Depois das férias, o Fora de Cena retoma com as entrevistas a actores e actrizes do nosso cenário local. Fomos bater à porta do grupo de teatro O Nariz, cujo festival que promove está a decorrer, e quem nos recebeu foi a Ana Moderno.

Conta-nos a tua história, o que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso?
Começou no normal “faz de conta” de infância, em que criava histórias e diálogos com todos e tudo, incluindo feijões. Mas foi num clube de teatro da escola que o gosto se consolidou e onde aprendi as primeiras técnicas. Depois, vim “parar” a Leiria, onde quis continuar o trajecto. No Nariz fiz uma formação no final dos anos 90 e passei a integrar o núcleo amador do grupo, até hoje. Com as intermitências do tempo, tenho vindo a participar nalguns espectáculos produzidos por esta companhia cujo trabalho e a divulgação do teatro muito admiro. Paralelamente, fui buscando outras formações. E ainda me juntei a duas amigas, com formação profissional em teatro, para a fundação de uma companhia de teatro infantil, com o objectivo de levar o teatro às escolas. Recentemente tive a oportunidade de desenvolver um projecto de intervenção através do teatro, com um grupo de famílias no museu onde trabalho (Batalha). Ao longo de seis meses, o grupo criou e apresentou um espectáculo final, explorando diversos exercícios e técnicas. Foi bonito ver pais e filhos a contracenar.

Na tua opinião, qual o valor do teatro relativamente a outras artes?
Enquanto espectáculo valoriza-se por criar momentos irrepetíveis perante públicos que são também únicos. Em cada apresentação a peça cresce, enriquece-se e reforça cumplicidades. Isto acontece ao vivo, sem filtros, sem cortes. Frente a frente, carnal, emotivo e pessoal. Enquanto linguagem artística considero de grande relevância para o desenvolvimento de competências pessoais (confiança, criatividade, expressão corporal…) e que por isso deveria ser considerada como ferramenta essencial em escolas e instituições sociais.

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Se pudesses ir buscar características a personagens que já interpretaste, quais seriam?
Ia buscar um pouco a uma galinha tonta mas boazinha. E também a garra e o sarcasmo de uma psicanalista que resolve os problemas de toda a gente menos os seus. E talvez ao Joane, o Parvo, do Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente), que foi a primeira personagem que interpretei e cuja malícia “inocente” acho fantástica.

Como costumas lidar com as críticas?
O meu pequeno currículo não regista muitas. São maioritariamente construtivas e vêm essencialmente de amigos e de outras pessoas do público. Mas, ainda assim, e considerando as menos positivas, recebo-as com possibilidades de melhoria, como tudo na vida.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
Num espectáculo em que três “galinhas” punham um ovo matinal, verificado pelo “galo”, aconteceu algo inesperado. O encenador e o “galo” tinham previamente colocado uma banana no lugar do ovo, à revelia das “galinhas”. A exibição da banana surte gargalhada geral perante o público. As “galinhas” – que não estavam à espera da mudança – demoraram um bocado a recuperar o folgo. Ter vontade de rir e não poder é um belo desafio. Eu fazia parte do trio dos galináceos.

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
O maior desafio é o da gestão do tempo: conciliar vida do museu e a vida do teatro, que, da minha descoberta diária, muito têm em comum. Gere-se com paixão.

Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
Se tivesse a bola, gostaria de ver o futuro da cultura de uma forma geral. Gostaria que a bola reflectisse mais apoio à formação e educação de públicos e ao trabalho de tanta e tanta companhia que conta os tostões que não tem para manter o amor pelo teatro e que o leva às comunidades.

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Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Gosto de muitas e de muitos, vindos de companhias que admiro como a Peripécia, a Palmilha Dentada ou a ESTE. E também admiro o trabalho dos actores e companhias da nossa região. Temos cá malta com muito talento.

Tens algum ritual de entrada em cena?
Rituais propriamente ditos, não tenho, mas faço alguns exercícios de aquecimento corporal e vocal e procuro abraçar todos os colegas de palco antes, para depois desejar-lhe muita daquela coisa que dizem dar sorte.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver?
Adoraria voltar a ver um espectáculo que veio ao festival Acaso há muitos anos, de uns espanhóis. Acho que se chamavam Los Contralocos e contavam histórias só com o corpo. Maravilhoso.