Cláudia Almeida é a senhora que se segue no Fora de Cena. Ela é actriz do grupo de teatro Gambuzinos com um Pé de Fora, da Benedita. Eis o que nos disse:

Conta-nos a tua história, o que te motivou a ir para o teatro e como tem sido o teu percurso?
O meu nome é Cláudia Almeida e tenho 34 anos. Sou licenciada em Educação de Infância, sou solteira e mãe de um pré-adolescente de 13 anos. O teatro apareceu na minha vida muito cedo, por volta dos 6 anos, quando “atormentávamos” a família na ceia de Natal com mil peças e danças sobre o Natal enquanto esperávamos a chegada do Pai Natal. Alguns anos depois, já aluna do 12º ano no Externato Cooperativo da Benedita, apareceram alguns cartazes pela escola que convidavam a aparecer num clube de teatro que se iria formar. Sempre fui um pouco tímida mas, com o apoio da minha prima Ana Catarina Almeida, decidi ir. A possibilidade de assumir outras personalidades atraiu-me e, a partir desse dia, o “bichinho” do teatro apoderou-se de mim e nunca mais parei, faz este ano 16 anos que tudo começou com o grupo de teatro Gambuzinos. Tenho feito um pouco de tudo – comédias, tragédias, sátiras – cada uma com a sua especificidade que torna esta vida de actriz amadora tão estimulante e viciante. Os Gambuzinos com um Pé de Fora têm sido uma segunda família para mim! Aqui fiz amigos que sei que vão durar o resto da minha vida e como membro mais antigo em função, exceptuando naturalmente o encenador José Saramago, sinto uma grande responsabilidade em perpetuar o nome e o grupo.

Na tua opinião, qual o valor do teatro relativamente a outras artes?
O teatro é mais intimista. Apesar de também ser fã das outras artes, na minha opinião o teatro é mágico, cada sessão é única e personalizada. Podemos ver a mesma peça várias vezes e há sempre qualquer coisa que muda, nem que seja a perspectiva do espectador.

Se pudesses ir buscar características a personagens que já interpretaste, quais seriam?
Eu acho que ao longo destes 16 anos fui ficando com um pouco de cada personagem em mim. Uma mistura entre a sensualidade da rainha Titânia no Sonho de Uma Noite de Verão e o mau feitio do Caliban na Tempestade.

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Como costumas lidar com as críticas?
Muito bem. As críticas, na minha perspectiva, são sempre uma maneira de poder melhorar a minha prestação e dar um espectáculo ainda melhor. Sou a minha maior crítica e acho que posso sempre melhorar, por isso, qualquer input é bem vindo.

Conta-nos um episódio imprevisto que te tenha acontecido em palco ou na preparação de uma peça e como lidaste com ele.
Numa sessão da Medeia de Eurípides, na qual interpretava a Ama, tinha um monólogo durante a qual cerca de 15 colegas desciam das laterais e formavam um semi-círculo à minha volta e quando eu acabava de falar, eles começaram todos a falar em uníssono. Foi exactamente nesse monólogo que se “desligou” o meu cérebro e toda a deixa desapareceu. Nesse momento olhei para trás e estavam 15 pessoas a olhar para mim, à espera da deixa que não ia aparecer. Foi horrível, fiquei em pânico, sem saber o que fazer. Mas os deuses do teatro estavam atentos e um desses 15, Bruno Fialho, olhou para mim e telepaticamente lhe “disse” o que estava a passar, ele percebeu e disse a primeira linha da fala sozinho, todos os outros entraram logo a seguir e a cena prosseguiu. Nem que eu viva 100 anos me vou esquecer daquela sensação terrível.

Quais os principais desafios e entraves com que geralmente te deparas e como costumas ultrapassá-los?
Sendo mãe solteira não é fácil lidar com os ensaios e o tempo que preciso de passar com o meu filho, mas tive a sorte de nascer numa família que me apoia muito e tenho conseguido conjugar tudo. Para além disso, decorar o texto não é muito fácil para mim mas vou chateando alguns amigos para “bater” texto comigo e assim torna-se tudo mais fácil.

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Mesmo sem bola de cristal, como vês o futuro do teatro em Portugal?
Eu moro numa terra que aprecia o teatro. Esta última peça que fizemos, O Bem Amado, de Dias Gomes, esgotou 3 vezes. Apesar disso tenho algum receio que esta arte que me é tão querida esteja a desaparecer aos poucos.

Que actor/actriz português/portuguesa mais admiras?
Ruy de Carvalho, sem sombra de dúvidas. O que é que há para não admirar neste “monstro de palco”?

Tens algum ritual de entrada em cena?
Sim. Como todo o actor que se preze, tenho um ritual antes de entrar em palco, uma espécie de auto-motivação. Fecho os olhos e repito 3 vezes “tu consegues, tu sabes e vai correr tudo bem”.

Qual a peça de teatro para a qual comprarias novamente bilhete para voltar a ver? 
As Obras Completas de Shakespeare em 97 minutos. Vi duas vezes seguidas no Teatro Mário Viegas pela Companhia Teatral do Chiado e veria novamente vezes sem conta.

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