado ao mais alto nível do sagrado. É difícil entender o que os une a um animal tão mortífero, a lenda é muito antiga (podem ler na íntegra aqui), mas na cabeça deste povo não é apenas uma lenda: é a história real da forma como nasceu a sua terra. Eles acreditam nela como sendo verdade absoluta e a lenda vai passando de geração em geração com cada vez mais força e por isso tudo gira à volta do crocodilo aqui em Timor Leste.

Mas agora este país depara-se com um problema. Quem visita ou quem reside cá tem consciência do perigo que é um animal destes à solta e há cada vez mais o medo de tomar banho nas águas paradisíacas de Timor Leste. Sim, mãe, eu tomo banho nestas águas, mas podes ficar descansada que os timorenses acreditam seriamente que o crocodilo não ataca malae (estrangeiro em tétum), ou seja, eles acreditam que a relação de amor/castigo é só com o povo timorense.

E a verdade é que não há registo de um ferido estrangeiro. E também não há assim tantos na costa. Continuamos todos a ir ao banho, a fazer mergulho e aproveitar o melhor que este mar tem. Nós já tivemos a experiência de ver um crocodilo nas margens de um rio, no mar e até na areia, mas foi em zonas completamente selvagens da ilha. Ver um crocodilo é como uma atracção: é inevitável não se falar dele, pois ultimamente tem surgido mais em locais que antes não se via, como dar à costa, mesmo aqui ao largo de Díli e quando isso acontece sente-se uma grande felicidade por parte do povo timorense por ver o “Avô” (como lhe chamam), por ver o seu animal sagrado e sentem que têm a obrigação de o alimentar (vão ao supermercado comprar frangos e dão-lhe praticamente à boca) e ficam ali felizes por ver o animal que lhes deu a terra.

Timor Leste está a trabalhar para que no futuro receba mais turistas, mas têm consciência que o crocodilo pode ser um entrave. Mas o problema maior está a ser com a população mais velha, que nada quer fazer para afastar o animal da costa. Em Timor existe o crocodilo de água doce e também de água salgada. Várias soluções já surgiram, como colocar uma rede no mar e delimitar um sítio seguro para se tomar banho, ou então capturar o crocodilo e recolocá-lo numa zona mais selvagem, criando assim uma reserva natural, um local onde o animal possa viver sem assustar os banhistas.

Aos nossos olhos, tudo isto são soluções possíveis e praticáveis ,mas aos olhos de um povo que vê o crocodilo como o seu animal sagrado não é bem assim. Chefes de aldeia e outros afirmam que é o homem que tem de se adaptar e mudar a mentalidade em relação ao animal e que este já vivia em Timor antes de surgir o homem, por isso o habitat dele é no mar, livre para crescer e caçar. Se, porventur,a ele atacar ou até mesmo matar uma pessoa, é porque essa pessoa fez algo de mal na sua vida, é a punição máxima da lei da Natureza; e se for uma criança, é porque o pai ou mãe fizeram algo de errado. A consciência é o maior ataque e é assim que as coisas são vistas, vividas e sentidas em Timor Leste.

A minha visão tem mudado cada vez mais sobre o assunto. Porque não manter Timor-Leste como o país que preserva a sua identidade, o sagrado? Há tantos sítios na Ásia onde se pode fazer turismo de praia… Timor podia ser o lugar especial onde ainda se preservam as suas tradições, as suas crenças, em detrimento do turismo de massas, que tanto destrói o quotidiano dos países.

Mas independentemente da preocupação com os turistas, a verdade é que tem aumentado o número de ataques junto do povo. Temos nós o direito de “invadir” e dizer o que está certo ou errado e mudar a mentalidade de um povo que criou por si próprio as suas leis de sobrevivência? Ou devemos realmente respeitar e deixar as coisas como estão?

A vida na ilha faz-nos pensar e levantar muitas questões. É o verdadeiro sentido e significado do choque cultural.