Quando se refere o conceito cada vez mais em voga de “musical city” é preciso ter noção de que o talento e as pequenas conquistas são importantes, mas não chegam. E, num processo que se faz em três etapas, por cá ainda a procissão não saiu do adro.

Estamos felizmente numa era em que começa a haver uma noção comum e partilhada de que a produção musical nacional é muito acima da média quando comparada com supostas potências musicais. A esse facto não é indiferente a proliferação, ao longo dos últimos anos, dos festivais extremamente bem organizados e o crescimento do número de bandas e de projectos musicais porque, afinal de contas, é cada vez mais simples e democrático fazer música.

Se estes factores são excepcionais e de louvar, a verdade é que, assim como há muita música boa à disposição de um clique, no contexto do mercado também há música a mais e a luta por um lugar ao sol conduz a uma política de terra queimada em que é preciso tocar (nem que seja a perder dinheiro) e investir com fé de que um dia, por obra e graça do acaso, alguém repare que realmente os meses e anos de trabalho e a fortuna investida em material serviram um propósito que deveria começar a ser uma fonte de rendimento.

A grande avalanche de novos projectos musicais (bandas, produtoras e até editoras) surge nos tempos de escola e começa a definhar quando ganha alguma projecção e se transforma num projecto paralelo ou de fim-de-semana (porque há contas para pagar e filhos a nascer e por aí além).

Perante uma situação em que um projecto está a crescer, há sempre aquele momento: “Eu dedicava-me a isto a sério, se soubesse que isto começava a dar dinheiro” que muitas vezes é imediatamente atropelado por um realista e calculista: “Mais vale não arriscar, senão o tempo passa e isto pode não dar”.

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Se não se arriscar, nunca se vai saber. Mas era preciso e urgente criar condições, sobretudo no campo das instituições locais, para providenciar apoio aos jovens ligados ao universo musical, tanto no momento da criação como no momento da estratégia/programação e digressão.

Quando aparentemente é tão fácil aceitar o discurso do empreendedorismo e das start-ups, possíveis carreiras de sucesso, de produção e de promoção podem ter os seus dias contados porque não há apoios nem business angels que lhes valham. Porque a carreira na música acaba por ser sempre aquele sonho do qual se corre atrás, de forma apaixonada e tantas vezes sem estratégia nem capacidade de investimento.

A verdade é que a música não é mais importante do que uma indústria (na sua interpretação mais tradicional), mas tem uma capacidade muito superior de promover uma região. Se dúvidas houver, perguntemos pelo país fora de onde são os Silence 4 e onde fica a Santos Barosa, a Respol ou a Roca. Se houver um plano de investimento apoiado de alguns milhões a uma empresa é lógico e normal, mas se for atribuído um investimento e incentivo de alguns milhares a uma banda “ai ai ai que havia tanta coisa melhor para fazer com o dinheiro”.

Era tão interessante como importante criar mecanismos que possibilitassem a incubação e crescimento sustentável de determinados projectos que começam a ter provas dadas, mas têm, com o passar de alguns anos, de reduzir-se à condição de ocupações secundárias e tempos livres. E não pensemos apenas nas autarquias, olhemos para as empresas – indústrias e serviços. Todos temos a ganhar com a promoção e com a melhoria da qualidade de vida da região onde vivemos e trabalhamos.

Quando se refere o conceito cada vez mais em voga de “musical city” é preciso ter noção de que o talento e as pequenas conquistas são importantes, mas não chegam. E, num processo que se faz em três etapas, por cá ainda a procissão não saiu do adro.

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Primeiro é preciso ser uma cidade com músicos. Para isso é necessário criar e apoiar infra-estruturas de criação, de aprendizagem e de partilha de experiências e apoiar os criadores que se comecem a destacar e a ter alguma projecção e aceitação nacional. Salas de ensaios, escolas de música, projectos de criação de públicos e apoios a digressões de bandas locais. É supostamente aqui que tudo deve começar. Conquistar os criadores, o público e começar a projectar o nome da cidade com digressões de bandas locais.

Em segundo lugar, criar e manter um roteiro de eventos e de música ao vivo (em salas e festivais), tanto para os músicos locais como para as constantes e desejáveis visitas de músicos de fora. E ter uma programação com uma boa relação quantidade/qualidade para os vários tipos de públicos. Aqui passamos a tornar a cidade um ponto de referência tanto para quem lá mora como para quem a visita.

Mas, se o primeiro é difícil, neste constatamos uma regressão quase generalizada, com salas a fechar um pouco por todo o país, que assiste à expansão de eventos “chave na mão” para encher o olho e de preferência gratuitos, que por sua vez agravam e crise de públicos em concertos pagos e a descida abrupta de valores de bilhetes, o que origina cada vez mais dificuldades para um projecto conseguir fazer uma digressão sem perder dinheiro.

Em terceiro lugar podemos pensar na utopia (tão comum em várias cidades por esse mundo fora) de criar na cidade uma indústria musical que possa albergar empresas que tratem de produção e gestão de negócios relacionados com o universo musical.

Desde editoras a produtoras, de estúdios a lojas de instrumentos, de empresas de produção e gestão de conteúdos a empresas tecnológicas. Aqui, sim, falamos de fechar o ciclo, falamos de dinheiro, de empregos e de tudo o resto que já se tinha tentado alcançar nos dois passos anteriores.