A julgar pelo título do post, irei escrever sobre uma pomada da adega cooperativa de Valpaços que junta nem mais nem menos 6 vinhos da região. Uma zurrapa, portanto.

Desenganem-se. Assim no âmago, este post é sobre um artefacto ícone de uma cultura de produção muito próxima da nossa terra, Leiria. Escrevo-vos hoje sobre a mitológica Garrafa de Seis Vinhos.

Vi este artefacto, pela primeira vez, no Museu do Vidro na Marinha Grande. É um exemplar feito aquando da visita de uma figura importante à cidade. Vista como um token de gratidão, incorpora algumas das técnicas usadas na produção de peças de vidro artesanais. Das técnicas usadas a frio ou a quente na saída do vidro do forno, este artefacto apresenta um portefólio quase completo de como se pode transformar o vidro. Para além disso, neste artefacto estas técnicas são aplicadas de forma exímia, revelando a destreza de mestre. Nem é por menos, já que esta peça era uma das peças/provas para aptidão a mestre vidreiro.

A aprendizagem de vidreiro passa por várias etapas. Podendo trabalhar só ou em grupo, o aprendiz normalmente começa a ajudar o vidreiro que se senta no seu posto. Daí em diante, há vários postos consoante a experiência.

Trabalhando nos diversos postos de produção, em frente ao forno da fábrica o caminho aprendia-se fazendo. Na Fábrica Escola Guilherme Stephens havia vários cursos, ou, se quisermos, etapas. Mesmo não havendo, de meu conhecimento, grande informação sobre as “aulas”, há uma ideia de que havia certos artefactos que representavam um nível de experiência.

14957960_1310894295587582_1066137034_oSe para se ser considerado mestre vidreiro era preciso saber fazer uma garrafa de seis vinhos, para começar por aprendiz um frasco de vidreiro chegava. Podendo ser mais ou menos decorado por fora, o frasco do vidreiro punha em prática algumas das técnicas do vidro soprado. Curioso é que “este frasco chato imortalizou-se na vida quotidiana do operário vidreiro”.

Há na vida de fábrica um saber empírico enorme que se materializa nalguns artefactos feitos à mão. Esta matéria transformada contém em si a cultura do fazer que a gerou, transmitida e passada, mesmo que só observada, de geração em geração. Este saber carrega mais do que aparenta e é um valor, técnico, mas também cultural, radicado precisamente onde surgiu.

Numa semana onde se inaugura o Galo, “que tem uma série de LEDs e que canta.” (sic), vale a pena relembrar quais os símbolos culturais que queremos e devemos afirmar.