Escrever é fundamental. Mas se o é, então porque me esqueço de o fazer, ou porque me ocupo com mil e uma tarefas triviais, desviando-me dessa ocupação essencial, que é ainda aquela que me traz mais alegria?

Escrever implica reflexão. Ler, observar, ouvir, enquanto todos estão demasiado ocupados a falar. Escrever força-me a perscrutar o que sinto, as preocupações, os medos, as dores. No momento em que os abordo através da escrita, o que até então era apenas uma sensação transforma-se em palavras e torna-se indiscutivelmente uma realidade.

E é aí que a escrita se torna difícil. Porque enquanto as palavras não atingem a folha de papel, todas as ideias que cruzam o espírito são imateriais, meras possibilidades apenas. Podemos esquecê-las, negá-las, e continuar sorridentes, ainda que o sofrimento aperte o peito. No papel, somos forçados a enfrentar a realidade e a admiti-la. E aí tem início outra luta. Somos forçados a encarar os receios, sem fuga possível. Mesmo que o seu rosto seja assustador, e a fuga aparente seja o caminho a tomar. Plasmar a ideia no papel, com a mesma forma que apresenta na nossa mente é um desafio. Ainda assim, é importante fazê-lo.

E a escrita também sabe ser um apoio. Perante os fantasmas, ela guia-nos pelo caminho certo, deixando atrás de nós um trilho de migalhas. Será um percurso longo e difícil, sem final definido, mas que tem de ser percorrido.

É aí que, depois das dificuldades iniciais, percebendo a existência de um fio condutor, mesmo que desconheça o sítio para onde vou, compreendo a necessidade de continuar. Seguir em frente e não parar. Mesmo tendo consciência de que não serei nunca um Italo Calvino ou terei a capacidade ensaística de Umberto Eco. Não saberei narrar como Dino Buzzati, ou Flannery O’Connor. Não terei a delicadeza de Carson McCullers. Não serei nunca um milésimo do que foram. Nunca as minhas palavras atingirão a dimensão destas pessoas. E, na verdade, não creio que o deseje. Se alguém como eu fosse tido na mesma medida de consideração que estas pessoas, seria decerto porque algo de muito errado se passava no mundo.

O mundo está cheio de erros e de maus julgamentos. Contudo, a qualidade deveria ser um elemento indiscutível. Deveria ser facilmente reconhecível, sem espaço para grandes desvarios. No entanto, quantidade e a lei da maioria facilmente são tomadas por substitutos da qualidade.

Cinco anos após ter escrito uma dissertação de mestrado em que louvava e advogava a capacidade de democratização da internet, hoje não consigo repetir as considerações que teci na época. A acessibilidade é uma coisa bonita, mas a qualidade de um texto é algo ainda melhor. Da qual nunca abdicarei.