Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Ilustração: Lisa Teles

O dia começa lento, como começam todos os outros dias em que a noite é passada a contemplar as sombras do quarto escuro iluminado pelo néon verde do velho despertador.

Noite após noite, semana após semana, ano após ano, abre a cama e deita-se nos lençóis de algodão para ali ficar, numa quietude forçada, à espera que a inconsciência chegue e lhe traga umas horas de um negro sem sombras. E noite após noite, o tempo escorre devagar, marcado pelo néon verde que pulsa, poc, poc, poc. Clic. Mais um minuto que morre para dar lugar a outro, poc, poc, poc. Um gemido filtrado pelo tecto. Clic. O ranger contínuo de uma cama. Poc, poc, poc. Clic. Um grito abafado. Poc poc poc. E ele deitado, de olhar perdido nas sombras do quarto, nas sombras de si. Clic. Um carro passa veloz. Poc, poc, poc. Um cão ladra ao longe. Poc, poc, poc. Um autoclismo descarrega. Clic. Poc poc poc e mais nada. Apenas o silêncio, interrompido pelo passar do tempo que se avoluma, ensurdecedor. poc poc poc poc poc poc, como se o perseguisse pela escuridão esverdeada do quarto e ele a esconder-se debaixo da almofada como que para asfixiar a consciência, para desligar o pulsar contínuo que parece invadi-lo, possuí-lo e já é ele que pulsa, poc, poc, são as veias que latejam nas têmporas, poc, poc, é o coração que bate no peito, poc, poc, é o cérebro inteiro que se contrai e dilata, e a noite a rir-se com um riso lento e pesado, poc, poc, clic, e ele impotente, encolhido, escondido entre cobertores e almofadas, à espera dos primeiros sons da madrugada que levam a noite para longe.

Clic. A luz começa a entrar, coada pelos estores velhos. Os músculos começam a descontrair. Poc, poc. Um carro passa na rua, e depois outro e outro. Os pássaros chilreiam. Clic. O coração começa a abrandar e sente que já pode abandonar o refúgio da almofada. Espreita o ecrã do relógio. 6:57. O sangue volta a circular nas veias à velocidade normal. Clic. 6:58. Passa a língua pelos lábios secos e começa a afastar os cobertores. Clic. 6:59. Uma respiração funda. Poc poc. 7:00. Bzzzzzzz. Ploc, o som seco do murro no botão de alarme como se fosse possível esmurrar assim a noite, como se pudesse esmurrar-se assim também e desligar toda a consciência de si e do mundo. Ploc. Apagou. E depois silêncio.

Mas não. Nada lhe dá o silêncio.

Senta-se na cama e estica os membros, dormentes da imobilidade forçada. Arrasta-se devagar até à casa de banho e contempla o rosto macilento e encovado, de olheiras fundas. Do outro lado do espelho o reflexo de si observa-o, inexpressivo, vazio, baço, como se a existência lhe consumisse a vida. Com gestos mecânicos barbeia-se, toma banho, veste a roupa engomada, come o pão seco do dia anterior e engole o café. Fecha a porta à chave, como se fechasse a noite atrás de si e sai para a rua cinzenta, cheia de carros e gentes apressadas que não reparam no homem magro de olheiras fundas que caminha a seu lado. Gentes que se deslocam em uníssono, poc poc poc, em direção à paragem, poc poc poc no chão metálico das escadas, acotovelando-se na subida do autocarro, poc poc poc, depressa, empurrando os outros por um lugar sentado, o ruído contínuo do autocarro que trava, chiiiiii, e novamente poc poc poc que desce, poc poc poc que caminha, e as nuvens cinzentas, ameaçadoras, parecem descer tanto que já não há céu, só uma cortina de chumbo por cima das gentes que poc poc poc, se movem indiferentes a tudo, principalmente ao homem macilento e magro, de olheiras fundas, que empurram, pisam, espremem e acotovelam na sua marcha apressada para mais um dia de trabalho.

E o homem chega ao escritório, caminha de olhos baixos pela fileira alinhada de secretárias até à última de todas, indiferente aos risos, às brincadeiras, à agitação do começo do dia. Indiferente aos bons dias e aos convites para a sala de café que não lhe são dirigidos. Indiferente à vida que fervilha indiferente a si.

E o homem senta-se na cadeira da última secretária, o tic tac do velho relógio de pulso a marcar o ritmo do trabalho. Tic tac amontoa papéis. Tic tac carimba, poc. Tic tac agrafa, clap. Tic tac arquiva, plung. Tic tac, tic tac, carimba, agrafa, arquiva. Tic tac poc clap plung, tic tac poc clap plung. Colegas largam papéis na secretária cinzenta sem uma palavra. Tic tac. Ele de olhos baixos para não ver a indiferença. Tic tac, carimba, poc. Tic tac, agrafa, clap. Tic tac, arquiva, plung.

Tic tac, hora de almoço. Gente que se levanta, que fala e ri. Que sai em alvoroço. E o homem magro vai ficando na secretária cinzenta a carimbar, a agrafar, a arquivar para evitar o cumprimento frio e o silêncio constrangido, para não ter de ver que ninguém o vê porque ele, de rosto macilento e magro e olheiras fundas, afinal é transparente.

E o escritório volta a encher, tic tac, os papéis avolumam-se na secretária, tic tac, carimba, agrafa, arquiva, tic tac, e o tempo escorre, tic tac, tarde fora, tic tac, devagar pelos ponteiros do relógio até às cinco, o ritmo marcado pelas conversas dos colegas, pelo poc do carimbo e o clap do agrafador e pela indiferença pesada de quem deixa papéis na sua mesa sem reparar na sua face encovada e nas olheiras fundas, como a secretária fosse uma extensão do homem magro que carimba, agrafa e arquiva, poc, clap, plung.

Tic Tac, 5.00, todos em direção ao elevador e ele ainda na secretária cinzenta, a arrumar as coisas, tic tac, 5.01, alinha as canetas para o dia seguinte, 5.02, veste o casaco com gestos lentos, 5.03, tic tac, e já não está ninguém no escritório, já pode seguir a viagem para o elevador vazio, pela rua apinhada, poc poc poc. E lá vai em direção ao autocarro cheio, à casa vazia, a transpiração dos outros a inundar-lhe as narinas, os solavancos a revolvem-lhe o estômago, tic tac, o ar a parecer não chegar aos pulmões, tic tac, a luz a apagar-se e o ruído a dar lugar ao silêncio. Chiiiiiiiiiii. Os travões do autocarro projetam a multidão e ninguém repara no homem magro de rosto macilento que cai desamparado no chão metálico e sujo do autocarro, se levanta devagar e sacode o fato, nem na quase lágrima que quase aflora o olhar fundo e triste, uma lágrima pela perda da quase inconsciência e do quase silêncio que parecia quase chegar.

Mas não. Para ele não há silêncio.

Para o homem magro há o zumbido eterno da consciência, alimentado pelos ruídos do mundo, que se avolumam e adensam e lhe fazem latejar as veias das têmporas novamente, e o coração que bate poc poc, o néon intermitente do autocarro, clic clic, a indicar a paragem, clic clic, e a multidão que se espreme e empurra e ele transparente, reduzido a uma consciência latejante que ninguém vê. Ainda se alguém o visse. Ainda se alguém deixasse pousar o olhar no dele durante uns instantes, ainda que pequeno, ainda que só o tempo de um tic.

Mas não. Para ele não há olhares, nem palavras, nem sorrisos.

Ninguém o sente. Ninguém o lembra. Ninguém o espera. Só a noite. A noite espera-o, pontual, pronta a engoli-lo nas suas entranhas escuras iluminadas a néon verde e a digeri-lo demoradamente até ao amanhecer.

Clac. A chave dá a volta à fechadura e a porta abre-se. Hesita. Podia voltar para trás, vaguear pela cidade até ao amanhecer, ser consumido por outra noite que não a do lento poc poc clic iluminado a néon verde, que o dilacera devagar, instante a instante.

Fica parado na ombreira da porta, incapaz de decidir, entorpecido. Os sons emaranham-se. Rec rec rec. O ranger do soalho comido pela traça. Buááá. O choro de um bebé. Brmmmm. O ruído contínuo de uma misturadora a passar a sopa. Gritos. Truuuum. Coisas que caem. Música. Plashhhh. Descargas de autoclismo. Pratos e talheres. Mais gritos e coisas que caem, que estilhaçam, e é ele que estilhaça por dentro no meio da cacofonia que se avoluma. Rec Rec, crac crac, brmmm, buáá, ploc, chlac, ping, bang, trum, plashh, aaaarghhhhh!

Tapa os ouvidos e desce a escada a correr, atropelando a vizinha do terceiro andar que sobe carregada com os sacos de compras e que fica a vociferar agarrada ao corrimão, ela que nunca antes reparara nele porque ele é o homem magro silencioso em que ninguém repara, porque ele é apenas uma sombra estilhaçada por dentro.

Sai pela porta do prédio ainda a correr. Aspira o ar violentamente. Sente-o entrar, as narinas a dilatarem. Fecha os olhos. Durante um instante, o tempo de um tic só, nada mais existe. Nem sons, nem mundo. Só ele e o ar que lhe entra pelas narinas em golfadas e o transforma em brisa, em nada.

O empurrão de um transeunte trá-lo de volta à realidade. A tarde dá lugar à noite. As pessoas apressam-se no regresso a casa. Luzes acendem-se nas janelas. O dia parece sossegar e ninguém repara no homem magro de olheiras fundas e olhos vazios encostado à parede que parece não saber para onde ir.

Respira fundo mais uma vez, na esperança de encontrar no oxigénio mais um instante de sentido pleno pela ausência total de sentido. Um instante em que o seu corpo magro se evapore em ar e o homem de olheiras fundas se transforme em brisa. Um instante em que o tic tac do tempo se suspenda para sempre.

Mas não. Para ele não há suspensão.

Para o homem magro há apenas a consciência aguda e o medo da noite que cai. Que se agiganta sobre ele, ameaçadora, imparável, em direção a mais uma manhã igual às outras, a mais um dia igual aos outros e a mais uma noite igual às outras, a uma vida em que tudo se repete numa agonia circular. E o homem magro de olheiras fundas avança sobre a cidade na esperança de fugir de si.

A noite desce rápida, como se viesse ao encontro dele, como se respondesse à sua súbita decisão. O homem avança, confuso, hesitante, sem rumo. A cidade agita-se, toda ela cores e sons, poc poc poc clic, o sinal verde do semáforo dos peões, pi pi pi, póóó, uma ambulância que passa, veloz, seguida de um carro de polícia, que deixam no ar um rasto de vermelho e azul, vrumm, aceleram carros que se ultrapassam nas várias faixas, trrrrzzz trrrrzzz, lojistas descem os estores metálicos das suas lojas, anunciadas em grandes cartazes iluminados com letras fundidas, chiiiiiiiii, trava o autocarro para deixar sair passageiros que desaguam nas ruas e se apressam pelas ruas em direção às janelas iluminadas onde a vida parece acontecer indiferente à escuridão e aos sons da cidade.

O homem magro avança com passo rápido por entre pessoas e carros. Aconchega-se a si mesmo apertando o casaco contra o corpo, tentando proteger-se do medo e do frio que paira em forma de neblina. Olha à sua volta. Está perdido. A marcha confusa levara-o até à orla da cidade, a uma zona desconhecida em que os néones coloridos dos placards e sinais dão lugar a sombras que crescem na escuridão dos candeeiros fundidos, em que os transeuntes que se apressam no percurso de regresso a casa dão lugar a vultos silenciosos que se movem como se a noite fosse o seu elemento.

Tic tac, tic tac. O silêncio da rua parece ganhar forma. Tic tac, é o relógio de pulso ou o seu coração que pulsa, não sabe. Na noite nenhum som. Nem carros, nem autocarros, nem pessoas. Olha à volta sem abrandar o passo. Parece estar num bairro fantasma, de prédios altos e degradados ladeados por árvores e escuridão.

O homem magro transpira de frio e de medo. Medo daquela escuridão nova, uma escuridão mais vazia e feroz do que o pulsante néon verde que lhe consome as noites e a vida. E, de repente, passos. Primeiro ao longe, apressados, poc poc poc. Depois cada vez mais perto e é ele que acelera, poc poc poc, o casaco apertado contra o peito, poc poc poc, e a sombra a persegui-lo, a crescer, quase a cobrir a sua. E é já o seu coração que faz poc poc poc e o terror frio deixa-lhe o corpo a transpirar e pode acabar mesmo ali, entre as árvores, junto ao rio, às mãos de um vulto escuro, e o sangue pulsa e ele continua poc poc poc, por entre as árvores, e afasta-se dos prédios e a sombra a cobrir a sua e podia parar, poc poc poc, bate o coração, podia enfrentar o vulto e o destino, que disso não tinha medo, mas o coração parece não saber porque teima em continuar a bater assim, poc poc poc, poc, como se fosse rebentar no peito magro.

E mesmo à sua frente outro vulto sai das árvores, poc poc, o coração vai parar de vez, poc poc, e o vulto avança sobre si, poc poc, e agora são os passos atrás e o vulto à frente e o suor que escorre num fio fino sobre os olhos e ele já não vê, poc poc, só sente o medo frio na base da espinha e o coração a rebentar no peito.

Queres divertir-te, pergunta-lhe o vulto. Afinal é uma mulher e agora é ele, o homem magro que ninguém vê, que finge não ver a mulher que continua a perguntar-lhe se se quer divertir e a prometer-lhe, de peito e pernas nus, que conseguirá fazê-lo feliz. A ele, o homem de olheiras fundas que nunca soube o que era a felicidade.

E o vulto que o segue ultrapassa-o e é um homem magro como ele, de olhar vazio como ele, de casaco fino apertado contra o peito como ele, que a mulher persegue a prometer diversão e felicidade como lhe prometera a ele.

Outros vultos saem das sombras da noite por entre as árvores e o homem corre, poc poc poc, o coração a bater, poc poc, e aperta os ouvidos para não se ouvir e continua a correr, poc poc poc, numa marcha contrária à do rio viscoso que se estende por entre as árvores no meio da escuridão mesmo ao seu lado. E grita, abafando o bater do coração e o qschhhh qschhh das águas do rio que correm, indiferentes ao tempo e à cidade e ao grito do homem magro que sente o coração a explodir contra as costelas do peito e o suor que lhe escorre pela face encovada e já não sabe se é o suor ou as lágrimas que lhe toldam a visão, ele que chora a noite e a vida e a morte que não vem.

Splaaaaaaaachhhhhh!

O cego ouve o grito e som da queda de um corpo na água. Sente os músculos ficarem tensos. Alguém caiu nas águas do rio. Se calhar empurrado. Terá sido um crime? Estará o assassino por perto? Um arrepio percorre-lhe o corpo. Que bom seria poder ver, repete para si, como sempre fazia quando a realidade lhe pedia mais um sentido para dar sentido ao mundo.

Mas não. Para ele, há muito tempo que não há visão. Nem sentido.

Respira fundo e suspende o ar dentro si. Concentra toda a atenção no ouvido direito, aproximando-o do local de onde lhe parece ter vindo o som. Só ouve o contínuo qscchhhh qscchhhh das águas que avançam tumultuosas na noite, ele que é sempre noite porque não há luz que lhe ilumine o dia. Nada. Nenhum som além do rio a correr e um cão que ladra ao longe.

E, de repente, alguma coisa perturba a continuidade do som. Slung slung. Alguém que esbraceja? Sem medo das águas nem do escuro, lança-se ao rio, o ouvido direito em alerta. Nada contra a corrente, como nadara quando ainda havia luz e o rio era mais do que um qscchhhh qscchhhh nauseabundo.

O homem magro sente-se entorpecer pelo frio. Por momentos esbraceja, tentando contrariar o fluxo de água que lhe enche os pulmões e que o leva até ao fundo do rio sujo. Um último reflexo de sobrevivência antes de deixar que a água lhe asfixie a consciência e lhe desligue o pulsar contínuo do tempo, poc, poc, o coração ainda bate no peito magro, qschhh qschhh e o rio parece rir-se enquanto o leva a ele, que, de braços abertos espera que a água o engula e lhe apague por fim a consciência.

Mas não. Para ele parece não haver fim.

O homem cego sente com todos os outros sentidos. Nada contra a água em direção ao corpo como se tivesse um radar, como se adivinhasse, os olhos abertos para ver a escuridão. Segue o corpo que se afasta, levado pela força da corrente. As mãos abrem caminho na água viscosa, slach slach, e avançam em direção ao corpo, slach slach, e o cego não vê a sombra do rio iluminado pela lua minguante mas conhece-lhe o som, qschhh qschhh, e o cheiro, e sente com os outros sentidos ou então com a alma que há qualquer coisa a perturbar a marcha indiferente do rio. E as mãos avançam velozes. Acertam em qualquer coisa. Tacteia pela água e sente o corpo inerte e tenta agarrá-lo mas ele foge levado pela força da corrente. Slach slach, contra as águas, segura um braço, puxa um peso. Um peso leve, um quase nada e arrasta, slach slach, nas águas do rio, na noite no escuro, slach slach slach slach.

O coração do cego bate no peito com força. Milhares de pequenas luzes explodem-lhe na escuridão do olhar. Sente a força a fugir-lhe dos membros, os sentidos embotados. Já nem sabe em que direção nadar. Slach slach, a mão esquerda a puxar o corpo inerte, slachh, a mão direita avança, sozinha, rasgando a água, slachh, e o cansaço, slachh, e os dois corpos rodopiam na água, qschhh, e o cego respira, se calhar pela última vez, porque a escuridão não o assusta, ele que já só vive meia vida sem sentido.

Mas não. Ainda não.

Num último esforço o braço direito do cego agita-se, os pés dão impulso. Slach slach. Nada em direção a qualquer sítio contrariando a água. E, de repente, chão. E o cego respira e assenta um pé e depois outro e puxa o corpo inerte pela margem e tacteia até encontrar as costelas do peito magro e pressiona onde pressente o coração, ele que não vê mas sente, e procura com os lábios a boca do outro para lhe dar todo o ar que tem em si, bfffff bffff porque o sentido está naquele momento, poc poc poc no coração, bfff bfff na boca, e só dando vida àquele corpo poderá compreender porque viveu meia vida, poc poc, bfff bfff, ele que ficou cego numa brincadeira estúpida, poc poc, bfff bfff, numa tarde de sol em que brincava no rio.

Cof cof cof, sai a água em golfadas e entra o ar com força no peito inundado do homem magro. Abre os olhos. Um vulto debruça-se sobre ele. A consciência volta devagar, ainda submersa na dor que lhe oprime os pulmões e no frio que lhe gela o corpo. Não percebe porque volta assim do nada, do silêncio, da escuridão. O vulto pergunta-lhe se está bem e puxa-o desajeitadamente como se fosse uma marioneta. Cof cof, cospe a água e não responde e umas mãos tacteiam-lhe a cara molhada e os dedos desenham-lhe os traços e ele sente o toque das mãos do outro. Cego. Pensa e ouve em uníssono, e as mãos que o desenham descem até ao coração e ficam a sentir-lhe o bater e o homem magro que ninguém vê pela primeira vez sente-se visto.

Senta-se. O cego dá-lhe espaço para se movimentar. Está bem? Sim, estou bem. E por um momento os dois homens partilharam o silêncio e a noite, sem precisarem de palavras. Ficam simplesmente sentados na margem do rio, molhados e frios, e nenhum sentiu a dor de não ver e não ser visto porque ambos se viam sem se ver.

O tempo passa devagar, marcado pelo qschhh qschhh das águas viscosas do rio. O cego levanta-se, vou indo, e o outro acompanha e seguem os dois lado a lado, em silêncio, pela vereda de árvores escuras e pelo bairro fantasma e já nenhum vulto assusta, nem a escuridão, porque cada um sabe que o outro deu sentido à sua meia vida.

O cego para. Ficam frente a frente e apertam as mãos. Boa sorte, companheiro. Boa sorte. Obrigado. Seguem.

O homem magro chega a casa. Entra no quarto escuro iluminado pelo néon verde do despertador. Despe a roupa húmida e deita-se nos lençóis brancos. Poc poc poc. Clic. A luz começa a entrar, coada pelos estores velhos. Os músculos começam a descontrair. Poc, poc. Os pássaros chilreiam lá fora. Clic. O coração começa a abrandar. 6:58. Poc poc poc. Clic. 6:59. Uma respiração funda. 7:00. Desliga toda a consciência de si e do mundo. Apaga. E depois, silêncio.